Jornal de Opinião

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19/11/10

Ao Compasso do Tempo – Crónica de 19 de Novembro de 2010

A Liturgia de Cristo – Rei coincide com a grande cimeira em Lisboa. Para os representantes da Nato é-lhes conferida a lição de critérios da gestão de conflitos.

A estratégia militar toma consciência, uma vez mais, de meios valorosos de defesa e de vitória. E os intervenientes deste Tratado Atlântico têm a obrigação de dominar tal cultura. Em vez das armas, surjam a justiça, o desenvolvimento, a politica da verdade, a diplomacia sem peias, a vontade de reconstruir a reconciliação e a confiança. Os critérios tido como mais pobres valem muito mais que todas as riquezas!
A lógica das relações entre povos e nações deve ser outra. Quem “reina” na batalha ou na ágora da cidadania não é a virulência nem a vingança. Também não é a humilhação dos vencidos nem o ar olímpico dos vencedores.
Os valores e as apetências destes são outra força. Mas os interesses mundanos são demolidores: o dinheiro, e as suas variantes de poder e prestígio, transtornaram tudo.
O rei (com todo o respeito pela monarquia e por expressões de mando político, do mesmo tom) é o ventre, na acepção bíblica, ou o desmando ou a mediocridade.
Uma cimeira de poder precisa da “voz da consciência” para defender os fracos, promover os direitos da pessoa, opor-se às agressões e aos monopólios, abrir-se à verdade, desconfiar dos objectivos mais hediondos à sombra de discursos de nobreza e de regulamentos de nova ordem mundial.
A mentira e os negócios engendram convulsões. E as mãos aparentemente limpas são as mesmas que desencadearam o sangue. Temo-lo visto no Médio-Oriente, no Iraque, no Irão, no Afeganistão, no mundo dos Balcãs.
Agnes Heller, pensadora húngara e judia, quando menina, fugiu do gueto onde se escondera, confiando no soldado nazi que a espiava e à sua família. Acreditava na humildade de um carrasco. O soldado, fixado nos olhos por uma criança que surgiu do silêncio do terror, depois de um momento de hesitação, permitiu que ela e os seus escapassem. O humano que há em cada um de nós sobrepõe-se a todas as outras lógicas. Há sempre uma dignidade escondida no coração de cada um. É o diadema de um Cristo que nunca quis ser Rei… “No meio das armas, a caridade” (divisa da Cruz Vermelha). Nas estratégias da Nato, em Lisboa, confio que possam brilhar a crescente defesa e respeito pelo que há de mais humano no coração do poder e da sabedoria.
A abertura a temas de cultura e de justiça abafarão o securitário e lançarão uma luz crescente sobre fanatismos e embriaguez de ódios. Leiam o admirável livro “A Guerra e o Silêncio de Deus” de Bruno Forte (Lisboa, Ed. Paulinas, 2003)

MDN, Capelania Mor, 19 de Novembro de 2010
D. Januário Torgal Ferreira
Bispo das Forças Armadas e de Segurança


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