Jornal de Opinião

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11/06/12

Em memória do Padre Carlos Veríssimo

Foi a sepultar, no cemitério de Santiago, Sesimbra, no passado dia oito de Junho, o Senhor Padre Carlos Veríssimo de Figueiredo. Tinha 91 anos de idade e quase 68 de padre. Sendo o único padre vivo natural de Sesimbra, como que temos a necessidade de falar – sem encómios nem panegíricos – deste que foi um padre que viveu o seu sacerdócio no contexto do Patriarcado de Lisboa – antes e depois da criação da Diocese de Setúbal – tanto na vida académica – ligado aos Seminários e à Universidade Católica – como na vida castrense, sem uma muito definida ligação de ofício com a vida paroquial. Recordamos, pela função paroquial, um dos momentos mais significativos, na dimensão eclesiástica, em que fomos chamados, numa tarde de domingo, aí há cinco anos, para levarmos a santa unção ao Padre Carlos: estava inconsciente, sem falar nem reagir aos estímulos vitais mínimos, já há alguns dias. Demos-lhe a Santa Unção... sem qualquer reação perceptível da sua parte. Era tal a convicção do ‘fim’ que até combinámos, com quem o assistia – e fê-lo por quase uma dezena de anos! – qual a ‘indumentária’ em ordem ao derradeiro passamento... Com tristeza esperamos, então, o desfecho! Eis que, no dia seguinte, começou a falar... vivendo todo esse tempo até à sua morte em vésperas da solenidade do Corpo de Deus... no último dia seis de Junho. Para além da confiança no sacramento da Unção dos doentes – quantos outros casos poderemos testemunhar sem dúvida nem falsa presunção! – queremos referir a súbtil convivência com este Padre nonagenário, que foi caindo até à despedida ‘definitiva’ da terra dos vivos, talvez sepultado ainda antes de falecer e numa espécie de despojamento para onde muitos de nós caminharemos... sem nos darmos, totalmente, conta! Dotado de um poder artístico – de música e de desenho – fora do vulgar soube fazer destes dotes um caminho de anúncio de Deus, sob alguns laivos de memorização nas conquistas realizadas e para com amigos que o sentiam como mestre e lhe tributavam grande admiração correspondida com outros tantos sinais de retribuição... afetiva. = Observações Tal como noutros momentos de homenagem – tanto de leigos/as como de padres – sentimos que há esquecimentos e ausências que não deviam acontecer. Certas figuras sociais e políticas, da vida eclesial e do contexto cultural, na expressão local ou no âmbito diocesano, deviam estar mais em gratidão, pois a história faz-se com gestos e não com silêncios cúmplices ou mesmo atraiçoadores. Tal como para com outras figuras de grande longevidade, recentemente desaparecidas, também aqui esperávamos que houvesse memória e que uns tantos não se furtassem a manifestar veneração a quem muito devem e a quem já partiu. Porque todos pouco mais não somos do que pó – levantado ou em vias de sepultação – necessitamos que os vindouros vejam nos nossos atos e perante as nossas atitudes algo que aponte para a dignidade sem adulação e que sempre sejamos capazes de fazer crescer a gratidão como virtude e, sobretudo, como qualidade humana e com muito mais força cristã. Senhor Padre Carlos: obrigado pela caricatura que me ofereceu, em 1998, por ocasião da primeira festa do Senhor Jesus das Chagas, que vive em Sesimbra: nela dizia e a contemplo diariamente: ‘amai a vida’! Paz à sua alma e interceda por todos nós... António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

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