Jornal de Opinião

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12/11/10

Num tempo de grave crise... uma Igreja ainda mais solidária!

Temos vindo a saber, através da televisão, que existem neste momento no país inúmeras pessoas a passar dificuldades, e muitas, já a passar fome.


A perda de emprego, os encargos assumidos com empréstimos para a compra de casa, do automóvel, do electrodoméstico etc, e ainda, e sobretudo, os maus hábitos de consumo exagerado e impensado, adquiridos nos últimos anos, quer a nível de Estado e do Governo, quer a nível familiar e pessoal, conduziram-nos a esta situação aflitiva.
Se têm estado atentos, hão-de ter verificado, como eu, que, quem tem vindo a acudir a esta pobreza e miséria, é principalmente a nossa querida e amada Igreja, através da CARITAS, das MISERICÓRDIAS e das PARÓQUIAS.
Eu diria que, agora, já começam a lembrar-se da Igreja!
Esta Igreja, que tão desprezada e combatida tem vindo a ser por governos laicos, por concidadãos agnósticos, por vanguardistas de esquerda e por movimentos ditos de “libertação”, mas também pelos seus próprios filhos (em Portugal as pessoas tiveram sempre um especial prazer em falar mal dos padres, da igreja e da religião), esta Igreja, dizia, volta a ser mais uma vez a mãe que esquece, a amiga que perdoa, a irmã que acolhe e ajuda a todos, seja qual for a sua religião, a sua raça, o seu clube ou a sua posição política.
Tenho a certeza de que muitos dos que agora estão a ser socorridos pela Igreja, estiveram contra ela em muitas ocasiões (e talvez amanhã voltem a estar…) nomeadamente quando defende a família contra o divórcio, a pedido, ou contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, quando protege a vida humana contra o aborto e contra a eutanásia, ou quando defende uma vida com dignidade, contra os desmandos duma sociedade que quer viver sem regras, sem valores e sem ideais.
Pesem embora as manchas frequentes dos seus filhos pecadores, a Igreja sempre assim se comportou. Foi essa a mensagem que recebeu do seu maravilhoso fundador que passou a vida a fazer o bem a todos e nos ensinou a ser misericordiosos como o Pai do Céu é misericordioso.
Quem estuda um pouco a história da nossa Igreja, para além de encontrar muitas sombras e negruras, porque ela é feita de homens e mulheres pecadores por natureza, verifica também que a sua existência de dois milénios é uma enorme epopeia de amor e de caridade.
Bastará dizer-lhes que, durante séculos e séculos, a Igreja foi a única organização a preocupar-se e a fazer tudo o que podia pela educação e instrução das populações, e a única instituição que se dedicava a consolar os aflitos, a cuidar dos doentes, a acudir e a defender os perseguidos, a visitar os prisioneiros e a matar a fome aos desgraçados. Bastará informá-los de que, ao longo da Idade Média, não havia igreja alguma que não tivesse organizada uma “relação dos pobres” existentes na paróquia. Bastará acrescentar que era à porta das igrejas e aos refeitórios dos mosteiros que os pobres e os maltrapilhos vinham buscar roupas e mantimentos. Bastará lembrar também que era nas enfermarias dos mosteiros que os doentes encontravam uma cama feita, uma mesa posta e tratamentos ao seu dispor…e sem pagarem taxas moderadoras.
A Igreja não deixava que alguém fosse excluído, maltratado ou abandonado à sua sorte. Até os foragidos às justiças encontravam asilo nas igrejas. Os hospitais, as albergarias, os asilos, as gafarias, os hospícios, as mercearias (para acudir a “pessoas honradas mas empobrecidas”, hoje diríamos, os pobres envergonhados), as confrarias de mesteres e artesãos e todas as outras instituições de caridade e bem-fazer foram, até ao século XIX (data em os governos liberais começaram a assumir as questões sociais como encargo seu), uma enorme epopeia de amor e de caridade por parte da Igreja Portuguesa.
Um ilustre investigador dá-nos conta de terem existido no país, antes de, no século XV, aparecerem as Misericórdias, 77 gafarias para acolher e tratar os leprosos, 186 albergarias para cuidar de peregrinos e viajantes e 36 hospitais para receber e tratar dos doentes, tudo por iniciativa de particulares e à sombra das igrejas. Isto, numa população que rondaria apenas um milhão de habitantes.
Tal acção benemérita da Igreja avolumou-se e floresceu mais ainda quando, em 1498, começaram a surgir, às centenas, as Irmandades das Santas Casas da Misericórdia pelo país, primeiro no continente, e mais tarde nas províncias ultramarinas: umas 388, actualmente, só aqui no continente.
Sintamo-nos felizes por pertencer a esta Igreja, tão odiada por muitos mas sempre de mãos abertas para todos. E, nesta fase de grave crise, não deixemos de olhar para o lado. Demos as mãos uns aos outros, organizemo-nos melhor se for preciso, façamos de novo “relações” de necessitados em cada paróquia e, sem dar nas vistas nem humilharmos ninguém, acudamos a todos os que precisam de nós e da nossa ajuda fraterna e solidária.
É isto o que mais interessa agora.
Deve ser isto o que Deus mais quer de cada um de nós.

Resende, 10 de Novembro/2010
J. CORREIA DUARTE

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