Jornal de Opinião

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20/12/10

Um Natal sem açúcar e com wikileaks

Por estes dias – pelo menos quando escrevemos – temos sido impestados com dois temas: as revelações do wikileaks e a falta de açúcar nas prateleiras dos supermercados e mercearias.

Embora sejam questões um tanto díspares como que estão ligadas na raiz e nos frutos. Com efeito, um e outro fenómeno são resultado da globalização economica e informativa, tendo cada qual o alcance que lhe quisermos dar ou, mesmo que inconscientemente, por eles nos deixarmos condicionar.
Sobre o sentido do wikileahs citamos a Santa Sé que disse, recentemente, que temos de “entrar na avaliação da máxima gravidade da publicação de uma grande quantidade de documentos reservados e confidenciais e de suas possíveis consequências ... A sua credibilidade, portanto, deve ser avaliada com reserva e com muita prudência, tendo em conta essa circunstância”.
De facto, essa espécie de tontice de um militar americano (Bradley Manning) – difundida por um tal australiano Julian Assange – criou variadas reacções, tendo em conta as vertentes ideológicas que desse material se quiseram servir. Para além do (grande) buraco da fechadura em que se converteu, irremediavelmente, a internet, agora tudo foi transformado em material de arremesso contra quem se colocar na mira dos (novos) artistas de acusação.
As doses têm sido servidas a conta-gotas, veiculando as mais disparatadas questões e envolvendo diferentes campos de acção, desde a política e questões da vida social até ao foro jurídico e mesmo económico-financeiro... Tudo e de quase tudo o wikileaks tem falado, deixando um rasto de suspeita, de destruição, de medo e mesmo de desconfiança.
Por outro lado, fomos, por estes dias, assaltados com a informação de que falta açúcar para venda ao público... e logo nesta época natalícia em que a feitura dos doces sorve quase o stock. A corrida ao açambarcamento tem sido a nota mais comum, gerando dúvidas, suspeitas e perguntas...
Tentemos, por isso, reflectir sobre estes dois aspectos da nossa vida colectiva em maré de festos natalícios.

+ Compensações afectivo-psicológicas?
Há quem interprete o excesso de recurso aos doces como uma tentativa – inconsciente, embora – de suprir deficiências psicológico-afectivas. Nesse sentido, em maré de crise económica, sobe o consumo de doces e afins, criando, deste modo, uma compensação pessoal e/ou social. Deste modo, a crise do açúcar deixar-nos-ia à mercê da voracidade dos nossos desejos mais incontroláveis... Deste modo, certas tradições natalícias como que ficariam em risco... Deste modo, certos gostos mais necessitados de serem adocicados teriam menos sorte... e sabor.
Há, no entanto, nesta crise do açúcar algo mais profundo. Uma certa cadeia de interesses foi molestada e as vítimas seriam (serão) os consumidores, na medida em que a cotação nos mercados fazerem perigar os mais pobres e fágeis diante dos ganhos dos mais ricos e poderosos... no campo dos cereais, das sementes e mesmo dos combustíveis. Com efeito, há processos de cotação em bolsa que sofrem do complexo do ‘castelo de cartas’: tocada uma peça outras se descontrolam e como que se desmorona a construção...
Cada vez mais somos uma interdependência globalizada: bastará soar um alarme de concorrência, logo outra ponta reclamará compensação!

+ Indiscrições tendenciosas
Por outro lado, o fenómeno wikileaks tem (ou pode vir a ter) algo de preverso no relacionamento entre as pessoas e os povos, as ideologias e as culturas, a dimensão pessoal e a vertente colectiva. De facto, na ânsia de tudo saber e do dar-se a conhecer, tem sido criado um ambiente propício à devassa da vida de todos... mesmo daqueles que pretendem defender-se dos olhares mais indiscretos.
Por muito ou pouco que este fenómeno venha a ter consequências a curto ou a médio prazo, parece que o wikileaks fará mudar os comportamentos. Talvez tenhamos de resguardar-nos naquilo que dizemos ou escrevemos, pois algo se poderá voltar contra nós. A sinceridade foi ferida. A honestidade foi magoada. A verdade está posta em causa... agora e para o futuro.
Deus queira que saibamos aprender com todo este processo e não façamos da internet o novo lavadouro público desta aldeia global em que estamos a viver. Afinal, o bem senso será sempre o melhor critério de conduta pessoal e social.

Nota: Para todos um santo Natal com Jesus no coração, abrindo-nos aos outros e ao testemunho da nossa fé em Jesus... pela vida em família, na Igreja e para a sociedade.

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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