Jornal de Opinião

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04/06/12

Ao Compasso do tempo - 01 de junho de 2012

Há névoas sobre o mundo político português, e conforme os media, sobre o próprio Vaticano. Lembro-me de um almoço em Paris, há cerca de quarenta anos em que um leigo francês, virando-se para mim e para outro padre português, nos alertava para o que éramos para o mundo: simplesmente uns “corvos”, enquanto gente vestida de preto (já não era o caso) e anunciadora de maus presságios. Corvos! Mal imaginava que tal designação viria a atribuir-se aos conspiradores e aos metediços da comunicação social! Por mais leituras que por aí grassem, expliquem-me como se organiza escritos sobre a vida privada de responsáveis, numa devassa de tal ordem que, sem pôr em causa a incumbência das secretas, nos fica a impressão de que métodos pidescos estão de volta! A ausência de princípios morais, a frequência de ambientes de luxos para uma conversa de ocasião, as névoas que ensombram a cumplicidade de figuras políticas com empresas de objetivos pouco explicados, a mesma aliança entre associações “invisíveis” e os desempenhos de seus representantes no mundo monetário-político infelizmente não andam longe estas notícias das que nos surgem a respeito do Vaticano, onde nos é apontada gente em fila á espera de capitanear a equipa ou intermediários a aproveitarem-se de papéis e relatos, para publicidade do que é manifestamente privado. É certo que o demasiado segredo ou o secretismo é uma tentação de virar tudo ao contrário. Desde o secretismo histórico do plano dos Descobrimentos até ao de nomeações e de mudanças nos nossos tempos, parece ser tema mal conseguido. O que não se quer que se saiba, todo o mundo conhece. Da tentação de vir tudo para a praça pública até à investigação indevida, é só um passo. A nebulosa consiste nos métodos impróprios, na difusão da mentira, na tentativa de desassossegar a ordem pública com a desordem, como quem possuísse o conhecimento prévio de onde colocar os pedras do xadrez. Bem sabemos da pouca clareza e da discutível segurança com que se chega a afirmar o contraditório! E é esta confusão a respeito da verdade que deixa perturbado quem sempre a busca. Não acontece que tantas vozes erguidas contra a independência de Timor Leste vieram, tempos depois, defender posições contrárias?! Comentadores acentuaram que o Cardeal Ratzinguer não quis ser papa. Para concluírem hoje: “E, de facto, não foi” (Nouvel Observateur, nº 2477, 26 de Abril de 2012, p. 59). Na biografia de Françoise Sagan, seu único filho Denis Westhoff cita François Mauriac, para quem a discutida romancista “esteve muito mais próxima da graça do que certos crentes”. Segundo o filho, a mãe teve um profundo respeito pelo outro, um amor pelo outro e a preocupação constante de não causar a alguém qualquer mal”.(Nouvel Observateur, 24 de Maio de 2012, nº 2481, p. 66). São opiniões. Conforme Teilhard, quando os cristãos “ se converterem à esperança da terra”, muitas coisas mudarão (Quelques refléxions sur la conversion du monde, 1936). E acrescenta: “um dia, há já mil anos, os papas dedicaram-se a dizer adeus ao mundo romano e a ir para junto dos bárbaros. Espera-se hoje em dia um passo semelhante”. Em 16 de Abril último (data do aniversário natalício), o Papa Bento XVI sublinhou: “a Sua Luz é mais forte do que toda a obscuridade”. As “línguas de fogo” devem substituir as “névoas” e os “corvos”. Como? Lisboa, 1 de Junho de 2012 Januário Torgal Mendes Ferreira Bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança

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