Jornal de Opinião

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10/11/10

Entre a gratidão e a expectativa... serena

Num breve espaço de um ano tive de retirar da minha lista telefónica alguns nomes, que, entretanto morrreram, ou que, infelizmente, noutros casos se verificou alguns distanciamento psicológico e, sobretudo, espiritual. Da lista dos segundos tenho algum pudor em referir-me, mas da primeira desejo registar, particularmente, alguns padres, cuja perda me foi difícil – mesmo na linha da fé – de digerir.

Talvez sem menosprezar as perdas irreparáveis pelo falecimento, parece que os vivos foram mais difíceis de recepctionar na ruptura da ausência, pois esta revestiu, inconscientemente, um certo esquecimento quase inglório.
Estamos no mês de Novembro, muito propício à memória das partidas, tantos dos defuntos como dos ‘sepultados’ (como ou sem enterro), na medida em que somos, minimamente, susceptíveis de avaliar quem nos marcou afectiva, psicológica e espiritualmente.
Daqueles que partiram podemos colher lições de vida entregue e consumada. Dos que ainda caminham connosco podemos aprender a prudência, recompondo a forma de estar em maior humilde e confiança... uns para com os outros e sempre em abertura à dimensão do divino em nós e à nossa volta.

Gerir emocionalmente
Em breve fará um ano a partida do ‘reino dos vivos’, sobre esta terra, do senhor Padre Agostinho Gomes – falecido com mais de noventa anos – que se foi apagando paulatinamente. Homem de parcas palavras, deixou sinais simples da sua passagem, que não pode nem deve ser esquecida. Vê-lo jacente na urna, nos últimos dias do ano passado, continua a ser uma recordação acre de golpe atroz. À memória me vêm conversas de circunstância e situações de aprendizagem até nas anedotas simples... a propósito de tudo ou de quase nada... aprendendo a descobrir as lições da vida em factos de simplicidade.
Meses depois – já em Junho... simbolicamente no dia de santo António – vivi o funeral de Monsenhor Manuel Bastos, em Peniche: tudo se cobriu de luto... sem choro, mas por entre lágrimas contidas de gratidão. Foram mais de seis décadas a marcar uma cidade. Quase ninguém escapou à sua influência. Chorar este homem do mar em terra de gaivotas ariscas foi o mínimo que se pode apreciar... A sua memória, certamente, nunca será esquecida pela sua diferença e pela salutar ousadia...

Aceitar serenamente
Na turbulência da nossa vida – interior sobre o exterior e vice-versa – vamo-nos encontrando ou cruzando com pessoas que nos fazem compreender (melhor) o mistério de nós mesmos. Deus permite – pelo menos até certo tempo – na sua benevolência que haja pessoas que nos ajudam a descobrir a nossa vocação e/ou missão neste mundo. Alguns/algumas entram de rompante, outros/as de mansinho e outros/as ainda entram e saem como se fossem elásticos em maré de ensaio... de aprendizagem. Quantas vezes só percebemos as causas pelas consequências... à vista da condução divina. Quantas vezes uma espécie de inocência se descobre por entre alguma maledicência. Quantas vezes há vivências que fazem amadurecer... dolorosamente.
Não é fácil viver a serenidade quando falham as ‘seguranças’ humanas e se gera alguma desconfiança em nós e à nossa volta. Muito se abala, na medida em que as expectativas são defraudadas...

À luz dos que já partiram e do respeito pela sua memória podemos entender quem nos aprecia ou despreza... agora. Se nem os mortos são honrados, muito menos o serão os vivos... convenientemente!
Basta desta mentalidade do descartável... da utilidade pela conveniência. Até quando?

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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