Jornal de Opinião

São muitos os textos enviados para a Agência Ecclesia com pedido de publicação. De diferentes personalidades e contextos sociais e eclesiais, o seu conteúdo é exclusivamente da responsabilidade dos seus autores. São esses textos que aqui se publicam, sem que afectem critérios editoriais da Agência Ecclesia. Trata-se de um espaço de divulgação da opinião assinada e assumida, contribuindo para o debate de ideias, que a internet possibilita.

04/08/10

Quénia numa encruzilhada…

Este é o início da minha postagem.



O Quénia prepara-se para um momento importante na sua história: o referendo sobre a nova Constituição da República a realizar no próximo dia 4 de Agosto.
Há quem tema que o país volte à desordem e destruição que viveu depois das últimas eleições em Dezembro 2007. Seguiram-se 3 meses de violência étnica que provocou cerca de 1350 mortos e centenas de milhar de deslocados. Uma percentagem dos deslocados continuam ainda hoje, passados mais de 2 anos, a viver em tendas improvisadas, tendas essas que se tornaram em habitações permanentes devido ao esquecimento a que foram votados pelo governo do país.
É verdade que o país necessita de uma Constituição nova e mais democrática. É verdade que a mudança das leis eleitorais como são propostas neste documento poderão ajudar a evitar tais derramamentos de sangue no futuro.
Mas não deixa de ser também verdade que muitos valores humanitários e fundamentalmente cristãos estão muito comprometidos na redacção da Constituição proposta a referendo no próximo dia 4 de Agosto.
Antes de mais nada a questão fundamental da vida: a permissão do aborto dentro de parâmetros muito permissivos, ainda que a redação do artigo tenha sido engenhosamente preparado para fazer crer que o aborto não é permitido. São os buracos das leis que também neste país, os políticos já aprenderam a orquestrar.
Há depois uma questão muito sensível que é a inclusão na Constituição dos tribunais islâmicos como parte do sistema judicial do país. Esta inclusão é por si só privilegiar um determinado grupo de pessoas em detrimento dos demais cidadãos do país. Mais ainda, os magistrados dos ditos tribunais islâmicos são pagos pelos impostos de todos os cidadãos quenianos: muçulmanos, cristãos, hindus ou simplesmente ateus.
Isto ainda quando a mesma Constituição afirma que nenhum cidadão será beneficiado ou prejudicado em função do seu sexo, língua, modo de vestir, tribo, estado civil ou religião professada.
Há ainda outras razões de foro mais político que estão a dividir o país.
Uns querem fazer crer que a nova Constituição é “tábua de salvação” de um país inundado pela corrupção e pelos interesses particulares que ao longo dos anos teimam em prosseguir impunes.
Outros, como a grande maioria das Igrejas no país (não só os católicos, mas também os anglicanos e demais pentecostais), querem fazer ver aos cidadãos que questões de fé e valores humanos como o da vida não podem ser votados por maiorias nem sujeitos à vontade popular. Por isso dizem não a esta Constituição e pedem mais diálogo ao governo para tirar “as maças podres” de uma Constituição que deveria dar ao país um respiro mais democrático, mais justo e mais humano.
Veremos o que se irá passar no próximo dia 4 de Agosto. Porque o Quénia pode estar à beira de uma nova onda de violência ou, contrariamente, uma nova era de futuro risonho, peço-vos uma oração especial durante este mês por este povo que também é amado por Deus e que já sofreu o suficiente em anos muito recentes. Pedimos o dom da paz e da harmonia.
Vemo-nos em breve!

Pe. Filipe Resende
Kacheliba Catholic Parish – North Pökot - Quénia


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30/07/10

Vinte por cento... em favor dos mais pobres

Seria bom que os políticos cristãos pudessem dispor de 20% dos seus rendimentos para um fundo em favor dos mais pobres. Esta sugestão de D. Carlos Azevedo – muito natural e incisiva, após uma reunião do Conselho Consultivo da Pastoral Social – como que provocou alguns respigos de incomodidade, pois certos políticos com proximidade ‘cristã’ consideraram que a sugestão do prelado não era tão bem vinda como seria de esperar. Houve até alguém que, fazendo uso de expressões bíblicas, descartava a possibilidade de entrar nesta onda de partilha, relegando o assunto para o foro privado de consciência... intimista.

*De que pobreza falamos?
Quando ouvimos certas forças – sociais, políticas, sindicais, religiosas ou, mesmo, cristãs – falarem de pobres como que nos parece estarmos a falar de realidades que não têm a ver com o nosso mundo, isto é, o espaço onde vivemos, nos movemos e existimos. De facto, para certas figuras os pobres serão como que uma entidade abstracta que funciona em maré de eleições e depois se esquece (ou faz por esquecer), pois incomodam as certezas e os projectos de ambição. Por outro lado, os pobres parecem ser apenas os despojados de coisas materiais e não são atendidos. Também são pobres os de natureza psicológica, moral e até espiritual. Com efeito, muita da pobreza material é consequência e manifestação de outro tipo de pobreza, bem mais funda no seu diagnóstico e mesmo no combate para a irradicar.
- Será que estamos todos interessados em encontrar as causas da pobreza ou não andaremos a iludir as consequências?
- Será que os pobres são, de verdade, a razão de ser das propostas políticas ou não serão, antes, promotores da distracção dos ricos e oportunistas de ocasião?
- Até onde irá a ousadia em dar aos pobres ferramentas de auto-suficiência – ao nível cultural e educativo, pessoal e familiar – em vez de tentarem prolongar-lhes a dependência com subsídios e artefactos de curto prazo?

*Para uma cultura da pobreza... evangélica
A mais recente crise económico/financeira pôs a nu muitas debilidades do nosso povo – no seu conjunto e não no mero anonimato – em viver com o essencial e não para além das suas posses. Quantas vidas artificiais tiveram de deixar de manifestar riqueza fictícia! Quantas ostentações tiveram de engolir a arrogância! Quantas misérias disfarçadas tiveram de encolher o penacho! Quantas promoções e créditos tiveram de reduzir-se ao possível!
Efectivamente, a ilusão de muitos em tentarem viver acima das suas possibilidades tem sido paga de modo muito caro, tanto no presente como para o futuro. Torna-se, por isso, urgente que os cristãos reflictam sobre a qualidade ética em que estão fundamentados os seus valores: se estão alicerçados na mensagem do Evangelho e assumindo as consequências da concordância entre a fé e a vida.
Depois de uma certa resignação degradante, fomos – subtil, ardilosa e sistematicamente – seduzidos pelo consumo desenfreado. Temos, então, de reler a nossa vida à luz da pobreza evangélica, centrando-nos no essencial e sabendo repartir com os outros, na medida em que damos por caridade fraterna.
Urge, por isso, colocar a nossa vida à luz da condução de Jesus, o nosso mestre e Senhor. Certamente será à luz do código das obras de misericórdia (cfr. Mt 25,31-46) que seremos avaliados/julgados... tanto no tempo presente como na vida futura. Assim saibamos ser dignos de tão profundos e altíssimos desafios.
Comecemos, já e com espírito alegre pela dádiva aos outros... sem olhar a quem!

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)



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O verdadeiro cristianismo será o da compaixão (cum + passio)

As histórias de Jesus tornam claro o seguinte: a atenção especial de Jesus, de certo modo o seu primeiro olhar, não se dirigiu ao pecado dos outros, mas ao seu sofrimento.

E assim interroga o teólogo J. B. Metz: "Não terão talvez os cristãos ao longo do tempo compreendido e praticado o cristianismo demasiado exclusivamente como uma religião sensível ao pecado e consequentemente como uma religião pouco
sensível ao sofrimento? Não baniram os cristãos demasiado rápida e despreocupadamente do anúncio cristológico e escatológico a pergunta, o grito por Deus perante a história do sofrimento humano?

Esta mística da compaixão é, através dos outros que sofrem, uma mística "terrena"; ao mesmo tempo não frequentemente não é senão uma experiência assumida de uma "paixão por Deus", não para, desse modo, às experiências quotidianas, por vezes terrivelmente "profanas" de sofrimento, acrescentar uma religiosa, (...) mas para nesta mística da paixão por Deus reunir todas as nossas experiências de sofrimento que clamam ao céu, arrancá-las ao abismo do desespero e do esquecimento e encorajar uma nova praxis que inclui evidentemente a capacidade de culpa e a necessidade de conversão de quem age - não para a seguir anestesiar de novo a nova acção pública mediante um romantismo afastado da política, mas para lhe retirar a base do ódio e da violência pura. (1) Pois como bem diz o teólogo D. Bruno Forte: "A crise do sentido passa a ser a característica peculiar da inquietação pós-moderna. Neste tempo de pobreza, que, como observa Martin Heidegger, é 'noite do mundo', não por causa da falta de Deus, mas porque os homens já não sofrem com essa falta, a doença mortal é a indiferença, a perda do gosto na busca das razões últimas pelas quais valha a pena viver ou morrer, falta de 'paixão pela verdade', como afirma a Fides et Ratio. Para afirmar mais adiante: " A pior doença que hoje grassa no mundo é a falta de paixão pela verdade: este é o rosto trágico da condição pós-moderna. O clima da decadência leva os homens a não pensarem mais, a evitarem o esforço e a paixão pela busca do verdadeiro, e os impele a buscar vantagens imediatistas, a procurar o único interesse do consumo imediato. É o triunfo da máscara à custa da verdade: é o niilismo da renúncia do amor, quando os homens fogem à dor infinita da evidência do nada, fabricando para si máscaras para cobrir com elas a 'tragicidade' do vazio. No clima da decadência, até o amor se torna máscara e os valores reduzem-se a coberturas desfraldadas para esconder a falta de significado e de verdadeiras paixões: o homem resume-se a uma 'paixão inútil' (J. P. Sartre)". (2)

Neste mundo de crise, sem Deus e sem valores - não será esta a maior pobreza? - os cristãos, como discípulos de Cristo são chamados a seguir o Missionário do Pai, consagrado e enviado a levar a Boa Nova aos pobres (Lc 4, 16ss), que nos confiou explicitamente a missão de anunciar a Boa Nova do Reino a toda a criatura (Mt 28, 16-20).
A igreja terá de apresentar-se com um rosto sorridente e apaixonado pela maioria que irá engrossando nas pariferias da civilização, do poder, do bem comum justo e equitativo, e lançado na humilhação e no desprezo dos famintos e dos abandonados.

Armando Soares

________________

1. Igreja e Missão, Confer. no Congresso "Deus no século XXI e o
futuro do cristianismo", nº 204-206, p. 436 e ss. 2. Em Conferência
no Congresso Missionário Mundial, ano 2000, em Roma.


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23/07/10

A doença do Século e as novas ditaduras

“Fazer para ter, ter para consumir mais, conseguir mais para aparentar uma imagem melhor.”
Livro: Agonia do homem libertário
Autor: Aquilino Lorente



Em plena época de crise, somos autenticamente bombardeados pela imprensa que informa sobre as dificuldades dos países em manter as suas economias e mostrar as diferenças cada vez maiores entre os ricos e os pobres. Muito se fala sobre tudo isto, mas poucos dizem que isto é resultado da doença do século: O consumismo e as suas consequências que tem como resultado novas ditaduras.

Hoje irei falar de três delas:


1-A ditadura da beleza onde as mulheres são transformadas em objectos que desfilam em roupa que ninguém vê ou compra e tentam servir de modelo (modelo que na realidade não o é, porque não vejo na rua ninguém parecido com essas pessoas). São milhões de pessoas que, mais tarde ou mais cedo, ficam reféns por não serem iguais (só se passarem fome e tiverem bons patrocinadores) e amordaçam a sua liberdade, matam o seu bem-estar e destroem a sua auto-estima por não se aceitarem tal como são.
Cada vez me convenço mais de que em nome do lixo que anda por aí em alguma comunicação social as pessoas trocam a sua felicidade pelo esforço de tentarem ser “belas exteriormente”, não percebendo que devemos amarmo-nos tal como somos.

2 - A ditadura Ligth é mais uma palavra maldita, hoje em dia politicamente correcta, utilizada com a intenção de vender produtos de menor valor energético e que tem como objectivo atingir uma boa linha. Esses produtos estão por todo o lado: nas colas, nas manteigas, nos queijos, no café sem cafeína ou até na cerveja sem álcool.
Hoje em dia o Homem é um ser transfigurado, que procura cada vez mais mostrar o ter e nem sequer se preocupa com o ser…sim, tal como os produtos LIGHT!
Para o homem que se deixa conduzir pelo consumismo e pela publicidade massiva (que cria na maior parte das vezes falsas necessidades) o que importa é mostrar aos outros que se tem um estatuto, mas na verdade, na maior parte dos casos, interiormente evidencia-se uma debilidade, uma fraqueza e uma carência extremas, bem como a existência de um grande vazio moral, mesmo que materialmente possam ter quase tudo.


3- A ditadura do Relativismo Absoluto, como muitas vezes criticada pelo Papa Bento XVI. Vemos um homem permissivo onde não há proibições nem limitações. Tudo é válido, tudo é permitido desde que traga satisfação. Qualquer análise que se faça é positiva e negativa, pode ser boa ou má, dependendo do seu ponto de vista. Desta intolerância interminável nasce a indiferença pura. A verdade deste tipo de pessoa é imposta pelo politicamente correcto em comportamentos onde não há princípios sólidos e nem referências, onde as fronteiras entre o bem e o mal, o positivo e o negativo foram apagadas.
Com certeza, tal como o amigo leitor, eu também tenho amigos com estas “doenças” e sempre que saio com alguns deles é lamentável assistir a comportamentos em que tudo é plástico: as compras, a beleza e as marcas, num autêntico esbanjamento para dar a ideia do triunfador, do 'heroizinho' que tem êxito, prestigio social e, sobretudo, dinheiro… muito dinheiro.

Estará tudo perdido?

Quero acreditar que não. Tem que se começar por dar primazia às pessoas e àquilo que elas são. Dar dignidade, viver liberto daquilo que materialmente temos e deixarmo-nos de preocupar com o que os outros pensam.
Perceber definidamente que a aposta tem que ser no interior e que não vale a pena ser como aqueles bolos todos bonitos por fora e que à primeira dentada notamos logo que não tem creme nenhum.

A vida é simples. Todos somos seres humanos especiais e únicos e temos um lugar insubstituível neste mundo, que tem que ser mais solidário, fraterno, menos consumista e principalmente mais humilde. Se assim for, estas novas prisões como estas novas ditaduras poderão acabar, já que na verdade as pessoas valem por aquilo que são e não por aquilo que aparentam ser ou possuir.

Cláudio Anaia
claudioanaia@hotmail.com


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Ao compasso do tempo - 23 de Julho de 2010

Leitura semanal dos problemas do Mundo e da Igreja


Caro Alfredo

Tenho seguido há longuíssimos meses o bilhete-postal que o bispo emérito de Setúbal lhe tem endereçado através do “Notícias de Setúbal”.
Dirijo-me à sua pessoa para lhe dizer, com o respeito que nos une ou deve unir, que tenho estranhado o seu silêncio. Muitos calam-se (quase sempre) para não serem apanhados pelo veredicto do nosso Miguel Torgal, quando sentencia que o português, ao abrir a boca, só solta banalidades. É exagerada a sentença, com certeza.
Talvez o Alfredo (com o respeito devido, o pronuncio) esteja com medo que seja acoimado de jogar no “politicamente correcto”. Da sua parte, nem um esgar de palavra. Nem uma reverencial divergência. E a sua mudez – tão lata como as fronteiras do país – torna-se moléstia. Após D. Manuel da Silva Martins, recentemente ter sido homenageado pelo município de Vila Nova de Gaia, não ouvi da sua parte o mínimo sinal de alegria…
Não leve a mal… Leve a bem o meu protesto. Andam para aí uns choramingas sempre a manear a cabeça, pela razão das mulheres e dos homens da Igreja Católica, em Portugal, não terem microfone, nem canal televisivo baptizado, nem uma notícia de primeira grandeza nos jornais de estimação… E, ao contrário destas invernias pensantes, quando surge a contradição desses impropérios, o que se regista é a sepulcral timidez ou a amaricada negação de Pedro: “Nem sequer o conheço”, ou a indiferença, porque os interesses são os de outros “reinos”, ou a inveja ou a maledicência…
E não consigo deter o meu espanto, quando referem laicismos ou “crucifixos” a apresentarem-se em paredes que não são nossas, (que nunca nos nossos critérios ou nas salas de reunião ou de almoçar/jantar de gente sempre em cruzada…)…
A contrariar o dedo estendido ao “deserto sacral” do descontentamento patriótico, pergunto a meus botões: e a Rádio Renascença não oficia 24 sobre 24 horas? E o Diário do Minho não é escritura santa, “comungada” diariamente? E o Canal televisivo 2, mais a Antena 1, não transmitem quase todos os dias os ecos da “Boa Nova”? Mas não será sempre o mesmo do mesmo… (assuntos, pessoas, perspectivas, estilos…)?!
Em certos terrenos do país já se percebe que não convém a mudança… E na Igreja? E na Igreja diocesana local?
Já vai longe a minha navegação, Alfredo. O que as pessoas gostam é de aperitivos. Uma refeição mais sólida é sempre inconveniente.
Lamento que o “Diário de Notícias”, em 20 de Julho corrente, a pág. 13, me ponha a falar, citando a minha defesa da “obediência do padre (de Fafe)” a seu bispo, mas sempre em abertura e diálogo: assim é correcto e lógico. Agora referirem que eu “compreenda a manifestação” do povo (de trezentas pessoas…) contra um servo do Evangelho, é da menos avisada esperteza! Foi isto que comuniquei telefonicamente à jornalista, cujo nome aparece no jornal citado.
Os tempos vão ser bons. Mas até lá, a ventania estraga-nos a praia.
Já reparaste na confusão que aí vai no tablado político? Dum lado. Do outro lado. A nível de palavra… A nível da vida ninguém tem curado a fome e a falta de esperança.
Vou gozar uns dias de férias, Alfredo. Deixo-te estas indignações. Quando regressar em Setembro (logo, nos princípios) espero ser ainda mais vigoroso.

Os meus cumprimentos fraternos e do maior respeito.

MDN, CSARFA, Lisboa, 23 Julho de 2010

Januário Torgal Ferreira
Bispo das Forças Armadas e de Segurança



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16/07/10

Ao compasso do tempo - 16de Julho de 2010

Em matéria de cultura política e de situação de verdade, chegamos a um ponto convergente: todos andam zangados! Até a este momento, era contra algumas pessoas… Mesmo, do ponto de vista fraterno da Igreja Católica, quem falasse de pobreza, de salários injustos, de situações sociais infernais, de que sector surgiam as críticas, o dedo estendido, o “português” que não vem no dicionário educado? Não respondo. Mas a missão evangelizadora, de que sou intérprete, tem obrigação de pôr fim à confusão, de esclarecer situações, de discutir aspectos sociais concretos.

Vamos defender a quebra de salários de funcionários públicos?
Vamos aumentar impostos a partir de uma determinada base ou instância? Prosseguiremos com os pobres às nossas costas, fechando a boca, diferindo do estatuído oficial, apanhando com os adjectivos de demagogos e aproveitadores da oportunidade, acusando o desperdício e apanhando com o desperdício na cara, zangando-nos e conspirando… E, quando nos encontramos em grupos e sectores, mais abertos ou fechados, são, em multidão, os “ditos” as histórias, as narrativas de corrupções, os inventonas, as tristezas de ruas escuras.
Mas volto ao início, para defender todos quantos, desde há longos anos, clamaram contra as desgraças e opressões, o imperialismo das opulências, os desvios e injustiças.
Então, agora, falam todos em desgraça? E os que chamaram a atenção? E os que pediram salvação e amor á Pátria? E os “aproveitadores” que, no silêncio e na sombra, estiveram atentos aos denunciadores, e para si fizeram refluir cargos e dinheiros?
E, na sequência do que tenha chamado á atenção nas últimas semanas, ponho-me, como Igreja, em questão… Alguém me escreveu, há poucos dias, profundamente ferido na sua sensibilidade católica, pela razão de ter escutado, uma homilia na Antena 1, em 4 de Julho corrente, onde era zurzido, de forma mais desumana, um sacerdote de Lisboa, falecido em 1998, e do qual era referido que após traição, se terá convertido porque foi vítima de doença cancerosa.
E, homilias deste jaez decorrem há mais de vinte anos! E no mesmo lugar! Quem permitiu tal continuasse?! “Isto” é dito e comentado!
É urgente a produtividade. Mas a favor de todos. O produto desqualificado não tem mercado. Ninguém compra a má qualidade.
Nos sectores da Igreja, acontece o mesmo… E, mais ainda: em governo público e em acção da Igreja, todos gritam pela urgência da “criatividade”. Mas “criar”, ou seja, originar novos aspectos no acolhimento, na administração dos sacramentos, na produção catequética, num conjunto de acções formativas (que não há!), não deverá ser uma responsabilidade?
Na altura que passa, nunca se falou tanto em responsabilidade!
Só espero que, em nome da nobreza tão própria, ninguém nos atire ainda mais para a desgraça. Mas, de minha parte, sem pessimismo. Sem desesperança! Havemos de dar a vitória à dignidade! Havemos de mudar para melhor!
MDN, Capelania Mor, 16 de Julho de 2010
Januário Torgal Ferreira
Bispo das Forças Armadas e de Segurança


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À descoberta do essencial

Por estes dias fui visitar um doente. Não tinha grande proximidade, directamente, à pessoa, mas somente ao filho. Nem sabia muito bem como poderia ser recebido, pois o doente – tanto quanto se sabe – não é muito religioso nem tão pouco praticante.
Era espantosa a serenidade – creio que real e não meramente induzida por medicamentos nem por disfarce – como aquele homem – consciente do estado de saúde, embora tentando evitar a total assumpção diante dos outros – quase olhava para as coisas de Deus... se é que n’Ele acredita!

Aquela espécie de serenidade foi como que provocadora. Naquela serenidade se revelava algo mais do que o passar de uma esponja sobre ‘sacanices’ (um eufemismo para talvez dizer pecados ou coisas menos correctas para consigo mesmo e os outros) do passado mais ou menos longínquo. Naquela serenidade poder-se-ia reflectir a confiança em quem o assiste (directa ou indirectamente) nestas horas (possivelmente) derradeiras.
Ficou-me, no entanto, a necessidade de reflectir sobre alguns aspectos a exigir maior ponderação e discernimento, sugerindo-me breves perguntas:
. Que cuidado temos com os doentes?
. Que consolação dámos aos doentes?
. Que presença de fé manifestamos para com os (nossos) doentes?
. Quando devemos (se devemos!) falar de Deus aos doentes em fase terminal?
. Como se pode (ou deve) preparar um doente descrente para o encontro com Deus?
. Sabemos enfrentar a nossa doença, cuidando da doença dos outros?
. Que temos feito pelas famílias dos doentes, sobretudo, nossos conhecidos e até familiares?

Sem pretendermos ideologizar a questão do cuidado prestado ou a prestar aos doentes, poderemos delinear breves sinais para uma preparação dos doentes que estão ao nosso cuidado e para que, quando estivermos em idêntica situação, possamos ser acompanhados condignamente... mesmo no aspecto espiritual/cristão.

1.Na debilidade somos mais autênticos?
Só uma pessoa com uma grande maturidade humana, psicológica e espiritual é capaz de aceitar-se na sua debilidade, sem se expor em excesso nem se esconder em exagero.
De facto, há pessoas que só estão bem a lamuriar-se, enquanto outras tentam fazer-se de fortes não deixando escapar as suas mais elementares fraquezas. O digno equilíbiro estará em sabermos ser nós mesmos, tanto nas horas de contentamento como nos momentos de revelação da nossa fraqueza, seja na doença seja na necessidade de apoio dos outros.
Nem a dimensão mais profunda e intensa da fé nos pode substrair às contigências de sermos e de vivermos na contínua exposição de nós mesmos à debilidade, que nos faz (ou deve fazer) mais humildes, mais fraternos e mais solidários.

2. Desmontar a máscara
Quando passamos pelo crivo da dificuldade – tanto psicológica como espiritual e moral – como que nos vamos conhecendo um pouco melhor, pois valorizamos o mais importante – pelo menos para nós – e relativizamos coisas que anteriormente (nos) pareciam imprescindíveis. No trato com as pessoas pode acontecer o mesmo: é nas horas de maior dificuldade que passamos a conhecer melhor quem gosta, efectiva e afectivamente, de nós. Tal como diz o povo: na prisão e na doença se percebe quem são os verdadeiros amigos. Certamente já todos podemos fazer este teste. No entanto, podemos dizer: como dói o abandono; como é difícil engolir as traições... sobretudo daqueles/as que consideravamos amigos!

3. O essencial está no nosso interior
Na caminhada da vida podemos ir descobrindo que o essencial não são as roupagens da moda nem as linguagens (mais ou menos) lisonjeiras, mas antes a correcção de vida entre os valores – dizemo-lo no contexto cristão – e a aferição do interior ao exterior, isto é, da nossa espiritualidade profunda até à profundidade da nossa correlação com o Espírito de Deus em nós.
Na medida em que se for degradando – como dizia São Paulo – o nosso homem interior se irá revelando o nosso homem espiritual, até à configuração com Cristo, o homem perfeito e glorioso em nós e através de nós.

Porque acreditamos na força da descoberta do essencial ousemos deixar que o Espírito Santo nos descasque e faça verdadeiramente autênticos n’Ele e uns para com os outros.

A. Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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