Jornal de Opinião

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11/07/12

O teórico que não esquece a prática

(o novo Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé) 1. Os tempos não correm fagueiros para a moderação nem, obviamente, para os moderados. No mundo e em quase todos os sectores da vida, são os extremos que predominam, agredindo-se e correndo o risco de (mutuamente) se anularem. 2. Não foi por mero ornamento retórico que Eric Hobsbawm qualificou a nossa época como sendo a «era dos extremos». Os extremos são sedutores pela (aparente) clarificação. Mas tornam-se ameaçadores pela (perigosa) simplificação. 3. Estigmatiza-se a moderação como sendo incapacidade de optar. Acontece que a autêntica moderação nasce da capacidade de fazer a síntese entre diferentes e de operar a convergência entre contrários. 4. A nomeação de Gerhard Muller para a Congregação da Doutrina da Fé parece constituir uma aposta nesta via. Além de ser um teólogo renomado, tem pautado a sua trajectória por uma apreciável dose de sensatez. 5. A missão de que foi incumbido costuma ser designada como «guardiã da ortodoxia». A sua trajectória revela que essa ortodoxia, que ele obviamente pretende guardar, nunca é separável da ortropraxia, que ele sempre mostrou priorizar. A sua proximidade com Gustavo Gutiérrez (um dos expoentes da Teologia da Libertação) indica que uma ortodoxia só é ortodoxa quando integra a ortopraxia. É por isso que Gerhard Muller diz que «a Teologia de Gutiérrez é ortodoxa porque é "prática"». 6. E até neste ponto o percurso do novo Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé é iluminador. Com efeito, Gerhard Muller é amigo pessoal de Bento XVI, tendo fundado um instituto para publicar 16 volumes de escritos do Sumo Pontífice. E, ao mesmo tempo, também é amigo pessoal de Gustavo Gutiérrez, de quem aliás foi aluno. Em conjunto escreveram o livro «Do lado dos pobres - a Teologia da Libertação», publicado em 2004. 7. Habitualmente, preocupamo-nos com os erros doutrinais. E tendemos a negligenciar a falhas vivenciais. O ortodoxo não é aquele que aprende mais doutrina, mas aquele que procura viver melhor a doutrina que aprende. As duas dimensões são importantes. Postulam-se. 8. Uma síntese não é apenas uma condensação de posições diversas. É, acima de tudo, um esforço de encontro entre visões diferentes. Uma síntese acaba por ser movimento que vai da tese para a antítese. A síntese não é, pois, o que vem após a tese e a antítese, mas o que está entre a tese e a antítese. 9. Abrir pontes onde costuma haver muros é uma missão espinhosa, mas é igualmente um trabalho estimulante. É importante que se defendam pontos de vista próprios. Mas também é salutar que não falte abertura às posições dos outros, ainda que pareçam opostas. Na procura da verdade, há certamente correcções a fazer e precisões a efectuar. Mas tais correcções e precisões devem surgir mais como um serviço fraterno do que como uma sentença inapelável. 10. Numa Igreja que se vê como um corpo (assim no-la apresentou S. Paulo), todos são portadores de um carisma, de um dom. Os carismas e os dons não são estanques. Circulam em todos e interpelam-se entre si. A verdade é sempre para procurar. Alguma vez será para possuir? Fundamental não é possuir a verdade, mas deixar-se possuir pela verdade. 11. Mantenhamos, por isso, a indispensável coerência nos princípios e não desleixemos o inadiável compromisso com a sua aplicação. Quem não ama o próximo como pode pretender amar a Deus? 12. Não separemos o que Deus uniu. Foi Deus que uniu a verdade e o amor, a doutrina e a caridade. Neste caso, querer menos que tudo é querer nada! João António Pinheiro Teixeira teólogo

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