Jornal de Opinião

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23/11/10

Da verdade de cada um à orfandade de todos

No último ano, em treze das dioceses portuguesas, o número de pessoas atendidas (socorridas) pela ‘Caritas’ aumentou de cinco mil para 62 mil. Esta revelação foi feita, no último conselho geral da ‘Caritas’, que decorreu, em Fátima, recentemente.

Segundo os responsáveis deste organismo da Igreja católica os pedidos atendidos – porque a muitos outros não tem sido possível responder – têm a ver com situações de desemprego, que se reflecte na incapacidade da aquisição de alimentos e de medicamentos e mesmo na comparticipação para a renda e/ou a prestação para a casa.
Mais do que lamúrias e discursos eivados de desgraçadismo, é preciso encontrar e assumir as (possíveis) causas que têm dado tais consequências e nem a (apelidada) crise pode servir de paliativo para que não façamos uma reflexão séria sobre nós mesmos e sobre o povo do qual fazemos parte... com toda a honra e glória.

= Com enfrentar a verdade?
Temos, infelizmente, andado a adiar o reconhecimento da nossa pobreza – muitas das vezes mais moral do que económica – colectiva, tentando disfarçar as mazelas do nosso tecido social e financeiro. Falta-nos, de facto, a cultura do trabalho, feito com sinceridade e como meio de realização humana.
Temos, infelizmente, vivido à sombra de certos preconceitos marxistas onde cada ‘trabalhador’ – espécimen laboriosa de endeusamento de grupo – se torna numa espécie de rezingão militante, vendo em cada outro um potencial ‘explorador’ oportunista e incapaz de ser tão bom ou melhor (trabalhador) do que eu. Com efeito, uma certa dialéctica marxizante ainda envenena as relações entre as pessoas – patrões e trabalhadores, como se aqueles não fossem também estes! – gerando desconfiança e mau ambiente profissional, social e político.
Temos, infelizmente, andado a fugir à nossa incapacidade de percebermos que somos um povo de preguiçosos – salvo raras e bem sucedidas excepções – que preferem viver de expedientes – com esquemas bem urdidos – do que sermos participantes da tarefa comum – que é muito mais do que colectiva! – em construirmos um país de trabalho honesto e benfazejo.
Talvez nos falte, infelizmente, a experiência de nos termos de unir para reconstruirmos o tecido nacional, como aconteceu nos países do Norte da Europa, após as duas Guerras mundiais... no século XX. Continuamos, afinal, com um certo mini-fúndio mental, onde cada um cava no seu quintal e tem água suficiente para não precisar da partilha com o vizinho e vice-versa.
Temos de assumir a verdade do que somos: não temos, normalmente, horizontes de bem comum nem nos unimos no comum do bem... de todos.

= Orfandade do ‘pai’ matado
Nota-se, em geral na psicologia do povo português – muito mais do que em qualquer outro povo, no contexto europeu! – uma espécie de necessidade de proteccionismo, transferindo para o Estado o complexo do pai, que tanto ampara como condiciona a assumpção da personalidade e, nalguns casos, é boa desculpa para adiar a maturidade por si mesmo e pelos seus actos.
Veja-se com facilidade se fala mal do Estado – mesmo que o contestado passe a ser, na prática, o governo – mas se anseia que ele assuma as responsabilidades que devem ser de cada um. De facto, tem-se repetido, por estes dias, a célebre frase atribuída a JF Kennedy: ‘não pergunteis o que o país pode fazer por vós; perguntai antes o que é que vós podeis fazer pelo país’!
Efectivamente, preciamos de ultrapassar esta orfandade do pai tirano, para passarmos a sentir a nossa responsabilidade de pessoas adultas que assumem as suas culpas, as suas façanhas e os seus insucessos sem termos de andar sempre a desculpar-nos...
E nem as instituições da Igreja podem prestar-se a fazer esse papel proteccionista de dar ajudar aos bochechos, prendendo as pessoas pela boca, mas temos, urgentemente, de criar adultos que se empenham em construir a vida com responsabilidade e dever assumido.

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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