Jornal de Opinião

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19/02/10

Gestos que traduzem vida e fazem a história

No meio da mediocridade e da luta acirrada pelo seu prestígio, surgem pessoas, humildes e discretas, grandes de seu tamanho interior, com gestos lindos que são sinal de uma vida e de um humanismo que redime misérias. A história não grava todos os nomes, muitos heróis anónimos, mas constrói-se com o contributo de todos eles.

Nelson Mandela foi, durante anos, cidadão de segunda no seu país. A mais não lhe permitia a cor da pele. Empenhou-se numa luta difícil e perigosa contra a discriminação racial, que era a lei anti-humana da sua terra. Foi preso. Esteve vinte e sete anos numa prisão, onde ele e os seus companheiros eram, diariamente, humilhados e maltratados.

Com as voltas que o mundo dá, a sua luta deu frutos. E ele regressou à liberdade. Sem ódios, sem rancores, sem propósitos de vingança. O que desejava e pelo que sempre lutara, estava alcançado.

Fundou um partido político. Elegeram-no Presidente da República. Deram-lhe o Nobel da Paz. Nada disso o inebriou. Manteve o seu sorriso pacificador, avançou com leis de igualdade para negros e brancos, lutou pela reconciliação entre todos, que é sempre esse o caminho para a paz e para o progresso.

A prisão, com os tormentos a que o submetera, ensinou-lhe ainda mais a certeza que do ódio só nasce ódio. Só o amor que perdoa e acolhe pode gerar o clima que leva ao respeito mútuo e à colaboração. Era este o seu caminho. Sem perder tempo, sem grandes discursos, mas com gestos convincentes, passou a mensagem ao seu país.

Celebrou há dias vinte anos de libertação e saída da prisão. Quis ter à sua mesa, como convidado especial, um dos guardas prisionais que, ao longo de anos, com outros seus colegas, tinha sido um dos seus duros e impiedosos algozes. Só homens grandes são capazes destes gestos que ficam na história e fazem a história.

Foi também assim João Paulo II. Não se limitou a dizer que perdoava a quem o quis matar. Foi à prisão, conversar com ele, ouvir as suas confidências, transmitir-lhe amor e coragem. Não podia libertá-lo das grades, mas podia ajudar a ser interiormente livre.

Barack Obama, recordando Luther King, faz do discurso de vitória, um apelo ao perdão mútuo, dado e recebido, e à colaboração, sem excepção, de todos os que haviam lutado pelo mesmo objectivo.

Teresa de Calcutá viveu até ao extremo, um amor, sem fronteiras, em favor dos mais excluídos da sociedade. Não quis outra recompensa, nem sequer a da satisfação do bem realizado. Somente a que lhe vinha da sua fé e da sua entrega à gente sem nome.
A sociedade precisa destes gestos e tem de os estimular. No coração de cada pessoa, homem ou mulher, existe uma capacidade sem medida para o bem. Mais do que para o mal. Somos pessoas, não somos feras. Nascemos solidários, não egoístas. Acompanha-nos, do berço ao final do tempo que nos é dado, a necessidade mútua e a dependência enriquecedora que o amor torna liberdade e não submissão.

Os medíocres, orgulhosos e egoístas não vão além de heróis passageiros da historieta. Só os capazes de gestos solidários, os pacificados e pacificadoras, os que denunciam o mal com a força geradora do bem, são construtores de história.

Não escapam a perseguições e invejas, a calúnias e leituras tendenciosas. Mas resistem. A sua têmpera é mais determinante que a força do tempo, malsinado e pobre, que os cerca.

O sorriso pacificador de Mandela não é uma expressão de fraqueza. È a manifestação da sua grandeza interior. Foi assim, será assim com todos os verdadeiramente grandes. Os únicos que a História guarda e liberta da poeira do tempo.

António Marcelino

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