Jornal de Opinião

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25/10/10

Aprender a poupança... antes, durante e depois da crise

Cerca de um milhão de portugueses (11% da população) não tem qualquer conta bancária e daqueles que a têm metade não a usa como meio de poupança, mas como oportunidade de consumo a curto prazo.

Estes dados foram revelados, recentemente, pelo Banco de Portugal, resultantes de um inquérito que esta instituição fez sobre literacia financeira.
Daqueles dados ficamos ainda a saber que uma grande maioria (67%) dos que não têm conta bancária dizem que isso se deve a não terem rendimento para tal. No entanto, cerca de metade dos que têm conta bancária referem que tentam poupar, mas apenas um em cada cinco depositantes poupa com intenções de longo prazo, enquanto os restantes poupam para consumir e não para acumular uma base de riqueza.
Se compararmos os dados portugueses com os de outros países veremos que, num ‘campeonato de poupança’, os lusitanos ficam muito abaixo na tabela. Assim a poupança abrange 58% na Holanda, 71% na Nova Zelândia e 82% na Austrália.
Interpretando estes dados, o governador do Banco de Portugal considera que ‘não poupar significa tornar-se vulnerável perante o futuro, tornar-se vulnerável perante circunstâncias adversas’.
Diante deste quadro tentaremos reflectir sobre as implicações da arte de aprender a poupar... antes, durante e depois da crise.

Aprender a poupar antes da crise
De pouco nos adianta andarmos a culpar os outros – sobretudo o Estado ou o governo – se não tivermos os mínimos hábitos de poupança. Os nossos antepassados não tinham reformas do Estado e, por isso, aferrolhavam para terem uma velhice digna. Muitos até passavam fome quando tinham (alguma) abundância para terem (alguma) suficiência nos últimos dias de vida.
Quantas vezes ouvimos os mais velhos referirem que as dificuldades do seu passado eram ofendidas pelos exageros de seus descendentes. Muitos iam até dizendo: ‘quem dera que não venham os tempos antigos... para terem de saber poupar’.
Com o tempo foram sendo dados sinais de aliviar a carga e, muitos dos nossos mais velhos, foram sentindo que o Estado lhe dava reformas sem para elas tivessem, directamente, descontado... Isto tanto nas cidades como nos meios rurais.
Alguns – dizemo-lo por conhecimento próximo – que até foram vendendo o pescado a preço fora de controlo, agora têm reformas muito baixas, mas foram vivendo sem terem de prestar contas a ninguém... pavoneando-se, nalguns casos, sem nexo nem correcção. Talvez até nem devessem, hoje, ussufruir de algo para o qual não contribuiram... minimamente. Basta de conversa envenenada (só) com direitos mas sem obrigações!

Aprender a poupar em tempo de crise
Agora que estalou o verniz do faz-de-conta, muitos tentam dizer que a crise é dos outros, quando, afinal, ela foi gerada no descontrolo das capacidades entre aquilo que se ganhava e aquilo que se gastava.
No início da década de 90 do século passado tivemos governantes algo incompetentes, que foram criando na população uma espécie de irresponsabilidade nos gastos e nas solicitações ao consumo. Esses governantes deveriam de ser incriminados, pois enganaram as pessoas – primeiro os seus eleitores e depois o público em geral – com promessas ilusórias... mas com graves consequências actuais e futuras.
A falta de poupança fez emergir uma nova classe de pobres, muitos deles com penhoras, créditos e dívidas... já para os filhos e até netos. Conhecendo o povo português, que tenta dizer que tem mas, afinal, é só de fachada, urge fazer-nos descer à condição de pobres reais e não de ricos falidos... na União Europeia.
Mais do que acusações, precisamos – todos – de assumir as nossas falhas, corrigindo as más opções e aprendendo a viver do nosso trabalho mais do que das ambições desmedidas e fantasmagóricas.

Aprender a poupar depois da crise
Aceitando a verdade daquilo que somos temos de denunciar quem – partidos, sindicatos, associações, crenças, etc. – nos tem enganado, fazendo-nos viver mais na moderação dos desejos consumistas, tornando-nos sérios nos investimentos a fazer e criando humildade... pois quem não tem dinheiro não alimenta modas nem cultiva vícios.
- Depois de um certo miserabilismo do ‘Estado novo’, chegou a hora de repelir essoutro fachadismo do ‘Estado social’. Basta de andarmos a engordar preguiçosos à custa do trabalho alheio.
- É preciso dignificar a cultura do trabalho e não a da subsidio-dependência.
- É tempo de falar verdade e de deixarem de nos andarem a esconder os falsos profetas da igualdade... hipócrita, pois muitas das palavras das (ditas) esquerdas não são sociais nem patrióticas, mas antes subrepticiamente ilusões totalitárias sem rosto nem responsabilidade.
A crise cuida-se com poupança e moderada ousadia nas famílias, nas empresas, no Estado e nas pessoas. Falemos verdade e assumamos todos as consequências de sermos um povo pobre e empobrecido... Temos de nos unir já e em força... humilde!

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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