Jornal de Opinião

São muitos os textos enviados para a Agência Ecclesia com pedido de publicação. De diferentes personalidades e contextos sociais e eclesiais, o seu conteúdo é exclusivamente da responsabilidade dos seus autores. São esses textos que aqui se publicam, sem que afectem critérios editoriais da Agência Ecclesia. Trata-se de um espaço de divulgação da opinião assinada e assumida, contribuindo para o debate de ideias, que a internet possibilita.

27/02/10

Quem merece, verdadeiramente, a nossa confiança?

Num recente inquérito de um jornal católico diário sobre a questão: ‘Em quem confia mais’, com cerca de quinhentas respostas, foram apurados os seguintes resultados: 37% confiam nos jornalistas, enquanto 23% dão crédito aos padres, 18% aos polícias, 12% aos políticos e 10% aos tribunais.

Atendendo à relativa complexidade de quem é que merece a nossa confiança, talvez seja de questionar séria, serena e sinceramente o alcance sócio/profissional dos sectores atingidos, pois na sua maioria tem relevo o contacto com os outros e, por isso, cada qual é mais do que aquilo que representa e/ou significa.

Desde logo a confiança que os outros nos merecem advém das expectativas que neles colocamos, pois nós somos pessoas em relação: dando e recebendo, comunicando e entendendo... num quadro de linguagem onde fazemos e somos feitos pela cultura que nos envolve e, muitas vezes, nos molda sem nos darmos totalmente conta.

- Se atendermos ao contexto de este inquérito ter por pano de fundo a actividade de comunicação social, feita profissionalmente por jornalistas, poderemos como que vê-los como parte interessada e talvez até interesseira na boa cotação e receptividade social. Mas será que estes profissionais são anódinos e independentes? Não teremos de saber – mesmo à luz da mais recente polémica com os actores políticos e/ou governamentais – que o nosso quadro português de comunicação social se reduz a três ou quatro grupos (económicos, ideológicos e comerciais) transversais à versão escrita, à radiofónica, à televisionada, à virtual... tanto política, como artística ou desportiva? Não teremos de denunciar que, aureolados de bons, muitos dos nossos jornalistas nem sempre pensam (tão) desinteressadamente como se julga? Não será de ter em conta que esta profissão é das poucas que fala mais dos outros e que bastante pouco questiona o seu dogmatismo... informativo?

- Deixem, por isso, que tente interpretar a razoável desacreditação dos padres e até dos polícias, pois num entendimento de serviço aos outros, tanto os clérigos como os defensores da ordem (pública ou privada) terão perdido o respeito também em razão de algumas campanhas – bem urdidas e melhor difundidas – por certa comunicação social, que explora mais os escândalos do que as boas práticas, muito embora aqueles vendam e estas possam ser entendidas como normalidade dos comportamentos esperados. Sem qualquer ressentimento como que poderemos considerar que parece que o serviço altruísta vai degenerando ao sabor da desautorização moral, social e (até) intelectual de uns tantos por novas minorias de intocáveis... nas regalias adquiridas.

- Que dizer, por outro lado, da parca confiança que merecem os políticos e os tribunais? Não serão estes sectores os resultados da sociedade em que vivemos? Ou não será que estes dois sectores são reflexo da cultura de onde procedem? A qualidade do segundo (legislativo) e do terceiro poder (judiciário) estão sob o escrutínio de quem informa e – quantas vezes! – até manipula, deixando-lhes magro espaço de manobra e à mercê mais da reclamação e da correcção do dito, falado ou mostrado... do que da sintonia com o público e as populações. Efectivamente há muitos filtros entrepostos que condicionam a leitura de quem está na vida política e (mesmo) nas teias da Lei. Quantas vezes as ideologias e os lóbis fazem mais mal do que o deficiente exercício de certas tarefas e funções! Quantas vezes os códigos de conduta são vilipendiados à custa de interesses menos claros, senão mesmo obscuros e subterrâneos! Quantas vezes parece mais interessar a promoção dos medíocres do que dos mais capazes, pois outros se aproveitarão deles para se catapultarem à custa da ignorância dos incautos!

De facto, a confiança não se mede pelo resultado dos inquéritos – de opinião ou de sensacionalismo – mas antes se constrói na abertura às capacidades dos outros pelo serviço que lhes vamos prestando...desinteressadamente! A chave do sucesso não está na confiança que esperamos que os outros tenham em nós, mas na abertura à confiança que nós temos nos outros... humildemente!

A. Sílvio Couto

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19/02/10

Verdade e interesses, próprios e de grupos

Diz a sabedoria popular que a garantia de o edifício resistir às tempestades é estar construído sobre rocha firme. Até as crianças sabem isto, de tal maneira é claro, e aprendido, praticamente, por intuição normal.

Porém, o que para crianças é claro, nem sempre o é para pessoas crescidas que se gastam a construir coisas que dão nas vistas, esquecendo que, mais tarde ou mais cedo, virá ao de cima a pobreza de não se ter sabido cuidar do essencial.

É assim em muitos sectores da vida: da política ao desporto, da gestão empresarial à economia do Estado, do privado ao público. Por vezes não ficam de fora nem sequer projectos de cariz religioso.

Temos assistido, ao longo dos últimos anos, à derrocada de bancos, clubes desportivos, partidos políticos, empresas e instituições. Tudo isto, porque parece que contaram mais os interesses imediatos ou só de alguns, em vez da verdade e do compromisso com o bem social e de todos, único alicerce firme que não pressagia desmoronamentos nem ruínas do edifício social.

Quando se pretende ou se deve recomeçar, nem sempre a lição anterior foi aprendida e considerada como aviso, para não se cair num logro repetido.

Há erros irrecuperáveis que deixam vítimas sem conta como, perda de bens, projectos incompletos, desistências forçadas, aproveitamentos desonestos, malabarismos políticos, cegueiras incómodas, inimizades de estimação, truques vergonhosos, relações encrespadas. Tudo isto e mais ainda, são destroços que cobrem o campo aberto das batalhas perdidas e dos esforços malbaratados e sem futuro, sempre que falta a verdade que gera honestidade e compromisso.

A ausência de verdade na decisão das acções, concretização dos projectos e avaliação dos meios que levaram à derrocada, não admite críticas, dirigidas àqueles que a não respeitaram. Os culpados são sempre os outros, o ambiente, os ventos de fora, a famosa crise exterior. Assim, até que tudo fique claro e se veja que afinal, a mentira do orgulho que nega e não aceita a culpa, atraiu outras mentiras, vergonhosas e prejudiciais.

A vida social de hoje permite esta lamentável inversão de valores objectivos, com muita gente a calar-se por ter medo das pedras que possam cair no seu telhado. Quando alguém tem a coragem da verdade, tem logo, pela frente, a certeza de críticas destrutivas, ameaças eminentes, vinganças sofisticadas.

Quem luta na verdade e pela verdade não teme. A seu tempo, esta protege e defende aqueles que a respeitaram e serviram.

Neste momento, parece que toda a gente teme pelo futuro do país. Por motivo não das dificuldades, que sempre as ouve e se foram superando, mas da má construção do edifício social que, por via dos interesses, pessoais, de grupos e de partidos políticos, se apresenta cada vez mais débil, desconjuntado e inseguro.

O exercício aberto e correcto da democracia não devia permitir que as coisas chegassem a este ponto lamentável, de retrocesso difícil, senão mesmo impossível. Acontece, porém, que a democracia já muitos a meteram na gaveta, como em tempos se fez ao socialismo político, por se tornar incapaz de entender a realidade e agir segundo as suas exigências. É mais fácil e mais rápido olhar para o umbigo e para o bolso da carteira, que para as pessoas, com seus direitos, e para situações por resolver a pedir atenção.

Quando a politica não funciona numa base de verdade e de uma democracia a sério, tudo se complica mais. Caminhos mais obstruídos, problemas que se arrastam, pessoas que desistem, outras, sem escrúpulos, que se aproveitam da confusão.

A Europa e vários países da América Latina e da África, mais próximos da nossa compreensão, mostram o descalabro da sobreposição dos interesses à verdade objectiva. E os tribunais, mesmo os internacionais, não resolvem tudo.

António Marcelino


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Gestos que traduzem vida e fazem a história

No meio da mediocridade e da luta acirrada pelo seu prestígio, surgem pessoas, humildes e discretas, grandes de seu tamanho interior, com gestos lindos que são sinal de uma vida e de um humanismo que redime misérias. A história não grava todos os nomes, muitos heróis anónimos, mas constrói-se com o contributo de todos eles.

Nelson Mandela foi, durante anos, cidadão de segunda no seu país. A mais não lhe permitia a cor da pele. Empenhou-se numa luta difícil e perigosa contra a discriminação racial, que era a lei anti-humana da sua terra. Foi preso. Esteve vinte e sete anos numa prisão, onde ele e os seus companheiros eram, diariamente, humilhados e maltratados.

Com as voltas que o mundo dá, a sua luta deu frutos. E ele regressou à liberdade. Sem ódios, sem rancores, sem propósitos de vingança. O que desejava e pelo que sempre lutara, estava alcançado.

Fundou um partido político. Elegeram-no Presidente da República. Deram-lhe o Nobel da Paz. Nada disso o inebriou. Manteve o seu sorriso pacificador, avançou com leis de igualdade para negros e brancos, lutou pela reconciliação entre todos, que é sempre esse o caminho para a paz e para o progresso.

A prisão, com os tormentos a que o submetera, ensinou-lhe ainda mais a certeza que do ódio só nasce ódio. Só o amor que perdoa e acolhe pode gerar o clima que leva ao respeito mútuo e à colaboração. Era este o seu caminho. Sem perder tempo, sem grandes discursos, mas com gestos convincentes, passou a mensagem ao seu país.

Celebrou há dias vinte anos de libertação e saída da prisão. Quis ter à sua mesa, como convidado especial, um dos guardas prisionais que, ao longo de anos, com outros seus colegas, tinha sido um dos seus duros e impiedosos algozes. Só homens grandes são capazes destes gestos que ficam na história e fazem a história.

Foi também assim João Paulo II. Não se limitou a dizer que perdoava a quem o quis matar. Foi à prisão, conversar com ele, ouvir as suas confidências, transmitir-lhe amor e coragem. Não podia libertá-lo das grades, mas podia ajudar a ser interiormente livre.

Barack Obama, recordando Luther King, faz do discurso de vitória, um apelo ao perdão mútuo, dado e recebido, e à colaboração, sem excepção, de todos os que haviam lutado pelo mesmo objectivo.

Teresa de Calcutá viveu até ao extremo, um amor, sem fronteiras, em favor dos mais excluídos da sociedade. Não quis outra recompensa, nem sequer a da satisfação do bem realizado. Somente a que lhe vinha da sua fé e da sua entrega à gente sem nome.
A sociedade precisa destes gestos e tem de os estimular. No coração de cada pessoa, homem ou mulher, existe uma capacidade sem medida para o bem. Mais do que para o mal. Somos pessoas, não somos feras. Nascemos solidários, não egoístas. Acompanha-nos, do berço ao final do tempo que nos é dado, a necessidade mútua e a dependência enriquecedora que o amor torna liberdade e não submissão.

Os medíocres, orgulhosos e egoístas não vão além de heróis passageiros da historieta. Só os capazes de gestos solidários, os pacificados e pacificadoras, os que denunciam o mal com a força geradora do bem, são construtores de história.

Não escapam a perseguições e invejas, a calúnias e leituras tendenciosas. Mas resistem. A sua têmpera é mais determinante que a força do tempo, malsinado e pobre, que os cerca.

O sorriso pacificador de Mandela não é uma expressão de fraqueza. È a manifestação da sua grandeza interior. Foi assim, será assim com todos os verdadeiramente grandes. Os únicos que a História guarda e liberta da poeira do tempo.

António Marcelino


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18/02/10

A publicidade do amor

Atónito e comovido, o mundo inteiro tomou conhecimento das notícias relativas à situação, recentemente criada no Haiti, pelo sismo que abalou o país. Para além do incrível sofrimento de toda uma população, já por si bastante atacada pela pobreza, uma nota positiva, no entanto, merece ser destacada: a da solidariedade que este acontecimento gerou e a doação de inúmeros voluntários que souberam actuar de forma generosa, face a tão grande e ampla catástrofe.

Num mundo que vai perdendo a sua face humana e negando os valores cristãos, devem ser reconhecidas e publicadas as acções desinteressadas de quantos são ainda capazes de actuar em favor do próximo; e sobretudo, em favor daqueles que mais sofrem. É neste sentido que essas acções devem ser reconhecidas, com pleno direito de cidadania, na cidade dos homens. Embora sujeitando-se à difícil dialéctica que resulta da complexidade humana, o voluntariado generoso que vimos actuar nesta circunstância, realizou a sua vocação de semente – mistério de amor, de morte e de vida – continuando a interpretar, com o seu exemplo, os espíritos mais cépticos e mais passivos...

Embora geralmente vocacionado para valores perenes e transcendentes, o voluntariado autêntico privilegia o que é humilde e insignificante, o que não é “rentável” aos olhos dos nossos contemporâneos. E a sua opção de amar e servir a todo o custo aqueles que ninguém ama nem serve, transformam-no, de facto, em fiel de uma balança em que o menos vale mais e o mais vale menos.

A sua lógica é oposta à lógica do nosso mundo: os pobres e os pequeninos, com quem Deus se quis identificar, são os primeiros a serem amados e servidos. A verdadeira grandeza humana está precisamente nesta coragem de ser diferente, de ser menor, de procurar a própria grandeza no serviço e na doação; e de se inclinar, sem interesses próprios nem pretensões económicas, sobre todas as misérias humanas.

Não é por isso destituído de sentido concluir esta breve reflexão com a frase ingénua de uma criança que, encantada, contemplava um dia, no céu, o sinal que após A tempestade anuncia a bonança: “O arco-íris é a publicidade de Deus!”

A beleza policromada dos vários estilos e motivações de generosidade humana, a exemplo do que se passou no Haiti, forma um autêntico arco-íris de paz; e bem pode ser considerada uma sempre actual publicidade de Deus, assumida por corações generosos, que remando contra ventos e marés, são ainda a luz do mundo e a de um amor generoso e vivificante, junto de tantas pessoas atingidas pelo sofrimento.

Ir. Mª Isabel A. Coutinho, FMA


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A justiça dom de Deus para todos

A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (3, 21-22)
Este ano o Papa acentuou sua mensagem sobre o tema da justiça partindo
da afirmação Paulina.
A justiça implica em primeiro lugar «dar a cada um o que é seu», segundo a expressão de Ulpiano, jurista romano do século III. Que é que o homem mais precisa para que possa chamar seu? O homem vive daquele amor que só a fá pode comunicar pois foi criado à sua imagem e semelhança.

Segundo o Evangelista São Marcos referindo palavras de Jesus o que sai do homem é que o torna impuro como o interior do seu coração é que saem os maus pensamentos. Para alguns podemos entrever reacções relativamente ao alimento, individuando a origem do mal numa causa exterior ao homem (o alimento) Visto que a justiça vem de fora, para
que haja justiça é suficiente remover as causas exteriores que impedem a sua actuação: Esta maneira de pensar é ingénua e míope. Diz Bento XVI: «injustiça fruto do mal não tem raízes exclusivamente externas; mas tem origem no coração do homem onde devemos encontrar os germes de uma misteriosa convivência com o mal.» O homem torna-se por um impulso profundo por uma força de gravidade que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro, por causa do egoísmo.

"No coração da sabedoria de Israel, encontramos u laço profundo entre a fé em Deus que "levanta do pó o indigente" e fez justiça ao pobre, e de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva". Ex.29, 12-27) Dar ao pobre, para um israelita é nada mais nada menos a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade pela miséria do seu povo.

O anúncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, (Paulo aos Rom) "Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência - indigência dos outros e de Deus, indigência do seu perdão e da sua amizade".

De Jesus Cristo Redentor recebemos muito mais do que aquilo que poderíamos esperar receber. Fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas onde todos recebam o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.

Quaresma, conversão, enfrentar o pecado, fazer justiça ao pobre a marginalizado, são modos de anúncio e meio de transmitir a fé. Assim nos ensina o nosso querido Papa Bento XVI neste Quaresma 2010.

por Armando Soares, da smbn

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10/02/10

Terreno sagrado

Fui dos poucos privilegiados que participaram na inauguração de um Gabinete de Apoio a Mulheres Prostituídas e em Risco. Fiquei muito grato pelo convite, porque tenho uma especial admiração por aquelas pessoas, Religiosas, Técnicos e Voluntários, que dedicam a sua vida a mulheres, que consideramos indignas de se sentarem ao nosso lado nos bancos da igreja e muito mais indignas de comungarem o corpo imaculado do Cristo libertador.

Admiro estas e estes “samaritanos” que, por amor, passam a vida a “cuidar do outro” a exemplo do Bom Pastor que vai amorosamente procurar a ovelha tresmalhada. “Ovelha tresmalhada”, digo eu (por)que me classifico no grupo dos bem-comportados, esquecendo a lição do fariseu e do publicano.

Admiro estas pessoas, que, animadas umas pela fé num Deus que é Pai de todos, outras pela consciência de que todos somos irmãos, passam, os dias, calcorreando estradas e matas, e, as noites, percorrendo as ruas da Baixa, batendo às casas de alterne e, resistindo a insinuações e equívocos, vão escutar e acolher mulheres cujas trajectórias de vida foram, de um modo geral, via-sacras sem Cireneus. Não vão para converter ninguém, até porque ninguém converte ninguém: cada um só pode converter-se a si próprio. A sua única regra é, nesta “Luta contra a Pobreza e a Exclusão”, o Amor ao “outro”, a qualquer “outro”, especialmente ao que está em maiores dificuldades. Vão dizer-lhes que são amadas, quanto mais não seja pelo Deus que as criou à sua imagem, mesmo que não o conheçam ou não o queiram conhecer.

Um parêntese para dizer que, nesta homenagem, quero envolver tantos samaritanos de outros “tresmalhados”, igualmente ignorados pela sociedade e pela comunidade cristã.
Mas, como lá foi dito, os protagonistas são aquelas mulheres ditas “perdidas”. Delas é que eu devia falar. O problema é que eu não sei falar da sua vida difícil, do sofrimento disfarçado, do prazer simulado, da violência escondida. Só sei que nunca tive a coragem de as procurar para lhes falar de uma esperança possível, de lhes anunciar que a vida não acaba na agonia da sexta-feira santa nem com a crucifixão em tantas cruzes que a humanidade foi inventando. O que me dói é que, considerando-me cristão e crendo que amo seriamente a Jesus Cristo, afinal só O amo na Sua Pessoa, mas não na Pessoa a que Ele se une intimamente; na alegria da hóstia comungada, mas não no irmão esfarrapado à porta da igreja, que olho de lado e com medo de lhe dirigir a palavra ou apertar a mão como os judeus faziam aos leprosos. E ponho-me a pensar que cristão sou eu, que fé é a minha, que caridade é que pratico. Pergunto-me se amo realmente Jesus Cristo ou se não se trata apenas de um amor platónico, um amor fácil que logo esqueço quando Ele me aparece escondido numa prostituta, num sem-abrigo, num cigano ou num drogado. E, cheio de angústia, interrogo-me se não serei um amante infiel que apenas O recordo quando me sinto em dificuldade ou Ele me aparece no aconchego da celebração litúrgica, no quentinho da meditação da sua Palavra, nalgum alienante “monte Tabor” onde “é tão bom ficarmos aqui” longe de todas as dores e sofrimentos do mundo, ou na partilha de algumas palavras escritas ou afirmadas num qualquer colóquio em que participo.

Mas basta de lamentações catárticas, porque o arrependimento sem conversão nada vale. Por isso, vou dar um pouquinho de atenção às verdadeiras protagonistas voltando àquela cerimónia tão simples e rica como profunda e amorosa. O que mais me marcou foi a Palavra de abertura, que descreve o encontro de Moisés com Deus que, do meio da sarça ardente, lhe ordena: “Tira as sandálias, porque o terreno que pisas é sagrado” (Ex 3,5). Este texto quis “apenas” lembrar que aquelas mulheres, ludibriadas por gente sem escrúpulos, violentadas na sua alma, exploradas no seu corpo, profanadas na sua dignidade de pessoa, ignoradas por todos mesmo por aqueles que as usam, são “terreno sagrado”, porque são uma das mais dramáticas versões da sarça ardente. E, se são “terreno sagrado”, devem ser tratadas verdadeiramente com “pés descalços”, com “mãos delicadas”, com a reverência e o cuidado de quem é imagem visível de Jesus pregado na cruz. Só podemos identificar estas mulheres como “terreno sagrado” se as virmos com os olhos da fé, de uma fé radical que nasce do encontro íntimo com Jesus, e se estivermos profundamente convictos de que “no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (DCE 1).
Gostaria de terminar com duas curtas notas.

A apresentação do projecto à Segurança Social deparou-se com um obstáculo sério: as prostitutas não existem oficialmente e, portanto, não constam de nenhuma das suas várias alíneas. O que valeu para a sua aprovação foi a insistência de quem está no terreno e a compreensão, depois de um longo processo negocial, de que se tratava de um fenómeno de tal dimensão que não podia ser ignorado, mesmo utilizando uma palavra tão “inconveniente” na justificação do projecto. Tão pudicos que nós somos… mas em tão poucas coisas!

Para as comunidades eclesiais, não há pastoral mais marginalizada que a pastoral dos marginalizados. Somos comunidades que lemos e ouvimos ler a Palavra de vida eterna, celebramos com alguma dignidade a nossa fé, praticamos exercícios de caridade, sobretudo com algumas migalhas do nosso supérfluo, mas ignoramos ou desprezamos os mal-comportados, os que “não respeitam a lei de Deus”. Tão puros que nós somos… mas em tão poucas coisas!

E tudo ficaria bem e em paz não fora aquela solene advertência de Jesus: “Em verdade em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas preceder-vos-ão no Reino de Deus” (Mt 21,31). Será que Jesus disse mesmo tal barbaridade!?

José Dias da Silva


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04/02/10

Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social, analogia curiosa

O Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social, proposto para o corrente ano pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia com o grande objectivo de reforçar o empenho da União e de cada Estado-Membro na solidariedade, na justiça social e no aumento da coesão social, exercendo um impacto decisivo na erradicação da pobreza que se faz sentir por toda a Europa, já viu decorrer o seu primeiro mês.

Pese embora toda a esperança que se deseja implementar no início de qualquer projecto humano, a temática deste Ano ainda mal se fez sentir, pelo menos a nível nacional. Sabe-se que o Instituto de Segurança Social é a entidade nacional responsável pela organização e coordenação das actividades deste Ano sendo o seu presidente, Dr. Edmundo Martinho, o representante de Portugal no Comité Consultivo do mesmo e também o Coordenador Nacional. Por sua vez, o coordenador tem o apoio de uma equipa técnica que acompanha as actividades desenvolvidas e auxilia nas actividades de coordenação. Além disso, foi criada uma Comissão Nacional de Acompanhamento, constituída por delegados dos diversos ministérios e das regiões autónomas, os parceiros sociais, as organizações não governamentais, a coordenação nacional do Plano Nacional de Acção para a Inclusão (PNAI) e o Fórum Não Governamental para a Inclusão Social (FNGIS), entidades apresentadas com a capacidade de defender e promover os direitos e interesses das pessoas que estão em situação de pobreza e exclusão social. O programa nacional, que preconiza os seguintes quatro grandes objectivos: 1) contribuir para a redução da pobreza e prevenir os riscos de exclusão através de acções concretas que tenham impacto real na vida das pessoas; 2) contribuir para a compreensão e visibilidade que a pobreza é um fenómeno multidimensional; 3) capacitar e mobilizar toda a sociedade num esforço de erradicar a pobreza e situações de exclusão; e 4) assumir que a pobreza é um fenómeno de todos os países e que não conhece fronteiras, ainda mal se notou. De referir que, para todas as actividades a realizar, o orçamento provisional é de cerca de dois (2) milhões e euros, distribuído, sobretudo, por duas grandes rubricas: comunicação, seminários e eventos (cerca de um milhão e quatrocentos mil euros) e financiamento de projectos (seiscentos mil euros), orçamento do qual cerca de trezentos e sete mil euros são verbas comunitárias de um total de dezassete milhões de euros que é disponibilizado para todas as actividades a realizar nos países membros da União Europeia.

Este cenário das comemorações do Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social entre nós, bem como o seu financiamento, se comparado com outra efeméride que se vive, no corrente ano, em Portugal, ou seja, o centenário da República, apresenta-se, no mínimo, como uma analogia curiosa. Senão, atente-se nos seguintes dados: uma Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República Portuguesa (1910-2010), já devidamente publicitada; mais de 500 propostas de âmbito cultural e artístico a levar a cabo e já apresentadas; um orçamento de dez (10) milhões de euros disponibilizado; múltiplas comissões distritais e concelhias de celebração do Centenário, com programas próprios, muitas delas já devidamente organizadas; uma forte estratégia de comunicação, a vários níveis, já visível; múltiplas iniciativas já programadas e divulgadas para escolas, universidades, poder local, regiões autónomas, etc; uma cerimónia pública de lançamento do Centenário, com pompa e circunstância (Porto, 31 de Janeiro); um site já devidamente organizado; entre outros.

Sem querer questionar a relevância da celebração de tal Centenário, registo que Portugal, apesar dos seus milhões de republicanos, é um dos países mais pobres da Europa, com cerca de dois milhões de pessoas em situação de pobreza, afectando, sobretudo, crianças e idosos. Além disso, Portugal apresenta um dos maiores fossos entre ricos e pobres no que diz respeito aos respectivos rendimentos. Perante esta realidade e perante os objectivos deste Ano Europeu, associados aos interesses nacionais, alerto e desejo que, apesar de todas as diferenças entre as duas grandes iniciativas comparadas, este Ano de Combate à Pobreza e Exclusão Social não seja uma oportunidade perdida e abafada por quaisquer outras celebrações.

A este propósito, quero referir uma feliz iniciativa na qual tive o privilégio de participar no passado dia 27 de Janeiro, em Bruxelas, no Parlamento Europeu: o lançamento da Campanha Europeia “Zero Poverty” por parte da Cáritas Europa, testemunhada por cerca de uma centena de pessoas de representantes das Cáritas de quase todos os países da Europa, entre outros parceiros, e por uma dezena de eurodeputados da Comissão de Emprego e Assuntos Sociais do Parlamento Europeu, liderados pela respectiva Vice-Presidente, Elisabeth Schroedter. Este evento serviu também para dar a conhecer o documento “A Pobreza entre nós” que reflecte a visão da Cáritas sobre a multidimensionalidade da pobreza, pretendendo ser um instrumento de trabalho ao serviço das 48 Cáritas que constituem a rede na Europa, bem como de outros actores.

A campanha “Zero Poverty” pretende assinalar este Ano Europeu através de múltiplas iniciativas encabeçadas pela Cáritas, tanto a nível local, como nacional e ainda internacional, consciencializando os europeus para o facto de que a pobreza diz respeito a todos e todos podem fazer algo para a erradicar. Uma dessas possíveis acções é a proposta de uma petição on-line (www.zeropoverty.org), a qual pretende influenciar os organismos nacionais e europeus a adoptarem medidas que contrariem os sinais crescentes de pobreza que se fazem sentir na Europa. A meta a alcançar será um milhão de assinaturas a entregar, no final do ano, às instituições europeias.

Em Portugal, esta campanha tem a denominação de ACABAR COM A POBREZA JÁ! e conta(rá) com o envolvimento activo da rede Cáritas em Portugal, tanto a nível nacional, como diocesano e paroquial. De acordo com Erny Gillen, Presidente da Cáritas Europa, na sua intervenção na sessão de lançamento desta Campanha, queremos reforçar que “a pobreza é um escândalo. Zero é o número que queremos alcançar. Não queremos 0,5 ou 0,8. Queremos que todas as pessoas tenham a possibilidade de viver a sua vida com dignidade.” E eu acrescento: Todas as pessoas, sejam republicanas ou não.

Paulo Neves
paulo.neves@caritas.pt


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