Jornal de Opinião

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24/11/09

Eles querem receber. Queremos nós dar?

1. O conceito é importante quando retrata a vida. Mas torna-se perturbador quando se sobrepõe à vida, quando condiciona a vida. Em tal caso, o conceito degenera em preconceito.
Preconceito é um conceito formado por antecipação. Nem sempre ver antes é ver melhor. Só se vê o que acontece. Caso contrário, estamo-nos a ver a nós e a não ver a realidade.
Trata-se, por isso, de um problema que urge encarar e importa vencer. Quantas injustiças à conta do preconceito! Quantos projectos abortados por causa do preconceito!

2. Há, na Igreja, quem desvalorize o património doutrinal, espiritual e canónico, olhando com assolapado desdém para quem o difunde e defende.
É com pesar que se verifica que quem se mostra afeiçoado à doutrina e à espiritualidade acaba por ser marginalizado dentro da própria Igreja.
Outrora, quem tinha problemas era quem contestava o Papa. Hoje em dia, quem enfrenta dificuldades é quem, modestamente, procura seguir o Papa.
Scott Hahn assinala que, sendo o único protestante a frequentar uma universidade católica, era também o único estudante a defender o Papa João Paulo II!
«De repente — confessa —, dei comigo a explicar a sacerdotes como certas crenças católicas tinham o seu fundamento na Bíblia».
Enfim, um protestante mostra a padres católicos a verdade do Catolicismo…que os próprios padres aparentavam não aceitar!

3. De facto e como nota Ruiz de la Peña, este movimento de afastamento da doutrina não é encimado por fiéis leigos. Ele «é encabeçado por clérigos e teólogos, ou seja, por pessoas que surgem diante dos crentes revestidas de uma certa relevância institucional».
Resultado: «A Igreja é a única entidade no mundo que se dá ao luxo de incluir membros cuja principal função parece ser desacreditá-la».
Seria uma situação cómica esta, se não fosse calamitosa. «Nenhuma organização civil admitiria este estado de coisas porque tal equivaleria a uma espécie de suicídio premeditado».
Tudo isto acaba por certificar, a contrario, a «inesgotável vitalidade» da própria Igreja, mas convirá não abusar. Uma «proliferação da dissidência bloqueará os esforços dos melhores e exercerá um efeito paralisante sobre as bases eclesiais».

4. Há sobretudo dois preconceitos que assomam à superfície com acidulada nitidez: o preconceito quanto à doutrina e o preconceito quanto à oração.
Às vezes, basta pronunciar uma destas palavras para irromper uma chuva de impropérios e doestos de toda a espécie.
Questiona-se a doutrina por não ter lógica e deprecia-se a oração por não aparentar interesse.
O que a razão não compreende põe-se de lado como se, na fé, a razão fosse a base da existência e não um instrumento de explicação.
A Santíssima Trindade ou a ressurreição dos mortos não têm alicerce na razão. Se tivessem, não seria preciso haver a fé.
A fé não nasce da razão, o que não quer dizer que seja excluída pela razão. Já dizia Blaise Pascal que «é um acto de razão reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam».

5. A fé tem de ser alimentada. O alimento da fé é a oração. Todo o crente tem de ser um orante.
Leonardo Boff, que é consabidamente um defensor da opção preferencial pelos pobres, sustenta que «a oração é a alma e a respiração de toda a religião».
Aliás, uma das grandes formas de pobreza, hoje, é a pobreza espiritual. Nem os pastores da Igreja estão imunes a ela.
Daí que o Padre Mário de Oliveira vá ao ponto de proclamar: «Mais do que de pão, mais do que de emprego, mais do que de saúde, precisamos de espiritualidade».
Já Eça de Queiroz se apercebia de que, «até nos templos, a religião entrara em descrédito». E o povo? «O povo, esse, reza, que é a única coisa que faz além de pagar».
Pode ser uma farpa injusta (porque demasiado generalista), mas não deixa de ser um alerta acutilante. Não é a oração que afasta os pastores do rebanho. O que afasta é a ausência de mensagem e a superficialidade do testemunho.
Porquê não dar o que os outros até querem receber?

João António Pinheiro Teixeira
padre

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