Jornal de Opinião

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23/07/10

Ao compasso do tempo - 23 de Julho de 2010

Leitura semanal dos problemas do Mundo e da Igreja


Caro Alfredo

Tenho seguido há longuíssimos meses o bilhete-postal que o bispo emérito de Setúbal lhe tem endereçado através do “Notícias de Setúbal”.
Dirijo-me à sua pessoa para lhe dizer, com o respeito que nos une ou deve unir, que tenho estranhado o seu silêncio. Muitos calam-se (quase sempre) para não serem apanhados pelo veredicto do nosso Miguel Torgal, quando sentencia que o português, ao abrir a boca, só solta banalidades. É exagerada a sentença, com certeza.
Talvez o Alfredo (com o respeito devido, o pronuncio) esteja com medo que seja acoimado de jogar no “politicamente correcto”. Da sua parte, nem um esgar de palavra. Nem uma reverencial divergência. E a sua mudez – tão lata como as fronteiras do país – torna-se moléstia. Após D. Manuel da Silva Martins, recentemente ter sido homenageado pelo município de Vila Nova de Gaia, não ouvi da sua parte o mínimo sinal de alegria…
Não leve a mal… Leve a bem o meu protesto. Andam para aí uns choramingas sempre a manear a cabeça, pela razão das mulheres e dos homens da Igreja Católica, em Portugal, não terem microfone, nem canal televisivo baptizado, nem uma notícia de primeira grandeza nos jornais de estimação… E, ao contrário destas invernias pensantes, quando surge a contradição desses impropérios, o que se regista é a sepulcral timidez ou a amaricada negação de Pedro: “Nem sequer o conheço”, ou a indiferença, porque os interesses são os de outros “reinos”, ou a inveja ou a maledicência…
E não consigo deter o meu espanto, quando referem laicismos ou “crucifixos” a apresentarem-se em paredes que não são nossas, (que nunca nos nossos critérios ou nas salas de reunião ou de almoçar/jantar de gente sempre em cruzada…)…
A contrariar o dedo estendido ao “deserto sacral” do descontentamento patriótico, pergunto a meus botões: e a Rádio Renascença não oficia 24 sobre 24 horas? E o Diário do Minho não é escritura santa, “comungada” diariamente? E o Canal televisivo 2, mais a Antena 1, não transmitem quase todos os dias os ecos da “Boa Nova”? Mas não será sempre o mesmo do mesmo… (assuntos, pessoas, perspectivas, estilos…)?!
Em certos terrenos do país já se percebe que não convém a mudança… E na Igreja? E na Igreja diocesana local?
Já vai longe a minha navegação, Alfredo. O que as pessoas gostam é de aperitivos. Uma refeição mais sólida é sempre inconveniente.
Lamento que o “Diário de Notícias”, em 20 de Julho corrente, a pág. 13, me ponha a falar, citando a minha defesa da “obediência do padre (de Fafe)” a seu bispo, mas sempre em abertura e diálogo: assim é correcto e lógico. Agora referirem que eu “compreenda a manifestação” do povo (de trezentas pessoas…) contra um servo do Evangelho, é da menos avisada esperteza! Foi isto que comuniquei telefonicamente à jornalista, cujo nome aparece no jornal citado.
Os tempos vão ser bons. Mas até lá, a ventania estraga-nos a praia.
Já reparaste na confusão que aí vai no tablado político? Dum lado. Do outro lado. A nível de palavra… A nível da vida ninguém tem curado a fome e a falta de esperança.
Vou gozar uns dias de férias, Alfredo. Deixo-te estas indignações. Quando regressar em Setembro (logo, nos princípios) espero ser ainda mais vigoroso.

Os meus cumprimentos fraternos e do maior respeito.

MDN, CSARFA, Lisboa, 23 Julho de 2010

Januário Torgal Ferreira
Bispo das Forças Armadas e de Segurança


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