Jornal de Opinião

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25/01/10

Mudanças no mundo ou mudança de mundo?

1. A pergunta não é retórica, a curiosidade não é ociosa e a preocupação não é despicienda.
Sempre houve mudanças no mundo. A questão que, desde há uns anos, se coloca é saber se não estaremos no limiar de uma mudança de mundo.
É um facto que aquilo que tem acontecido e o que está a acontecer não estão em linha com o que estávamos habituados.
Sejamos realistas e não percamos a serenidade. A mudança está inscrita no coração do mundo. O que não é habitual é esta aceleração da mudança.
Nova, de facto, não é a mudança. Mudar é conatural ao Homem. Desde o plano biológico até ao âmbito espiritual, a vida humana é uma sucessão de começos e uma sequência de mudanças.
Esta percepção nem sequer é de agora. Já na antiguidade clássica, Heraclito acentuava que tudo está em devir, que tudo está em mudança.
Nicolau Maquiavel sublinhava que «uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança».
No século XVI, Luís de Camões proclamava que «todo o mundo é composto de mudança». Com efeito, se, como alertava Bernardim Ribeiro, «até o mudar mudou», porque é que o mundo não haveria de acolher a mudança?

2. Vergílio Ferreira dava conta de que «a História é feita de intervalos».
Desde há uns anos que não sabemos em que época nos encontramos.
Temos a percepção de que estamos numa época nova, mas não temos a devida noção acerca da sua identidade.
É a época mais nossa e, ao mesmo tempo, parece ser a menos nossa, aquela cuja compreensão mais nos escapa.
O mais que conseguimos é dizer, com Alvin Toffler, que «somos a última geração de uma civilização velha e a primeira geração de uma civilização nova».
É por isso que o nosso tempo se descreve tendencialmente como estando depois de outro.
Como referiu Hans Küng, a pós-modernidade é uma designação heurística, serve, acima de tudo, para dizer que estamos numa era que vem depois de outra.
É um mínimo, mas, à falta de melhor, constitui o máximo que conseguimos produzir.

3. No entanto, neste tempo tão complexo, vão acontecendo coisas que estão a mudar — definitivamente? — a nossa forma de ser, de estar e de pensar.
Olhemos para o que é mais básico, estruturante: a vida e a família. O que está a acontecer não é uma simples mudança na concepção. É uma autêntica desconstrução.
De resto, é consensual entre os autores apontar a desconstrução como uma das vértebras deste tempo híbrido a que se convencionou denominar pós-modernidade.
Luc Ferry faz uma síntese bastante luminosa do percurso do pensamento humano em torno da desconstrução. Esta ocorre quase sem darmos por ela.
A ciência é pilotada — e engolida — pela técnica com o consequente esbatimento da questão do sentido.

4. Sempre houve atentados contra a vida. O que é novo é haver atentados contra a vida encarados não como atentado, mas como norma a ponto de estarem previstos na lei.
A família sempre foi constituída por marido e esposa e filhos. Colocar outras formas de organização no mesmo patamar não alarga o leque de opções; afunila o conceito de família.
Como todos sabemos, a vida e a família são os alicerces da sociedade.
O que estamos a ver não é uma alteração de modelos; é uma desconstrução das estruturas.
Não se trata, pois, de simples mudanças no mundo. Trata-se, sim, de uma verdadeira mudança de mundo.
Ainda recentemente, o Santo Padre, referindo-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmou: «O Homem não é Deus, mas imagem de Deus. O caminho a seguir não pode ser fixado pelo que é arbitrário ou apetecível, mas deve, antes, consistir na correspondência à estrutura querida pelo Criador».
Já não está em causa a prioridade da pessoa. O que está em jogo é apenas uma sua parcela.
Ao aplicar o mesmo conceito — casamento — a situações diferentes, o Estado, como adverte José António Saraiva, está a dar um sinal errado. «Está a dizer que é “tudo a mesma coisa”. Que tanto faz um homem casar-se com uma mulher como com outro homem. Ora, isso não é verdade».
Estamos, assim, a mudar de mundo. Será melhor o mundo que nos espera?
Não nos limitemos a acompanhar a mudança. Procuremos construir a mudança, ser a mudança. Como aconselhava Gandhi, «é preciso que cada um seja a mudança que gostaria de ver no mundo».

João António Pinheiro Teixeira
padre

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