Jornal de Opinião

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09/12/09

A Igreja é só 0,1%?

1. Quando falamos da Igreja, imediatamente pensamos em bispos e em padres. Concentramo-nos, deste modo, em apenas 0,1% da sua totalidade, deixando de lado os restantes 99,9%.
Quando um órgão de comunicação social quer saber a posição da Igreja sobre qualquer tema, pensa logo num padre ou num bispo. Nem sequer cuida de saber se há um fiel leigo mais abalizado acerca desse assunto.
Há mais de quarenta anos, o Concílio Vaticano II recordou-nos que as questões relativas ao mundo dizem respeito sobretudo aos irmãos leigos.
Também disse que os pastores devem «estar dispostos a ouvir os leigos, tendo fraternalmente em conta os seus desejos».
No entanto, continuamos a subalternizar o seu lugar e a subestimar a sua intervenção. Até parece que só contamos com a sua generosidade, com os seus donativos…
Há não muito tempo, alguém me fazia sentir a sua alegria por determinada organização estar «nas mãos da Igreja». Motivo? Estava um padre à frente dela.
Eu respondia que a presença da Igreja em tal organização estava assegurada pelos cristãos que nela se encontravam. Mas não consegui convencer o meu interlocutor.
Este arquétipo ainda está bastante difundido. Importa, pois, relembrar que é pelo Baptismo (e não pelo sacramento da Ordem) que nos tornamos cristãos.
Os padres e os bispos não esgotam a Igreja. Constituem, sim, um prestimoso serviço na Igreja. Por isso chamam-se ministros, isto é, servos.

2. Na Igreja, não pode haver a lógica dos agentes e dos destinatários da missão. Os padres e os bispos seriam os agentes e os irmãos leigos constituiriam os destinatários.
Esta percepção está implícita, por exemplo, na relação que se mantém com a Eucaristia.
Ainda se ouve dizer, com frequência, que se assiste à Missa. Ora, à Missa não se assiste. Na Missa participa-se. Aqui, o verbo a conjugar não há-de ser o verbo assistir. Tem de ser sempre o verbo participar.
Seguindo o pensamento de S. Paulo, que compara a Igreja a um corpo (cf. 1Cor 12), não pode haver cristãos de primeira e cristãos de segunda.
Todos têm um lugar importante na Igreja. De resto, a importância de um lugar na Igreja não se afere pelo poder. Pela simples e elementar razão de que, na Igreja, não há relações de poder. Pelo menos, não devia haver. Na Igreja, há serviço.
Daí que o Papa, enquanto primeiro servidor, se apresente como servo dos servos de Deus!
Aliás, é curioso notar como a Igreja chegou a ter um Papa que tinha sido escravo. Trata-se de S. Calisto, que foi eleito no ano 217. Ou seja, a Igreja escolheu alguém que estava habituado não a mandar, mas a servir!

3. Não é o povo que existe para os padres e para os bispos. São os padres e os bispos que existem para o povo: para o conduzirem até Cristo.
Um padre e um bispo não podem actuar em nome próprio. Junto do povo, eles são chamados a actuar em nome de Cristo.
Jesus Cristo é o modelo do servidor e da recusa do poder. O poder só Lhe trouxe problemas. E não será que, hoje, continua a trazer-Lhe dissabores?
Não é, por isso, curial que o padre e o bispo exibam uma pretensa superioridade intelectual.
Como nota Joseph Ratzinger, «a fé dos simples apreende o núcleo da fé de modo mais central do que a reflexão dividida por muitos passos e conhecimentos parciais».
Os padres e os bispos estão ao serviço da fé dos simples, que «permanece como o grande tesouro da Igreja».
Os padres e os bispos não são donos da fé, mas servidores da fé, que está alojada na alma sã do povo simples.

4. Temos muito a aprender não só nos livros, mas também na vida. Em matéria de fé, o povo é mestre: o povo simples, humilde e puro.
Nos santuários, nas igrejas, nas casas ou até nas ruas, há um exemplo de fé viva que nos deve levar a reflectir e a inflectir.
Às vezes, dou comigo a pensar que nem só os pastores deviam falar aos fiéis. Havia também de haver oportunidade de os fiéis falarem aos pastores. Também nos faz bem ouvir, calar, aprender. Com o povo.

João António Pinheiro Teixeira
padre

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