Jornal de Opinião

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24/07/12

A (crescente) degola da palavra

1. Um dos indicadores que os nossos tempos exibem é a crescente capitulação da palavra perante a realidade. Já sabíamos que a realidade é forte. O que não suspeitávamos é que se a palavra se mostrasse tão fraca. Hoje em dia, a palavra quase sempre vai atrás dos factos, (in)devidamente domesticada diante do império da realidade. 2. À partida, é estranho que, num tempo em que se fala tanto, se especule acerca de uma crise da palavra. É possível que o problema radique precisamente aí, ou seja, na banalização da palavra, na instrumentalização da palavra. A ruidosa proliferação de palavras parece ter-lhes retirado capacidade de intervenção. Parece ter-lhes subtraído os créditos que costumavam pontuar a sua actuação. Tudo parece reduzido a sons sem efeito. 3. A palavra, geralmente, resigna-se a justificar a realidade. Vê-se impotente para a transformar. Sente-se até incapaz de a explicar. Limita-se a descrevê-la com a (inevitável) adenda de que «não há alternativa». Seja a austeridade, seja o desemprego, seja até a corrupção, o tom não oscila muito. O que a palavra, em forma oral ou escrita, nos assegura é que tem de ser assim. Ou, o que é mais espantoso, que sempre foi assim. 4. Isto é preocupante e profundamente empobrecedor. É que as grandes transformações ocorreram quando a palavra alterou o curso de ocorrências que pareciam irreversíveis. Veja-se, a título de exemplo, a segunda guerra mundial. Os factos apontavam numa direcção. Mas a pertinácia da palavra (sobretudo) de Churchill alterou o rumo dos acontecimentos e fez inverter o decurso da história. 5. Esta degola da palavra, a que assistimos hoje, só será superada com pessoas que acreditem, que tenham esperança e que nunca se submetam. Os factos são teimosos. Mas a teimosia dos factos pode ser vencida! Dir-se-ia que a realidade da palavra não pode manter-se submissa no contacto com a palavra da realidade. Não podemos continuar a subestimar a força da palavra. 6. George Steiner não se revê nestes tempos «epilológicos», nestes tempos de «pós-palavra». Não se trata do desaparecimento da palavra, mas da sua crescente subalternidade. A palavra como que se submete, limitando-se a anotar, a aplaudir. 7. Os vencedores são sempre apontados como modelos, como critérios, alcandorados ao estatuto de norma e de padrão. O êxito é a medida. Não se escrutinam os métodos. Não se questionam as atitudes. A história continua a ser feita a partir de cima. 8. A palavra não devia ter apenas uma função notarial, passiva. Ela devia apostar numa missão mais interventiva, mais performativa. Eu sei que é difícil. Mas, por muito estranho que pareça, a palavra tem uma força que pode alterar muitos factos. 9. Actualmente, o pensamento tende a ser cada vez mais descritivo e cada vez menos criativo. As soluções quase reproduzem (para não dizer que alastram) os problemas. O sistema educativo tem um papel preponderante. A cultura humanista deve caldear a totalidade do ensino. As especialidades são importantes, mas precisam de ser animadas por uma abertura ao geral. 10. Não basta ler bem a realidade. É fundamental procurar transformá-la. E, além de soluções, carecemos de horizontes. São eles que nos farão (re)viver. Faz falta quem acredite na palavra. Temos saudades da força da palavra. Estamos saturados do ruído de muitas palavras…. João António Pinheiro Teixeira

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