Jornal de Opinião

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09/05/10

Que paixão move o nosso mundo?

Por ocasião da sua passagem pela diocese de Setúbal, o Padre Raniero Cantalamessa partilhou uma reflexão com os padres, no âmbito da formação permanente. Na abordagem que fez à necessidade de renovação do sacerdócio, o pregador da casa pontifícia apresentou três características para que possa haver uma mudança do coração/enamoramento por Cristo: concentração, renunciar a tudo e nova fonte de energia.

Se, num primeiro aspecto, atendermos àquelas exigências, que a mudança/enamoramento – mesmo ao nível humano – envolve, podemos e devemos questionar se, de facto, vivemos – mais do que para dar lições aos outros – aquelas etapas de entusiasmo, de crescimento e de maturidade da nossa relação com os outros e, mesmo, com Deus.
Vejamos, então, aquelas três características do enamoramento/mudança do coração supra enunciadas:
* Concentração
Se olharmos como somos desafiados a tentar fazer tantas coisas ao mesmo tempo, poderemos considerar que nos falta capacidade de concentração. Ainda há dias uma senhora dizia dos seus netos: eles são capazes de estar ao computador, a enviar mensagens, a ver televisão, a reenviar outras mensagens, a falar ao telemóvel, etc. Não será isto, antes, disfunção de atenções? Quantas vezes vemos a falta de consideração das pessoas umas pelas outras, pois estão a consultar a internet enquanto respondem ao interlocutor pelo telefone! Quantas vezes se tenta dar um ar de tocar muitas coisas, mas fazemo-lo pela superficialidade! Quantas vezes criámos um aspecto de atarefados, quando, afinal, não passamos de pessoas fúteis, que não levam os outros a sério nem podem ser levadas a sério também!
A exigência da concentração nota-se nas pequenas como nas grandes coisas. O treino da concentração tem de ser exercitado na qualidade de tempo que damos uns aos outros. A capacidade de concentração manifesta-se na atitude de vermos os outros olhos nos olhos, na serenidade com que falamos com eles e na disponibilidade para ‘gastarmos’ tempo com aqueles que, de verdade, amamos.
E Deus entra também neste leque de prioridades... seja qual for a vocação ou a função que possamos exercer na vida e/ou na Igreja!
* Renunciar a tudo
Depois da concentração, vem a renúncia a tudo quanto possa obstaculizar a nossa capacidade de vivermos para aquilo – este neutro quer dizer a abrangência do sentido mais do que a neutralidade de pessoas – que polariza a nossa atenção... verdadeiramente.
Efectivamente, se um homem pretende enamorar-se por uma mulher, terá de deixar as outras todas (por mais interessantes e belas que possam até ser!) para se concentrar naquela que o seu coração escolheu... e o mesmo se diga de uma mulher por um homem. Esta renúncia positiva não tem outra função do que a de permitir que ambos se aceitem numa exclusividade de dádiva em amor, em amizade ou em caridade... conforme a focagem físico/psicológico/espiritual.
Neste sentido a consagração em celibato por amor do Reino dos Céus insere-se nesta lógica de renúncia pelo enamoramento a Cristo em Igreja católica.
Nada há de mais sereno do que a renúncia por alguém – pode escrever-se com maiúscula, Deus – que envolve todo o nosso ser na profundidade da entrega, da comunhão e da partilha.
* Nova fonte de energia
Claramente se percebe quando uma pessoa está desmotivada, pois as dificuldades – próprias de quem vive em condição de fragilidade – ou são vencidas com coragem e convicção ou somos esmagados pelos flocos de pó, que, por vezes, podem entupir a nossa força de combate.
Nova energia é aquilo que todos precisamos para recomeçar cada manhã, sabendo que as agruras estão à porta, não da rua, mas do próprio quarto de dormir.
Nova fonte de energia – particularmente para um cristão – será a de elevar o pensamento para Deus e n’Ele confiar humilde e continuamente.
Deixamos a título de exemplo uma breve oração do Cardeal Mercier ao Espírito Santo para termos, cada manhã, nova energia de caminhada:
Espírito Santo, alma da minha alma, eu vos adoro.
Iluminai-me, guiai-me, fortalecei-me, consolai-me,
dizei-me o que fazer, dai-me as vossas ordens.
Prometo submeter-me a tudo o que desejais de mim
e aceitar tudo o que permitirdes que me aconteça.
Acreditamos que a nova fonte de energia é, continuamente, o Espírito Santo. Assim Ele nos renove – seja qual for a nossa vocação – e conduza, hoje.

A. Sílvio Couto

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