Jornal de Opinião

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31/03/11

Sempre inclinados para os ídolos?

Todas as pessoas, homens e mulheres, levam consigo, a tempo inteiro, e sem que alguém possa interferir nesta sua capacidade, serem capazes tanto do bem como do mal. O ambiente que nos cerca e os tempos que vivemos nem sempre favorecem a melhor opção, empurrando-nos para o que muitas vezes nós detestamos. Será sempre actual a palavra de S. Paulo ao dar conta, desolado, do que lhe ia na alma: “Ai de mim, que faço o mal que não quero e não faço o bem que quero!” Quem há aí que não tenha tido, em algum dia ou em muitos dias, esta dolorosa sensação?

Da inclinação para os ídolos já falava Moisés aos israelitas rebeldes, quando, nostálgicos de uma escravidão da qual antes tanto se queixavam, caíam de novo na tentação de quererem regressar ao lugar do cativeiro, frente aos normais incómodos do deserto, que era preciso atravessar.
Os ídolos são muitos, sempre aliciantes e portadores de mensagens atraentes e facilitadoras. Mas são ídolos e nunca deixarão de o ser, mesmo que entronizados, cuidadosamente, em lindos altares ou colocados em mísulas douradas. Traduzem-se na ânsia do ter, do poder e do gozar sem limites; nas atitudes orgulhosas de quem se julga o centro do mundo e não reconhece aos outros o seu valor nem o direito a terem opinião; na insensibilidade perante os mais pobres, fazendo vista grossa a uma vida enterrada em provocantes supérfluos; no comodismo de em nada querer participar em relação ao bem da comunidade; na arrogância em desejar que tudo e todos rodem à sua volta e nunca admitir os erros próprios; na indiferença empobrecedora perante pessoas e situações que pedem compreensão e ajuda…
Mas não podemos esquecer quantos se inclinam e optam pelo bem gratuito e são voluntários, em muitas causas necessárias e úteis, à comunidade e até a pessoas singulares, não amadas e esquecidas; quantos se demarcam da corrupção e da tentação do ganho fácil; quantos optam pela honestidade no trabalho, nas relações, no respeito pelos outros e pelos seus direitos; quantos lutam pela verdade e pela justiça, pelos direitos dos mais fracos e menos ouvidos; quantos partilham os seus bens, de toda a natureza, com outras pessoas que deles podem beneficiar…
Há muita gente que dorme serenamente, porque viveu o seu dia no cumprimento do dever e ao serviço do bem, procurou não desperdiçar as ocasiões que se lhe proporcionaram para ser solidário e fraterno com os que se cruzaram no seu caminho.
Neste mundo que lançou a confusão sobre o sentido da vida e os valores que contam, propendemos para sublinhar mais as coisas negativas, como se as positivas não tivessem história, nem entrassem na história. O bem é sempre discreto e diz o povo que ele “não faz barulho”. Porém, é ele que persiste, humaniza e reforça os alicerces da sociedade que não desiste de querer ser lugar aberto à dignificação de todos e dotada de valores morais e éticos, que só os néscios podem ignorar ou negar.
Os grandes da história não foram os que fizerem guerras ou inventaram objectos de morte. Ainda que discretos na sua história pessoal - são sempre assim as pessoas grandes - eles são os que a memória do tempo guarda e apresenta como modelos estimulantes de bem-fazer. Dos nossos tempos, basta recordar Teresa de Calcutá e o Padre Américo, que não se desviaram nunca do projecto que conduzia a sua vida. Por isso ela deixou sulcos inapagáveis. Na mesma linha estão milhares de anónimos das nossas terras. São eles que não deixam que este mundo, tonto e desfigurado, resvale para a barbárie. O seu número pode sempre crescer e é preciso que cresça. Todos lá temos lugar, se é que ainda o não ocupamos.

D. António Marcelino

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