Jornal de Opinião

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22/01/10

Em contexto do «Ano sacerdotal» - Desafios da cultura actual... à mensagem cristã

A cultura actual é caracterizada do seguinte modo: uma cultura impregnada de narcisismo; uma cultura que privilegia a individualidade (individualismo); uma cultura que promove a libertação (libertinagem) sexual; uma cultura que debilita o sentido de pertença; uma cultura que acentua a satisfação dos desejos; uma cultura que não consolida a confiança básica; e uma cultura de Deus à margem.

Esta citação foi apresentada nas jornadas de formação do clero da diocese de Setúbal, que decorreram nos dias 18 a 20 deste mês.
Aquele resumo foi publicado na revista ‘Vida nueva’ pelo recente bispo de San Sebástian (Espanha).
Tentemos, agora, olhar aqueles ‘ismos’ e ajudemo-nos a discernir a sua influência na nossa cultura actual, questionando, por ocasião do «Ano sacerdotal» os ministros ordenados, vulgo, padres.
* Narcisismo – Na senda da mais elementar identidade, podemos ver, nos nossos contemporâneos (e em nós mesmos), uma necessária capacidade de auto-estima... muitas vezes com uma exaltação eivada de auto-idolatria.
- Como são vistos os padres: eles têm de nos servir ou vemo-los como ‘pais de família’ a quem reconhecemos autoridade espiritual?
- Como lemos, habitualmente, os erros dos padres: à luz meramente natural ou com visão sobrenatural?

* Individualismo – Na tentativa de afirmação do ‘eu’, vemos proliferar uma tal veneração do indivíduo – reduzido, quase sempre, a números – que a relação de pessoa se esboroa... perigosamente. Quantas vezes para se realçar nessa individualização vemos certas ‘cenas’ que têm mais de ridículo do que de personalidade.
- Como são lidos os padres nos nossos dias: pela distinção quanto aos outros ou na conformidade com seus irmãos na fé?
- Certas regalias de antanho não terão incentivado algum anti-clericalismo ainda hoje remanescente na sociedade portuguesa?

* Erotismo – Perante uma certa tendência de libertação de preconceitos, vemos um desencadear libidinoso da fragrância do eros... interesseiro, onde cada pessoa (só) vale se dela tirarmos (algum) proveito. Quantas vezes as pessoas se tornam descartáveis, após terem sido usadas senão mesmo abusadas.
- Será que os padres, vivendo o carisma do celibato, são entendidos e dão-se a entender pela forma casta e pura de entrega a Deus pelos outros?
- A indumentária clerical ajuda ou complica a vivência do ministério pelo compromisso exteriorizado na Igreja e no mundo?

* Egoísmo – Diante das agruras e tentativas de acerto para sabermos estar com os outros, vemos surgir a falta de sentido comunitário, pois os outros/as quase funcionam mais como inimigos do que como companheiros. Mesmo que se reclame solidariedade, esta e, normalmente, mais dos outros para connosco e não vice-versa. Quantas vezes sabemos o que está a acontecer nos nossos antípodas e desconhecemos (ou fazemos por ignorar) aquilo que se vive ao nosso lado, no nosso prédio e na nossa rua.
- Como é que os padres criam, sobretudo no contexto das paróquias, a comunhão na diversidade e a diversidade para a comunidade?
- Não seremos demasiado afectivos para com aqueles com que simpatizamos e poucos abertos aos adversários por que um tanto diferentes?

* Consumismo – Na febre de ter mais, ter muito, parece ter, mostrar que se tem... muitos dos nossos contemporâneos (e, tantas vezes, nós próprios) vivem como que obcecados com a tentativa de satisfazer o desejo do materialismo prático de vida... com todas as consequências de nos irmos afastando das realidades espirituais. As romarias às catedrais do consumo substituem a prática da missa dominical e, com a agravante, de tudo ter de ser pago... no acto ou a crédito.
- Será que os padres vivem uma vida de desapego e de autêntica pobreza evangélica?
- As coisas da pobreza serão opção ou rótulo de circunstância? Até onde irá a ousadia pessoal e comunitária?

* Neo-paganismo – Efectivamente, Deus não conta para muitos dos nossos contemporâneos. A indiferença tem, hoje, mais seguidores do que a maioria das religiões tradicionais. A questão torna-se ainda mais grave quando esses indiferentes ocupam os espaços das (nossas) celebrações: a doença contagia por osmose e alguns dos ainda praticantes tornam-se frios, calculistas e agnósticos de profissão sem fé.
- Estarão os padres conscientes da praga do neo-paganismo por entre os que lhes estão confiados?
- Não teremos de esquecer o pretensamente já sabido para investirmos no cuidado com o primeiro anúncio de Jesus?

Queira Deus sacudir-nos da mediocridade, já!

A. Sílvio Couto

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