Jornal de Opinião

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07/02/11

Vida Religiosa observante, da segunda metade do século XIX ao século XX

Nesta semana da Vida Consagrada ocorreu-me a situação do século XIX para a qual um Irmão italiano me alertou há poucos anos e agora um outro confrade que está a fazer uma tese de doutoramento sobre o tema. Porquê estas aproximações? Porque elas trazem luz ao drama que Bento XVI tem enfrentado em relação à infidelidades dos consagrados, padres e religiosos. São “profecias” e factos. Baste referir dois ou três pontos relacionados.

A ideia da vida consagrada observante terá partido de Pio IX (1792-1878) quando em 17 de Junho de 1847 um ano após a sua eleição, com a encíclica Ubi Primum (não confundir com a do mesmo nome a todos os bispos sobre a proclamação do Dogma da Imaculada Conceição 02 Fev 1849), ele pediu a todos os Institutos religiosos mais estrita observância da vida comum, e dos votos religiosos. Estimulou a refundar nesta observância algumas comunidades pois sabia que seria difícil consegui-lo com todas. Alguns institutos procuraram acatar as recomendações do Papa. Só um exemplo. Numa das sua cartas de 1907, S. Bento Menni, da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, descreve assim a incumbência que Pio IX lhe deu na presença do Geral da Ordem no dia 14 de Janeiro de 1867 dois dia antes de Bento Menni partir para a Espanha: «Filho meu, a vida religiosa que deves estabelecer [em Espanha e em Portugal] deve basear-se nestes princípios: vida perfeitamente comum, muito pobre, muito casta e muito obediente».
Ocorre perguntar por razões deste empenho do Papa com a vida consagrada observante. Há pelo menos a quase coincidência com as aparições de La Salette (1946) e o envio a Pio IX pelo Bispo de Grenoble do seu segredo/profecia em 1851 e uma segunda redacção mais completa em 1958, ambas terão chegado ao conhecimento e ambas “se perderam” no Vaticano, tendo o Padre Michel Corteville descoberto a primeira em 2000 ( cf La Découverte du secret de La salette, 2002) continuando a segunda perdida mas conhecem-se outras redacções posteriores e autênticas da vidente.
Nossa Senhora em La Salette (1846) após dizer, em tom de apreço, que os sacerdotes e os religiosos e os verdadeiros servidores do meu Filho serão perseguidos e vários morrerão por Cristo, diz mais abaixo (Nossa Senhora apareceu a chorar): “de entre os ministros de Deus e das esposas de Cristo haverá as que se entregam à desordem, e será o que haverá de mais terrível”. Nas versões posteriores mais completas há palavras do segredo mais duras: “sacerdotes que se tornam esgotos de impureza”, e “nos conventos as flores da Igreja putrefactas”, “o demónio usará a sua malícia para introduzir nas ordens religiosas pessoas dadas ao pecado” porque as desordens e o amor dos prazeres carnais serão espalhadas por toda a terra”.
Pio IX, na encíclica Ubi Primum (1847), depois de generosas expressões de apreço pelos Institutos de consagrados, diz que se for preciso “temos que revigorar as fraquezas, curar os males, ligar as fracturas, reencontrar algo que está perdido, reconstruir o arruinado” para revitalizar a integridade moral, a santidade a observância da disciplina regular…Posteriormente iria voltar ao tema como no referido caso acima.
E Bento XVI, no seu livro entrevista Luz do Mundo, reconhece: “de súbdito, tanta sujidade”; “ver subitamente o sacerdócio tão conspurcado, e com ele a própria Igreja Católica no seu íntimo, foi algo duro de suportar”. “ Tudo isto me chocou e abalou profundamente”. Cristo disse que “no meio do trigo haveria de existir o joio, mas que a semente, a sua semente, continuaria apesar de tudo a crescer. Nisso depositamos a nossa confiança”. São expressões de três origens com um padrão de semelhança impressionante.
Para os consagrados continuarem a ser sal da terra e luz do mundo. Há muita sujidade a limpar e muito estrago a reparar, há muito sabor do Espírito a readquirir e muitas trevas a limpar com a Luz de Cristo em cada um. E a oração, reparação e desagravo pedidas pelo S. Coração de Jesus e pelo Imaculado Coração de Maria terão de ir à frente.
Funchal, 6 de Fevereiro de 2011

Aires Gameiro


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