Jornal de Opinião

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14/09/10

Enriquecer com as fragilizações alheias

Segundo dados mais ou menos credíveis nos dois últimos anos duplicaram os retalhistas de ourivesaria devidamente licenciados, levando-nos a crer que a compra e venda de ouro é um negócio em larga expansão e que estará a ser alimentada pela crise económica em curso.

De facto, bastará folhearmos os jornais, percorrermos as ruas de vilas e cidades e até consultarmos a internet para constatarmos a pujança deste negócio. Em maré de dificuldade (quase) se cumpre o ditado: vão-se os anéis, mas fiquem os dedos!
Não deixa de ser impressionante que, nos momentos de colapso social, há sempre alguém que faça fortuna e enriqueça com as fragilizações alheias, gerando situações de maior ou menor ‘injustiça’ entre os vendedores e os que adquirem as peças levadas à venda.
Sem pretendermos julgar seja quem for, ousamos colocar breves questões:
- Este surto de venda de ouro – muitas das peças com valor estimativo – não revelará uma atitude de desespero de pessoas, famílias... em desequilíbrio financeiro?
- Até onde irá a assumpção dos falhanços sem a correcção dos erros que os motivaram?
- Não haverá em muitas pessoas (individuais, famílias e colectivas) uma recusa em admitirem as fragilidades corrigindo as causas?
- Por que haverá ainda pessoas e famílias que continuam a fazer férias, endividando-se mesmo, sem olharem às dívidas não saldadas: será fuga às responsabilidades ou presenção de estatuto social falido?

1.Quando a verdade é humildade
Efectivamente, há pessoas que foram seduzidas pelo dinheiro barato – a crédito ou sob a forma de empréstimo – e que agora não conseguem fazer o estilo de vida sonhado ou pretendido... sem olhar a meios. Numa espécie de sensação de vazio vemos crescer o número daqueles/as que se julgam (ou julgaram) mais influentes só porque ostentavam roupa de certa marca, os adereços de estilo na moda ou ainda frequentando restaurantes e lugares que lhe dariam estatuto mas que não correspondiam à verdade daquilo que são hoje... mesmo que tenham pretendido sê-lo num passado recente.
Torna-se, por isso, urgente fazer com que as pessoas vivam segundo as suas posses e não à custa dos intentos alheios. Torna-se urgente educar os filhos/as para a realidade daquilo que são, de verdade, e não do que pretendem dissimular. Torna-se urgente viver na verdade, mesmo que isso implique uma maior humildade, antes que aconteça a total humilhação.

2. Pela humildade nos edificaremos
Somos um país que tem vivido acima das suas possibilidades, desde o mais simples dos cidadãos até às cúpulas de quem nos governa. Não podemos continuar a gastar para além das nossas posses. Precisamos de cultivar o espírito de poupança, que é muito mais do que o mero aferrolhar, mas antes ter tento nos gastos para amanhã. Precisamos de pensar que o dito ‘Estado social’ não é uma mera visão providencialista de protecção a preguiçosos, subsidio-dependentes ou a desempregados profissionais.
Torna-se importante também fazer sentir aos receptadores/compradores do ouro dos que estão em dificuldade, hoje, que não têm direito de sugar as memórias dos aflitos, mas antes têm de alimentar a confiança de quem, estando a passar por precariedades, deve levantar a cabeça, alimentando a esperança de recuperar a sua dignidade ofendida, mas não vendida.

Como viveremos, nós, cristãos, estes aspectos, tanto como necessitados de vender ou como (possíveis) compradores? Saberemos ter o necessário recato, tanto na venda como na compra?
Queira Deus fazer-nos aprender – como dizia São Paulo – a viver tanto na penúria como na abundância em desprendimento de tudo e de todos.

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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