Jornal de Opinião

São muitos os textos enviados para a Agência Ecclesia com pedido de publicação. De diferentes personalidades e contextos sociais e eclesiais, o seu conteúdo é exclusivamente da responsabilidade dos seus autores. São esses textos que aqui se publicam, sem que afectem critérios editoriais da Agência Ecclesia. Trata-se de um espaço de divulgação da opinião assinada e assumida, contribuindo para o debate de ideias, que a internet possibilita.

01/10/12

Num país de cigarras e de formigas!

Recentemente, um (ainda) ministro do atual governo proferiu que Portugal não pode ‘ser um país de muitas cigarras e poucas formigas’. Talvez influenciado pelo espaço em que estava – na região de Viseu – o governante, segundo palavras posteriores, quis enaltecer ‘os trabalhadores por conta de outrém e os pequenos e médios empresários, comerciantes e agricultores, que, pelo trabalho de formiga que todos os dias fazem, criam riqueza, mantém empregos e ciram postos de trabalho’... Não deu para perceber a reação de certos ‘intelectuais’ àquelas palavras. Dá a impressão que se sentiram ofendidos e denunciados, sobretudo, os recentes manifestantes urbanos. Será que conhecem a fábula? Vejamos, então, alguns indícios desta psicologia de cigarra neste retângulo à beira-mar plantado a que se dá, há mais de oitocentos anos, o nome de Portugal. - Logo que aparecem uns raios de sol, corre tudo para a praia... pouco importando o trabalho a fazer, inventando as mais díspares situações para o descanso! Contesta-se a precariedade do trabalho, mas é de ver as praias cheias e os locais de veraneio com lotação esgotada, sem olhar a custos! - Enquanto se faz o combate a incêndios – onde se reduz a cinza muita da nossa riqueza natural e do sustento florestal – vemos a correria aos supermercados – adquirindo produtos que nos impingem e para os quais não trabalhamos – e a participação em manifestações reivindicativas... pois os tais incêndios não lhes dizem respeito! - Faz-se fila para procurar emprego, mas enjeita-se a possibilidade de participar na prevenção dos fogos nos nossos montados e campos... cuidando de tratar da sua ‘vidinha’ sem olhar a meios, atropelando, quantas vezes, os fins! - Cuida-se de usufruir do subsídio em vez de procurar trabalho, pois a remuneração deste, nalguns casos, é bem inferior àquele, que não custa a ganhar, mas que pode viciar os beneficiários... cigarrando, isto é, pelo fumo do cigarro e na preguiça! - Que dizer ainda daquelas situações em que se discute mais o futebol – empresa e indústria, ideologia e mística, sentimento e quase irracionalidade – do que a sua real prática? Temos, por agora, semanalmente, na segunda-feira à noite, três canais televisivos a discutir à mesma hora, apaixonadamente, as conjeturas, os erros, as táticas de bancada... cigarrando do alto do púlpito sapiente! Por breves momentos aquelas diatribes futebolísticas entretêm os (seus) adeptos e fazem esquecer as agruras do trabalho, que deveria acontecer não fosse a hora tardia em que acabam de arengar aqueles senadores da treta. - O Parlamento português tornou-se numa espécie de campo de cigarras em grande estilo, subvertendo a função de ‘casa da democracia’ e, pior, acabada sinfonia discursiva logo são dissecados os cantos das cigarras por outras mais sábias, que, nos estúdios televisivos, tentam descortinar nas entrelinhas façanhas de duvidoso gosto... - De alguma forma soa a canto de cigarra o que certas forças politico/partidárias disseram ao afirmarem votar contra um orçamento de Estado que ninguém conhece e até ameaçando com moções de censura sobre factos não reconhecíveis, enquanto reclamam vitória por recuos – sensatos ou oportunistas! – de quem tem de governar... De fato, as cigarras têm poder de influenciar e as formigas de calar... até ver! Sem pretensão de fechar a discussão, antes pretendendo provocá-la, deixamos breves perguntas: . Até onde irá a nossa capacidade de aturar tanto barulho e pouco trabalho? . Como poderemos criar um clima de silêncio, que leve à reflexão e ao questionamento pessoal? . Será possível inverter este ambiente de supercialidade, criando condições para a descoberta do sentido da vida, olhando mais os outros do que, meramente, a nós mesmos? . Como poderemos calar certas cigarras, valorizando o trabalho de muitas ignoradas formigas? . Teremos capacidade de nos regenerarmos, dando novo significado ao trabalho e não à promoção de certa preguiça? Tal como na fábula, tentemos trabalhar sem nos deixarmos provocar por algumas nefastas cigarras... pois, só no dicionário é que o ‘sucesso’ aparece antes do ‘trabalho’! António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial