Jornal de Opinião

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07/09/10

Ler Caim

Vejo o último livro de José Saramago, Caim, em quiosques, ao lado dos jornais desportivos e das revistas da crónica social. Há quem o leia nos comboios. Em Espanha, vejo-o nos escaparates das livrarias, com a indicação de que já vai na quarta edição.

Como sucede com outras obras do nosso prémio Nobel, as referências bíblicas neste livro são constantes. Nota-se claramente que o autor que dar uma imagem do Deus bíblico como um deus cruel, vingativo, rancoroso e “má pessoa”, como escandalosamente proclamou na polémica apresentação do livro. «A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele» - é a frase que pode resumir o conteúdo da obra e que surge na badana da contra-capa.
Num tempo em que a incultura geral a respeito da Bíblia e do cristianismo se difunde cada vez mais, é natural que a maioria dos milhares de leitores de Caim não tenham capacidade para dele fazer uma leitura crítica e que a imagem do Deus bíblico com que fiquem depois dessa leitura seja mesmo a do tal deus cruel, vingativo, rancoroso e “má pessoa”. Que essas pessoas só por este meio, e não pela própria leitura da Bíblia, conheçam (ou desconheçam) esse Deus. Foi este grave perigo, agravado pela grande difusão do livro (explicada pelo seu mérito literário, que não discuto, mas também pela polémica), que me levou a escrever estas breves linhas. Apesar de estar longe de ser crítico literário ou exegeta bíblico, e sabendo que outros o poderiam fazer melhor do que eu, procuro tentar atenuar um pouco esse perigo, confrontando o deus do livro de Saramago com a verdadeira face do Deus bíblico.
Para descobrir essa face, não é necessário ser especialista. Basta ler a Bíblia na sua integralidade, sem nos determos num ou noutro episódio desinserido desse contexto global. Em todo o caso, algum esforço de interpretação deve ser feito e podemos socorrer-nos de muitos e bons auxílios. A mim, serviu-me de ajuda para escrever este texto uma excelente edição da Bíblia publicada em fascículos pela revista italiana Famiglia Cristiana, La Bibbia per la Famiglia, coordenada por Gianfranco Ravasi, actual presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, e repleta de muitos e completos comentários, uns dos mais reputados biblistas, outros de intelectuais e artistas italianos de vários quadrantes. Destes comentários se vê, além do mais, que a Bíblia inspirou ao longo da história da cultura ocidental, e continua a inspirar, pensadores e artistas; é, na expressão de Manoel de Oliveira na mensagem que dirigiu a Bento XVI, um “tesouro inesgotável da nossa cultura europeia”. Uma inspiração que, independentemente da maior ou menor ortodoxia das interpretações desses pensadores e artistas, nunca poderia vir de uma imagem tão grosseira e superficial como a que transparece no livro de que nos ocupamos.
Um primeiro esclarecimento sobre a interpretação da Bíblia se impõe: o que distingue a Revelação e a inspiração divina, por um lado, e, por outro lado, os limites humanos da forma de expressão, ligados a um contexto cultural e histórico específico e datado. A Bíblia contém a Revelação divina, a manifestação do mistério de Deus e da sua vontade. Neste sentido, o texto sagrado é fruto de uma inspiração que traduz a acção do Espírito Santo. Mas isso não significa que toda a sua expressão literal seja “ditada” por Deus sem mediação humana. Apesar da inspiração divina, o autor humano, com os limites próprios do seu tempo e da sua cultura, não se anula. Nisto se distingue a concepção da interpretação bíblica da visão islâmica prevalente sobre o texto do Corão, concebido na sua literalidade como Palavra de Deus incriada (donde decorrem muitos dos problemas da sua adequação à modernidade).
Há que saber discernir o que é fruto dessa inspiração divina, por um lado, e o que reflecte esses limites humanos, por outro lado. Há que saber distinguir, também, os vários géneros literários do texto bíblico, que vão da poesia à alegoria, à máxima moral ou à narração histórica, por vezes entrelaçados, e interpretar esse texto tendo em conta o seu género literário do trecho em questão.
Há que ter presente que a Revelação se vai desenrolando progressivamente e que, para os cristãos, atinge a sua plenitude em Jesus Cristo. O Verbo de Deus é Jesus Cristo, a Revelação completa de Deus é Jesus Cristo, e o texto sagrado é uma preparação e um meio para chegar a Jesus Cristo, não um fim em si mesmo. Também neste aspecto a visão da Revelação cristã se distingue da visão da Revelação islâmica prevalente. Daí a importância, para a perspectiva cristã, de nunca deixar de ler um qualquer trecho bíblico à luz do seu contexto global e, em particular, de ler um qualquer trecho do Antigo Testamento à luz do Novo e à luz da mensagem de Jesus Cristo. Porque a Revelação se vai desenrolando progressivamente na História e só atinge a sua plenitude em Jesus Cristo, pode um trecho do Antigo Testamento desinserido desse contexto global dar uma visão de Deus e da sua vontade que se revela, à luz desse contexto global, incompleta ou parcial. Não se trata de desligar o Novo do Antigo Testamento, mas de os ler em conjunto, como Revelação progressiva.
São estes princípios que José Saramago não considera no seu livro. As passagens do Antigo Testamento a que se refere para demonstrar a sua leitura de um deus cruel, invejoso, vingativo e rancoroso são desinseridas do contexto global da Bíblia. Mas até independentemente dessa desinserção, parece-me que são distorcidas no seu sentido mais evidente. Vejamos porquê.
São vários os episódios bíblicos de que se serve Saramago para ilustrar essa visão de um deus tirânico e rancoroso. O episódio do sacrifício de Isaac solicitado por Deus a Abraão, seu pai, é apresentado como exemplo da crueldade de um deus que chega a exigir o assassínio de um filho para afirmar o seu poder. A destruição de todos os habitantes de Sodoma e Gomorra é apresentada como exemplo de um deus injusto, que não se detém diante do castigo máximo de crianças inocentes. A destruição da torre de Babel é apresentada como exemplo de um deus invejoso, que não suporta a rivalidade dos méritos do engenho humano. A história de Job, eivada de sofrimentos absurdos e injustificados, revela também a injustiça desse deus e a sua insensibilidade perante o sofrimento humano. Os massacres dos inimigos dos hebreus por ordem divina, como “violência sacra”, relatados no livro de Josué também exemplificam essa crueldade. E assim também o dilúvio. Noutro plano, a geração incestuosa dos filhos de Lot é apresentada como sintoma do desregramento moral mais extremo (a Bíblia como “manual de maus costumes”, segundo a expressão também célebre da polémica apresentação do livro).
É fácil identificar a distorção da mensagem subjacente a estes episódios, em si mesma e também porque desinserida do contexto global da Bíblia, o contexto do Antigo e do Novo Testamentos.
Do episódio do sacrifício de Isaac não deve retirar-se que Deus tenha verdadeiramente querido esse sacrifício. Deus quis pôr a prova a radicalidade da fé de Abraão e este demonstrou que o seu amor a Deus era superior ao mais nobre e legítimo dos afectos humanos. Mas Deus não aceitou esse sacrifício e daí pode concluir-se que o amor radical a Deus não é incompatível com o amor filial. Daí também decorre que a prática de sacrifícios humanos tenha sido condenada pelos profetas, ao contrário do era corrente noutros povos, ou do que se verificou em culturas de várias épocas.
À luz do Novo Testamento, os cristãos associarão este episódio à frase de Jesus (que retoma a do profeta Oseias) “Prefiro a misericórdia ao sacrifício”(Mt.,9,13); ou seja, mais do que qualquer sacrifício, a Deus agrada o amor, nas suas dimensões horizontal e vertical, para com Ele e para com o próximo. E os cristãos também associarão este episódio do sacrifício de Isaac ao da própria morte de Jesus, quando é o próprio Deus que se entrega em sacrifício por amor da humanidade. É difícil conceber exemplo mais eloquente do amor de um Deus, a inversão mais perfeita de uma qualquer imagem de um Deus que cruelmente exige sacrifícios humanos. E não se pense (como também faz Saramago num outro livro, O Evangelho segundo Jesus Cristo) que o sacrifício de Jesus também manifesta a crueldade de um pai que exige a morte do próprio filho, porque o Pai e o Filho são um único Deus e a entrega de Jesus pela humanidade é a entrega do próprio Deus na pessoa do Filho.
Também é distorcido o sentido do episódio da destruição da torre de Babel. Não se trata de derrubar um fruto do engenho humano que rivalizaria com Deus. Trata-se, antes, de contrariar as lutas interétnicas e pela afirmação da identidade que geram a “confusão” e a divisão contrárias à unidade original da família humana. Em nenhum outro texto, religioso ou não, podemos encontrar, como na Bíblia, uma exaltação tão nítida da dignidade humana, da pessoa criada, segundo o Génesis, «à imagem e semelhança de Deus», a que se refere o salmista nestes termos: «Quando contemplo os céus, obra das tuas mãos, a Lua e as estrelas que Tu criaste; que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares? Quase fizeste dele um ser divino; de glória e de honra o coroaste.» (Sl.,8,4-6). E essa exaltação do ser humano atinge o seu auge no Novo Testamento, quando Deus se faz homem e dá a vida pela humanidade. O Deus bíblico não inveja, pois, as qualidades humanas, antes as exalta de forma suprema.
Quando o autor de Caim transmite a sua indignação diante de um deus que destrói Sodoma e Gomorra sem poupar as crianças inocentes parece esquecer que é precisamente a justiça de Deus que nesse relato se quer sublinhar, depois de nele se afirmar, com insistência, que a existência de um qualquer inocente entre os habitantes dessas cidades teria impedido essa destruição.
O episódio da geração incestuosa dos filhos de Lot não significa qualquer legitimação do incesto, vigorosamente condenado entre os hebreus como entre outros povos. Simboliza, antes, a afirmação da origem impura de dois povos historicamente hostis a Israel, os Moabitas e os Amonitas.
Saramago parece que também não compreendeu em toda a sua profundidade o livro de Job, que já muitos consideraram uma das obras-primas poéticas e espirituais não apenas da Bíblia, mas também da literatura de todos os tempos. Na angústia e no grito de Job podem os homens e mulheres de todas as épocas e culturas identificar as suas amarguras e revoltas. No sofrimento de Job ecoa o sofrimento de todos os homens e mulheres. Nele se retrata a incompreensão diante do mistério da dor humana e do silêncio de Deus diante dessa dor. Perante este silêncio, Job dirige-se a Deus em termos que quase atingem a irreverência, ou mesmo a blasfémia. Nestas imprecações muitos revoltados contra Deus se reconhecerão. Perante este mistério do sofrimento de um inocente e do silêncio de Deus, o autor bíblico sublinha, antes de mais, a rejeição de uma visão retributiva que associava o sofrimento de uma pessoa ao castigo pelos seus pecados (rejeição que será confirmada por Jesus no episódio da cura do cego de nascença a quem manda depois lavar-se na piscina de Siloé – Jo.,9,7). E sublinha, no final do poema, que por detrás do aparente silêncio de Deus está um seu desígnio harmonioso de amor e justiça que escapa ao conhecimento humano. Os cristãos também associarão esta mensagem ao sentido do abandono e morte de Jesus, onde Deus se identifica plenamente com o sofrimento humano, neste se incluindo, até, a sensação de silêncio e de abandono da parte de Deus. No abandono e na morte de Jesus encontra sentido, de forma plena, o sofrimento humano, como uma chave e um caminho para a Ressurreição.
Um dos exemplos mais evidentes das limitações do autor humano da Bíblia na sua percepção da natureza de Deus encontra-se precisamente nas descrições do livro de Josué a respeito dos massacres dos inimigos de Israel apresentados como um mandato divino. Hão-de compreender-se à luz de uma preocupação de não contaminação da fé do povo de Israel com a de outros povos idólatras. Mas é evidente que se trata de uma percepção incorrecta e não esclarecida, fruto de uma mentalidade historicamente datada (influenciada pelos hábitos guerreiros dessa e de muitas outras épocas da História), que contrasta com aquilo que a Bíblia no seu todo nos diz a respeito da natureza de Deus. Deus serve-se também destes instrumentos imperfeitos de uma Revelação que se vai desenrolando de forma progressiva. Comenta a este respeito Gianfranco Ravasi: «…a justificação principal destas e de outras páginas “difíceis” do Antigo Testamento há-de procurar-se na particular visão da Revelação bíblica. Deus não se manifesta em abstracto, nem aparece nos céus puríssimos, antes no emaranhado da história humana. Ele desvela a sua vontade através de uma série de acontecimentos humanos nos quais se esconde e opera. Deve, por isso, tolerar os limites humanos, passar através das vicissitudes humanas e do seu desenrolar lento e muitas vezes tormentoso, deve actuar num tempo e num povo bem precisos, à espera de conduzir a humanidade em direcção a um horizonte mais alto».
A insistência do Antigo Testamento nos castigos e punições divinas, muitas vezes com acentos de grande severidade, pode chocar a mentalidade contemporânea. Já não será assim para a mentalidade de outras épocas, tão sensível à justiça como à misericórdia de Deus. Também não será assim em povos vítimas da injustiça humana que esperam de Deus a correcção dessa injustiça e dos defeitos da justiça humana, como se verificava com o povo hebreu e como poderá verificar-se com muitas outras pessoas e povos de várias épocas e culturas. Há que salientar, por outro lado, que os castigos divinos são sempre em função da Salvação, um instrumento em relação à Salvação. Mas uma visão completa da Bíblia permite reconhecer que a misericórdia de Deus ultrapassa e supera, sem a anular, a sua justiça.
É assim já no Antigo Testamento. Apesar das infidelidades humanas e das punições, Deus permanece fiel à sua Aliança, que vai sempre renovando. Desde logo na história de Caim, a quem não castiga apesar do seu crime, o que significa que continua a acreditar no ser humano, apesar da sua tendência para o conflito fratricida. Depois do dilúvio (a que também se refere Saramago no livro sobre que nos vimos debruçando), Deus restabelece a sua Aliança com a humanidade, abençoando-a e declarando (com alusão ao episódio inicial da morte de Abel) que pedirá contas da vida de cada homem a cada um dos seus irmãos (Gen.,9,1-7) - uma afirmação do valor da vida humana que contrasta com qualquer visão de um deus belicista.
Nos salmos, são constantes as referências ao Deus «clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia», que não nos castiga segundo as nossas culpas. Assim, por exemplo, no Salmo 103 (8-14): «O Senhor é misericordioso e compassivo, é paciente e cheio de amor. Não está sempre a repreender-nos, nem a sua ira dura para sempre. Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas. Como é grande a distância dos céus à terra, assim são grandes os seus favores para os que o temem. Como o Oriente está afastado do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados. Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem. Na verdade, Ele sabe de que somos formados, não se esquece de que somos pó da terra.» Ou no Salmo 30 (6): «A sua indignação dura apenas um instante, mas a sua benevolência é para toda a vida. Ao cair da noite vem o pranto; e, ao amanhecer, volta a alegria».
No livro do profeta Oseias, Deus é comparado a um esposo fiel que assim se mantém apesar da infidelidade da esposa, o povo de Israel. E também o profeta Isaías compara o amor de Deus para com o seu povo ao de um esposo fiel: «Ainda que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca mais será abalado, e a minha aliança de paz nunca mais vacilará. Quem o diz é o Senhor, que tanto te ama.» (54, 10) Noutros passos o amor de Deus é comparado ao de um pai, ou mãe, para com os filhos, que se mantém apesar da infidelidade destes (Os.,11,1-4; Is.,46,3; Sl. 131,2).
Mas é no Novo Testamento que a verdadeira dimensão da misericórdia de Deus se descobre, que Deus-Amor se revela em plenitude. Basta lembrar as parábolas do filho pródigo (que o pai – Deus – recebe de braços abertos, apesar da sua reprovável conduta), da ovelha perdida (por quem o pastor – Deus – deixa todas as outras) ou do operário da última hora (que recebe tanto como os outros, pois para a misericórdia de Deus não existem cálculos). Ou o episódio da mulher adúltera. Ou os mandatos de amor ao inimigo e de perdão «setenta vezes sete». Ou o perdão de Jesus ao bom ladrão («Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso») e aos seus algozes («Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem»). E a paixão e morte de Jesus, expressão máxima do amor de um Deus que se entrega pela redenção da humanidade. É, como já disse, à luz desta Revelação de Deus-Amor em Jesus que todas as imagens de Deus do Antigo Testamento encontram o seu sentido, completando-as e aperfeiçoando-as.
Caim fala da história dos homens como «a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele». E diz-se no final do livro: «A resposta de deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de Caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um contra o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda». As imprecações de Saramago contra Deus não o levam a exaltar o homem, pois parece que também tem consciência das maldades de que este (representado por Caim que mata Abel) também é capaz, maldades de que também fala em muitos dos seus livros e escritos. Caim e Deus discutem ao longo do livro e «continuarão a discutir». Parece que as hipóteses de diálogo não estão de todo afastadas… Parece que o desentendimento poderá ser superado um dia… Oxalá que seja assim com Saramago. Que, apesar das suas blasfémias, possa ainda ver a verdadeira face de Deus-Amor.

Pedro Vaz Patto

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