Jornal de Opinião

São muitos os textos enviados para a Agência Ecclesia com pedido de publicação. De diferentes personalidades e contextos sociais e eclesiais, o seu conteúdo é exclusivamente da responsabilidade dos seus autores. São esses textos que aqui se publicam, sem que afectem critérios editoriais da Agência Ecclesia. Trata-se de um espaço de divulgação da opinião assinada e assumida, contribuindo para o debate de ideias, que a internet possibilita.

04/02/10

Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social, analogia curiosa

O Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social, proposto para o corrente ano pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia com o grande objectivo de reforçar o empenho da União e de cada Estado-Membro na solidariedade, na justiça social e no aumento da coesão social, exercendo um impacto decisivo na erradicação da pobreza que se faz sentir por toda a Europa, já viu decorrer o seu primeiro mês.

Pese embora toda a esperança que se deseja implementar no início de qualquer projecto humano, a temática deste Ano ainda mal se fez sentir, pelo menos a nível nacional. Sabe-se que o Instituto de Segurança Social é a entidade nacional responsável pela organização e coordenação das actividades deste Ano sendo o seu presidente, Dr. Edmundo Martinho, o representante de Portugal no Comité Consultivo do mesmo e também o Coordenador Nacional. Por sua vez, o coordenador tem o apoio de uma equipa técnica que acompanha as actividades desenvolvidas e auxilia nas actividades de coordenação. Além disso, foi criada uma Comissão Nacional de Acompanhamento, constituída por delegados dos diversos ministérios e das regiões autónomas, os parceiros sociais, as organizações não governamentais, a coordenação nacional do Plano Nacional de Acção para a Inclusão (PNAI) e o Fórum Não Governamental para a Inclusão Social (FNGIS), entidades apresentadas com a capacidade de defender e promover os direitos e interesses das pessoas que estão em situação de pobreza e exclusão social. O programa nacional, que preconiza os seguintes quatro grandes objectivos: 1) contribuir para a redução da pobreza e prevenir os riscos de exclusão através de acções concretas que tenham impacto real na vida das pessoas; 2) contribuir para a compreensão e visibilidade que a pobreza é um fenómeno multidimensional; 3) capacitar e mobilizar toda a sociedade num esforço de erradicar a pobreza e situações de exclusão; e 4) assumir que a pobreza é um fenómeno de todos os países e que não conhece fronteiras, ainda mal se notou. De referir que, para todas as actividades a realizar, o orçamento provisional é de cerca de dois (2) milhões e euros, distribuído, sobretudo, por duas grandes rubricas: comunicação, seminários e eventos (cerca de um milhão e quatrocentos mil euros) e financiamento de projectos (seiscentos mil euros), orçamento do qual cerca de trezentos e sete mil euros são verbas comunitárias de um total de dezassete milhões de euros que é disponibilizado para todas as actividades a realizar nos países membros da União Europeia.

Este cenário das comemorações do Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social entre nós, bem como o seu financiamento, se comparado com outra efeméride que se vive, no corrente ano, em Portugal, ou seja, o centenário da República, apresenta-se, no mínimo, como uma analogia curiosa. Senão, atente-se nos seguintes dados: uma Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República Portuguesa (1910-2010), já devidamente publicitada; mais de 500 propostas de âmbito cultural e artístico a levar a cabo e já apresentadas; um orçamento de dez (10) milhões de euros disponibilizado; múltiplas comissões distritais e concelhias de celebração do Centenário, com programas próprios, muitas delas já devidamente organizadas; uma forte estratégia de comunicação, a vários níveis, já visível; múltiplas iniciativas já programadas e divulgadas para escolas, universidades, poder local, regiões autónomas, etc; uma cerimónia pública de lançamento do Centenário, com pompa e circunstância (Porto, 31 de Janeiro); um site já devidamente organizado; entre outros.

Sem querer questionar a relevância da celebração de tal Centenário, registo que Portugal, apesar dos seus milhões de republicanos, é um dos países mais pobres da Europa, com cerca de dois milhões de pessoas em situação de pobreza, afectando, sobretudo, crianças e idosos. Além disso, Portugal apresenta um dos maiores fossos entre ricos e pobres no que diz respeito aos respectivos rendimentos. Perante esta realidade e perante os objectivos deste Ano Europeu, associados aos interesses nacionais, alerto e desejo que, apesar de todas as diferenças entre as duas grandes iniciativas comparadas, este Ano de Combate à Pobreza e Exclusão Social não seja uma oportunidade perdida e abafada por quaisquer outras celebrações.

A este propósito, quero referir uma feliz iniciativa na qual tive o privilégio de participar no passado dia 27 de Janeiro, em Bruxelas, no Parlamento Europeu: o lançamento da Campanha Europeia “Zero Poverty” por parte da Cáritas Europa, testemunhada por cerca de uma centena de pessoas de representantes das Cáritas de quase todos os países da Europa, entre outros parceiros, e por uma dezena de eurodeputados da Comissão de Emprego e Assuntos Sociais do Parlamento Europeu, liderados pela respectiva Vice-Presidente, Elisabeth Schroedter. Este evento serviu também para dar a conhecer o documento “A Pobreza entre nós” que reflecte a visão da Cáritas sobre a multidimensionalidade da pobreza, pretendendo ser um instrumento de trabalho ao serviço das 48 Cáritas que constituem a rede na Europa, bem como de outros actores.

A campanha “Zero Poverty” pretende assinalar este Ano Europeu através de múltiplas iniciativas encabeçadas pela Cáritas, tanto a nível local, como nacional e ainda internacional, consciencializando os europeus para o facto de que a pobreza diz respeito a todos e todos podem fazer algo para a erradicar. Uma dessas possíveis acções é a proposta de uma petição on-line (www.zeropoverty.org), a qual pretende influenciar os organismos nacionais e europeus a adoptarem medidas que contrariem os sinais crescentes de pobreza que se fazem sentir na Europa. A meta a alcançar será um milhão de assinaturas a entregar, no final do ano, às instituições europeias.

Em Portugal, esta campanha tem a denominação de ACABAR COM A POBREZA JÁ! e conta(rá) com o envolvimento activo da rede Cáritas em Portugal, tanto a nível nacional, como diocesano e paroquial. De acordo com Erny Gillen, Presidente da Cáritas Europa, na sua intervenção na sessão de lançamento desta Campanha, queremos reforçar que “a pobreza é um escândalo. Zero é o número que queremos alcançar. Não queremos 0,5 ou 0,8. Queremos que todas as pessoas tenham a possibilidade de viver a sua vida com dignidade.” E eu acrescento: Todas as pessoas, sejam republicanas ou não.

Paulo Neves
paulo.neves@caritas.pt


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É a nossa pobreza que (mais) empobrece os pobres

1. O poder diz que faz muito pelos pobres e estará a falar verdade.
Mas os pobres replicam que o poder faz pouco por eles e alguém acha que estarão a mentir?

É que o muito que o poder diz que faz é sempre pouco para quem precisa, para quem sofre, para quem sobrevive com dificuldades de toda a espécie e obstáculos de toda a ordem.
Daí que se instale a dúvida: será que o poder está mesmo interessado em acabar com a pobreza?
É, de facto, a nossa pobreza (pobreza de horizontes e pobreza de generosidade) que mais empobrece os pobres!

2. Há palavras que servem sobretudo de ornamento. Uma delas é pobreza.
Falar de pobreza — e dos pobres — fica sempre bem. O que problema é, muitas vezes, não se passa disso.
O Ano Europeu contra a Pobreza e a Exclusão Social, que estamos a viver, pode padecer desta enfermidade, endémica e atávica.
Uma vez mais, falar-se-á muito de pobreza e, uma vez mais também, nada — ou pouco — se alcançará.
Às vezes, no nosso íntimo paira até a dúvida se estamos perante programas contra a pobreza ou se não estaremos, antes, perante programas contra os pobres.
De facto, fala-se muito em lutar contra a pobreza. Mas, infelizmente, o que mais se vê é lutar contra os pobres.
É que quando nada (ou pouco) se faz pelos pobres é como se contra eles estivéssemos.
Também aqui não são as palavras que valem. São os gestos. É a vida.
Como sempre, a realidade é muito mais eloquente que o mais eloquente dos discursos. Seja qual for o sistema económico, as vítimas são sempre as mesmas: os pobres.
Razão assistia, pois, a George Orwell quando verteu a célebre máxima: «Todos os homens são iguais, mas uns parecem mais iguais que outros»!

3. Por muito que se diga e até por muito que se faça (valha a verdade que alguma coisa se tem feito), o combate à pobreza está muito longe de ser uma prioridade.
Ainda recentemente, o jornalista Manuel António Pinto nos desassossegava com este dado: «A União Europeia vai investir 17 milhões de euros na luta contra a pobreza, tanto quanto gastaram, em Dezembro, Sporting e Benfica em novas contratações»!
É por isso, talvez, que somos pobres: porque não canalizamos os recursos para o essencial; porque preferimos enterrá-los no secundário.
Por outro lado, isto mostra que o alastramento da pobreza não é somente uma questão política. É também — e bastante — uma momentosa questão cívica.
Trata-se de uma questão que nos aparece sob a forma de carência e que tarda em assumir a feição de uma urgência.
Vamos acordando e vamo-nos mobilizando para a pobreza ao sabor das circunstâncias e ao ritmo das tragédias.
Sempre que ocorre uma situação como a do Haiti, somos capazes de nos movimentar e de modo avassalador.
E, como sucede quase sempre, são os pobres os que mais se apressam a ajudar os pobres.
Falta, porém, fazer deste desígnio uma constante. No fundo, falta que a pessoa esteja no centro: no centro da acção política, no centro da vida.

4. O desnível entre países ricos e países pobres é aflitivo. Acresce que a maioria das pessoas vive em países com poucos recursos.
Não esqueçamos, com efeito, que oitenta por cento da riqueza está concentrada em vinte por cento da população. Ou seja, são poucos os que têm muito. E são muitos os que têm pouco ou quase nada.
Na União Europeia, Portugal é um dos nove mais pobres, existindo quase dois milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza.
A região norte, mergulhada na falência das fábricas, lidera a pobreza com um rendimento per capita expresso em poder de compra idêntico ao dos países de Leste.

5. Que lugar tem Cristo num mundo que consente que 14 milhões de crianças morram antes de completarem…cinco dias de vida?
Que lugar tem Cristo num mundo que admite que 800 milhões dos seus habitantes passem fome?
Um grito, por isso, urge lançar na direcção de quem aparenta conceber a existência (apenas) como uma luta, vendo adversários em todo o tempo e inimigos em toda a parte: se querem lutar, lutem a fome!


João António Pinheiro Teixeira
padre



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26/01/10

Igreja em campo aberto

A Igreja sempre esteve em campo aberto. É de sua natureza e, por isso mesmo, essa é a sua missão e seu modo natural de agir. Em campo aberto: ao calor do verão, ao frio do inverno, à beleza da primavera, à serenidade do Outono O Vaticano II veio dizer que assim é.

Porém, houve tempo, já lá vão séculos, em que a Igreja caiu na tentação de construir palácios com muralhas. À maneira de reis e fidalgos. Umas mais ostensivas a denunciar poder. Outras mais discretas, com frestas estreitas para poder espreitar, guardando da tentação de sair para o vento. Visto de longe, tudo parecia bem e iluminado. Assim, se tornou mais difícil entrar e sair, e mais cómodo estar de ouvidos cerrados ao rugir de vendavais e ao cair da chuva. O mesmo é dizer, estranho às intempéries da vida que geram sofrimento, e à luta inglória de muitos sem saberem como enfrentar o abandono.

As verdades foram ganhando bolor, as gargantas ferrugem, e o povo a ter de se contentar com a esmola ocasional e fugidia das palavras piedosas de algum frade pregador, que passava, de tempo a tempo, pelo povoado. Muitas casas paroquiais já nem eram do padre, mesmo com ele a viver lá dentro. E, onde ele ainda mandava, não raro as propostas de religião que apontavam para Deus eram limitadas, sempre iguais e de alcance reduzido para àqueles a quem chegavam, que, mesmo estes, iam escasseando, a pouco e pouco.

Um dia os maiores se aperceberam que, lá fora, em campo seu, se moviam outras forças e nelas estava o inimigo que era preciso esconjurar. Saíram, então, das muralhas para fazer guerra ao intruso. De defesa da fé e da verdade, dizia-se. Tarde de mais. Com a luz debaixo do alqueire não se pode estranhar que, na noite da vida, surjam lampiões. Os de fora equiparam-se com armas depreciadas pelos de dentro. A estas, outras se juntaram, de novo cariz e não menos poderosas. E a guerra de oposição não terminou mais.

Avisos do céu foram abafados. Palavras de profetas, não ouvidas. Sinais de novos caminhos, rejeitados. O bem que os outros faziam, desfeiteado…
Mas o Espírito ia trabalhando. Onde era maior o sofrimento pela injustiça dos pecados sociais, surgiam novos apóstolos; onde o tesouro da verdade estava aberto só a iniciados, alguns mais ousados penetraram nele e apresentaram-no como bem de todos os que a ele tinham direito; onde o medo imperava, uma coragem inesperada tornou-se expressão de vida; os humildes vieram à ribalta e soaram palavras novas…
Já nada era igual na Igreja, nem modo havia de retroceder. Uns perceberam que era necessário abrir caminhos novos e uniram-se para tal tarefa. Outros não temeram a tempestade e enfrentaram-na corajosamente. Outros, ainda, avançaram sem intuitos de guerra, dispostos a falar a todos da “liberdade com que Cristo nos libertou”, mesmo onde já se hasteavam bandeiras de outras liberdades de sinal diferente.

Muralhas foram caindo; incómodos por novo rumo foram crescendo; a noite dando lugar a dias de esperança; as lutas perderam o sentido; a paz foi mais desejada; os ouvidos mais atentos às vítimas das mentiras e injustiças; os corações sensíveis à dor.
E a Igreja viu-se, como nos seus princípios, no Cafarnaum da confusão, na feira franca das ideias e das opções, no campo aberto onde todos entram. Surge, então, João XXIII com um sorriso de esperança. Carregava as preocupações de muitos, era eco da voz do grande Profeta. E disse assim: a Igreja de Cristo é luz das nações e sinal de salvação para todos, se for, de novo, serva e pobre; ela é povo de irmãos com vocação de fraternidade universal; edifica o Reino e é sinal de que Ele já está entre nós; é mãe e mestra, serviço e não poder; tem na pessoa humana é o seu caminho e o seu lugar é o lado da verdade e da justiça; tem de deixar de vez o trono dos grandes e estar, disponível para o lava-pés; falará com o mundo e ouvirá dele as alegrias e esperanças…

Outra vez Igreja no campo aberto de uma sociedade plural. Aí tem de ser ela mesma: fermento, sal, luz, proposta de amor e aberta ao diálogo, disposta ao sofrimento, fiel à verdade e ao encontro das pessoas. Igreja votada, a tempo inteiro, ao essencial, o projecto de Cristo. Igreja no mundo, sem ser do mundo, deixando que o Espírito a conduza.

António Marcelino


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25/01/10

Mudanças no mundo ou mudança de mundo?

1. A pergunta não é retórica, a curiosidade não é ociosa e a preocupação não é despicienda.
Sempre houve mudanças no mundo. A questão que, desde há uns anos, se coloca é saber se não estaremos no limiar de uma mudança de mundo.
É um facto que aquilo que tem acontecido e o que está a acontecer não estão em linha com o que estávamos habituados.
Sejamos realistas e não percamos a serenidade. A mudança está inscrita no coração do mundo. O que não é habitual é esta aceleração da mudança.
Nova, de facto, não é a mudança. Mudar é conatural ao Homem. Desde o plano biológico até ao âmbito espiritual, a vida humana é uma sucessão de começos e uma sequência de mudanças.
Esta percepção nem sequer é de agora. Já na antiguidade clássica, Heraclito acentuava que tudo está em devir, que tudo está em mudança.
Nicolau Maquiavel sublinhava que «uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança».
No século XVI, Luís de Camões proclamava que «todo o mundo é composto de mudança». Com efeito, se, como alertava Bernardim Ribeiro, «até o mudar mudou», porque é que o mundo não haveria de acolher a mudança?

2. Vergílio Ferreira dava conta de que «a História é feita de intervalos».
Desde há uns anos que não sabemos em que época nos encontramos.
Temos a percepção de que estamos numa época nova, mas não temos a devida noção acerca da sua identidade.
É a época mais nossa e, ao mesmo tempo, parece ser a menos nossa, aquela cuja compreensão mais nos escapa.
O mais que conseguimos é dizer, com Alvin Toffler, que «somos a última geração de uma civilização velha e a primeira geração de uma civilização nova».
É por isso que o nosso tempo se descreve tendencialmente como estando depois de outro.
Como referiu Hans Küng, a pós-modernidade é uma designação heurística, serve, acima de tudo, para dizer que estamos numa era que vem depois de outra.
É um mínimo, mas, à falta de melhor, constitui o máximo que conseguimos produzir.

3. No entanto, neste tempo tão complexo, vão acontecendo coisas que estão a mudar — definitivamente? — a nossa forma de ser, de estar e de pensar.
Olhemos para o que é mais básico, estruturante: a vida e a família. O que está a acontecer não é uma simples mudança na concepção. É uma autêntica desconstrução.
De resto, é consensual entre os autores apontar a desconstrução como uma das vértebras deste tempo híbrido a que se convencionou denominar pós-modernidade.
Luc Ferry faz uma síntese bastante luminosa do percurso do pensamento humano em torno da desconstrução. Esta ocorre quase sem darmos por ela.
A ciência é pilotada — e engolida — pela técnica com o consequente esbatimento da questão do sentido.

4. Sempre houve atentados contra a vida. O que é novo é haver atentados contra a vida encarados não como atentado, mas como norma a ponto de estarem previstos na lei.
A família sempre foi constituída por marido e esposa e filhos. Colocar outras formas de organização no mesmo patamar não alarga o leque de opções; afunila o conceito de família.
Como todos sabemos, a vida e a família são os alicerces da sociedade.
O que estamos a ver não é uma alteração de modelos; é uma desconstrução das estruturas.
Não se trata, pois, de simples mudanças no mundo. Trata-se, sim, de uma verdadeira mudança de mundo.
Ainda recentemente, o Santo Padre, referindo-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmou: «O Homem não é Deus, mas imagem de Deus. O caminho a seguir não pode ser fixado pelo que é arbitrário ou apetecível, mas deve, antes, consistir na correspondência à estrutura querida pelo Criador».
Já não está em causa a prioridade da pessoa. O que está em jogo é apenas uma sua parcela.
Ao aplicar o mesmo conceito — casamento — a situações diferentes, o Estado, como adverte José António Saraiva, está a dar um sinal errado. «Está a dizer que é “tudo a mesma coisa”. Que tanto faz um homem casar-se com uma mulher como com outro homem. Ora, isso não é verdade».
Estamos, assim, a mudar de mundo. Será melhor o mundo que nos espera?
Não nos limitemos a acompanhar a mudança. Procuremos construir a mudança, ser a mudança. Como aconselhava Gandhi, «é preciso que cada um seja a mudança que gostaria de ver no mundo».

João António Pinheiro Teixeira
padre


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Proclamai a Boa Nova

"A Igreja é por sua natureza missionária. Pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo desígnio do Pai" (AG 2)."Aprouve a Deus chamar os homens não só individualmente, sem nenhuma conexão mútua, à participação, mas constituí-los num só povo, no qual seus filhos, antes dispersos, se congregassem num corpo" (AG2).

A obrigação do "Ide fazer discípulos meus todos os povos...) deve ser cumprida por todos os que seguem Jesus Cristo, pois "Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade" (AG7).

Por isso mesmo, embora respeitando todas as religiões, "cabe à Igreja o direito sagrado de evangelizar" (AG 5). E mais: por esta necessidade de anunciar a salvação a todos, "a Igreja, que dele dá testemunho através da pregação evangélica, transcende todo particularismo de raça e nacionalidade - nenhum homem ou terra podem considerá-la estranha" (AG 8).

A Igreja sabe ainda que lhe resta realizar uma ingente tarefa missionária. São muitos os que não ouviram a mensagem evangélica: grandes povos, antigas civilizações e tradições religiosas. Outros negam a existência de Deus.
Como anunciar a mensagem de Deus? " pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra".
"Ligando-se aos demais homens com estima caritativa... com alegria e respeito, descobrindo as sementes do Verbo aí ocultas..."
"Mediante um diálogo cheio de sinceridade e paciência, venham a conhecer quantas riquezas Deus prodigalizou aos povos".
"Ao mesmo tempo, à luz do Evangelho, procurem iluminar, libertar e submeter essas riquezas ao domínio de Deus Salvador" (AG 11).Através da caridade e da promoção da justiça:
"A caridade cristã se estende a todo sem distinção, de raça de condição social ou de religião".
"Trabalhem, portanto, os cristãos e colaborem com todos os outros para estruturar com justiça a vida económica e social" (AG 12).
Embora respeitando todas as religiões, "cabe à Igreja o direito sagrado de evangelizar" (AG 5).
Pela missão Deus realiza a história da salvação. Pela missão se realiza a epifania do plano divino e o seu cumprimento do mundo e na história.

Armando Soares


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Exibicionismos despudorados e atrevidos

Ouvi dizer há dias que uma certa rapariga se masturbou pública e demoradamente no palco de um famoso festival de música e que a multidão presente admirou a coragem da moça, ovacionou o seu gesto e riu desbragadamente, alcançando assim mais vida, animação e colorido o referido festival. A notícia acrescentava ainda que, dado o êxito conseguido, organizadores de outros festivais se preparam para proporcionar de novo o gesto, desta vez com alguém do sexo masculino.

Estranharemos talvez a notícia e consideraremos possivelmente o facto raro, insólito, malcriado e atrevido.
Com razão.
Não é só este, todavia. Infelizmente.
Há outros do mesmo jaez, que se vão repetindo diariamente neste país, embotando a nossa consciência e destruindo o pudor que ainda resta.
Depois que acabou a “maldita censura” dos tempos do Estado Novo (dava cabo da cultura portuguesa…- dizem os libertários da nossa democracia, orgulhosamente), nós vemos todos os dias e a todas as horas, nos filmes, nas telenovelas e nos anúncios, casais a beijar-se sofregamente na boca e a ter relações sexuais na cama de um quarto, na esquina de uma rua ou no banco de um jardim.
Praga maior ainda, nas nossas televisões, nos próprios telejornais (com todas as crianças do país a ver e a assistir), os beijos demorados, descarados e indecorosos de pares homossexuais.
Os libertários que controlam a comunicação e o seu poder, na mira de conseguirem dinheiro e audiências, vêm construindo aos poucos uma sociedade sem regras, sem valores e sem respeito, explorando sordidamente tudo o que é instinto baixo, não se coibindo de pôr em evidência actos e atitudes que deviam ficar rigorosamente na intimidade das pessoas. Para essa gente, não há nem pode haver tabus! É tudo para se ver e para se mostrar!
Peço aos meus leitores que me desculpem se eu estiver a ser demasiado rigorista ou puritano…mas, sendo eu perfeitamente capaz de compreender todos os desvios e desvarios humanos, a verdade é que tenho um nojo irreprimível de exibicionismos deste género.
No caso dos pares homossexuais, aquele aparato todo, de dia de noivado, aquelas vestes brancas, decotadas e brejeiras, a lembrar-me as velhas macumbeiras das praias de Copacabana, aqueles toques de corpo carregados de ostentação e de volúpia e aqueles beijos manducados e lascivos frente às câmaras de televisão, nos degraus do Parlamento - a casa - mãe da democracia que também o devia ser da dignidade e do respeito - cheiram-me a podridão indecente e a miséria humana, e a uma enorme degradação moral e civilizacional.
À força de se repetirem esse gestos, nos canais de televisão e nas revistas da moda, ao longo de anos e quase diariamente, grande parte das pessoas a quem isso repugnava tempos antes, já vão dizendo e repetindo agora que tudo isso é normal e natural, e que não vem nenhum mal daí ao mundo.
Que em relação a casais heterossexuais, tais actos sejam normais e naturais, não tenho dúvida, na condição de serem sinal de um amor comprometido e sério e não apenas objecto de exibição ou de prazer leviano e irresponsável. Em relação porém aos pares homossexuais, assim não é. Tais actos, mesmo que sejam praticados na intimidade e no recato, como sempre deviam sê-lo, nem são naturais, nem normais. Qualquer pessoa inteligente pode entender que cada órgão do nosso corpo tem uma função específica. Não falamos com o umbigo nem comemos com as orelhas…Se o fizermos, ninguém dirá nem achará que somos pessoas normais e que tais usos são normais e naturais…

Mas, mesmo que naturais e normais fossem, não são para ser feitos na rua ou no jardim…e muito menos perante máquinas fotográficas ou câmaras de televisão. Há coisas que, por mais naturais e normais que sejam, são do foro da intimidade de cada um e não podem nem devem exibir-se no meio de uma rua, numa capa de revista ou num canal de televisão. Urinar e defecar são coisas normais e naturais, mais naturais, mais normais e até mais indispensáveis do que as outras a que atrás me referi, e nenhum de nós o faz na rua ou no jardim, à vista de toda a gente, ou perante as máquinas fotográficas ou as câmaras de televisão…

A desfaçatez e a desvergonha com que esses pares o fazem, em público, perante as câmaras ou as máquinas fotográficas, parecem querer dizer a todos que eles é que são exemplo e modelo, eles é que são heroicidade e coragem e os outros…nós, os que não procedemos como eles ou não achamos bem o que eles fazem, não passamos de pessoas atrasadas e de moralistas retrógrados.

À sombra da liberdade de expressão, que bela educação se está a dar à nossa juventude! E que belo futuro vai ser o da nossa sociedade!
Uma sociedade sem pudor e sem vergonha, não é mais uma sociedade civilizada. É um regresso à selva e à barbárie.
E é pena que assim seja.

Resende, 15.01.10
J. CORREIA DUARTE (Pe.)


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22/01/10

Em contexto do «Ano sacerdotal» - Desafios da cultura actual... à mensagem cristã

A cultura actual é caracterizada do seguinte modo: uma cultura impregnada de narcisismo; uma cultura que privilegia a individualidade (individualismo); uma cultura que promove a libertação (libertinagem) sexual; uma cultura que debilita o sentido de pertença; uma cultura que acentua a satisfação dos desejos; uma cultura que não consolida a confiança básica; e uma cultura de Deus à margem.

Esta citação foi apresentada nas jornadas de formação do clero da diocese de Setúbal, que decorreram nos dias 18 a 20 deste mês.
Aquele resumo foi publicado na revista ‘Vida nueva’ pelo recente bispo de San Sebástian (Espanha).
Tentemos, agora, olhar aqueles ‘ismos’ e ajudemo-nos a discernir a sua influência na nossa cultura actual, questionando, por ocasião do «Ano sacerdotal» os ministros ordenados, vulgo, padres.
* Narcisismo – Na senda da mais elementar identidade, podemos ver, nos nossos contemporâneos (e em nós mesmos), uma necessária capacidade de auto-estima... muitas vezes com uma exaltação eivada de auto-idolatria.
- Como são vistos os padres: eles têm de nos servir ou vemo-los como ‘pais de família’ a quem reconhecemos autoridade espiritual?
- Como lemos, habitualmente, os erros dos padres: à luz meramente natural ou com visão sobrenatural?

* Individualismo – Na tentativa de afirmação do ‘eu’, vemos proliferar uma tal veneração do indivíduo – reduzido, quase sempre, a números – que a relação de pessoa se esboroa... perigosamente. Quantas vezes para se realçar nessa individualização vemos certas ‘cenas’ que têm mais de ridículo do que de personalidade.
- Como são lidos os padres nos nossos dias: pela distinção quanto aos outros ou na conformidade com seus irmãos na fé?
- Certas regalias de antanho não terão incentivado algum anti-clericalismo ainda hoje remanescente na sociedade portuguesa?

* Erotismo – Perante uma certa tendência de libertação de preconceitos, vemos um desencadear libidinoso da fragrância do eros... interesseiro, onde cada pessoa (só) vale se dela tirarmos (algum) proveito. Quantas vezes as pessoas se tornam descartáveis, após terem sido usadas senão mesmo abusadas.
- Será que os padres, vivendo o carisma do celibato, são entendidos e dão-se a entender pela forma casta e pura de entrega a Deus pelos outros?
- A indumentária clerical ajuda ou complica a vivência do ministério pelo compromisso exteriorizado na Igreja e no mundo?

* Egoísmo – Diante das agruras e tentativas de acerto para sabermos estar com os outros, vemos surgir a falta de sentido comunitário, pois os outros/as quase funcionam mais como inimigos do que como companheiros. Mesmo que se reclame solidariedade, esta e, normalmente, mais dos outros para connosco e não vice-versa. Quantas vezes sabemos o que está a acontecer nos nossos antípodas e desconhecemos (ou fazemos por ignorar) aquilo que se vive ao nosso lado, no nosso prédio e na nossa rua.
- Como é que os padres criam, sobretudo no contexto das paróquias, a comunhão na diversidade e a diversidade para a comunidade?
- Não seremos demasiado afectivos para com aqueles com que simpatizamos e poucos abertos aos adversários por que um tanto diferentes?

* Consumismo – Na febre de ter mais, ter muito, parece ter, mostrar que se tem... muitos dos nossos contemporâneos (e, tantas vezes, nós próprios) vivem como que obcecados com a tentativa de satisfazer o desejo do materialismo prático de vida... com todas as consequências de nos irmos afastando das realidades espirituais. As romarias às catedrais do consumo substituem a prática da missa dominical e, com a agravante, de tudo ter de ser pago... no acto ou a crédito.
- Será que os padres vivem uma vida de desapego e de autêntica pobreza evangélica?
- As coisas da pobreza serão opção ou rótulo de circunstância? Até onde irá a ousadia pessoal e comunitária?

* Neo-paganismo – Efectivamente, Deus não conta para muitos dos nossos contemporâneos. A indiferença tem, hoje, mais seguidores do que a maioria das religiões tradicionais. A questão torna-se ainda mais grave quando esses indiferentes ocupam os espaços das (nossas) celebrações: a doença contagia por osmose e alguns dos ainda praticantes tornam-se frios, calculistas e agnósticos de profissão sem fé.
- Estarão os padres conscientes da praga do neo-paganismo por entre os que lhes estão confiados?
- Não teremos de esquecer o pretensamente já sabido para investirmos no cuidado com o primeiro anúncio de Jesus?

Queira Deus sacudir-nos da mediocridade, já!

A. Sílvio Couto


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