Jornal de Opinião

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02/10/09

Apontamentos no Campo

Entrara pelo telhado e encontrara-se na água-furtada daquela velha casa de campo. Pobre pardalito! O que o teria levado a penetrar ali? Voou em todas as direcções, como a querer inteirar-se do lugar onde se encontrava, empoleirando-se por fim no espaldar de uma cadeira, onde docemente, adormeceu.

Despertou a madrugada, enchendo a mansarda de claridade. O passarinho acordou e, com estranheza olhou em seu redor. Fê-lo, porém, por breves instantes, imediatamente abriu as asas, voando em direcção à janela, através da qual, vislumbrara uma nesga do céu. Caíu, atordoado, não contára com o vidro, com aquele vidro duro e frio em que esbarrara. Tremente, o coraçãozinho a bater desordenado, refugiou-se no "poleiro", onde pernoitara. Depois, já mais refeito, voltou a voar. Tinha fome e sede, e uma ânsia imensa, de sentir, de aspirar o ar fresco da manhã. E novamente a janela o atraiu, tornando a esbarrar na vidraça. Quantas vezes se teria repetido aquela cena?!...O tempo foi passando, hora após hora e o pardalito, exausto, dorido, faminto e sedento, já não tinha forças para voar, para tentar ultrapassar a impenetrável janela. Caído no assento da cadeira, por não se equilibrar no espaldar, aquecia-se ao calor de um raio de sol, quando o ruído de passos ecoou na mansarda; e a janela abriu-se enfim, de par em par! Então a pequenina ave agonizante, despertou do seu torpor, ao aspirar a golfada de ar puro, que invandira todo o aposento e, num último arranco, num derradeiro sôpro de vida, voou para cima do parapeito. Abriu as asas, abriu o bico, fixou os olhos baços no céu, porém, tombou inerte.

Atenção, jovens leitores, não sejam incautos, como o pardalito. Há várias formas de perder a liberdade...Vejam bem o terreno que pisam...Não faltam "telhados, com carência de telhas", por cujos intervalos, os imprudentes podem penetrar; depois quererem reconquistar a liberdade mas não o conseguirem, por surgirem obstáculos intransponíveis e, tal como aconteceu com o passarinho, mesmo abrindo-se-lhes uma janela, já não terem ânimo para transpô-la...

Aconchegando ao peito, amorosamente, o menino levava o papagaio, um papagaio de papel, de papel de garridas cores. Nunca fizera nenhum tão bonito, tão leve, tão perfeito!...Caminhava apressado, ansioso de o lançar ao vento e de o ver subir, subir, direito ao céu! Alcançou os campos verdejantes e, com o coração a pulsar de prazer, deitou o papagaio. E o papagaio, lindo como o sonho, colorido e leve como a própria ilusão, elevou-se no ar. E o menino ficou-se a olhá-lo maravilhado! E tão embevecido se encontrava nessa contemplação, que se lhe escapou a guita com que o segurava. Quando compreendeu o que se passara, que para sempre perdera o seu papagaio, rompeu num chôro convulso. Pobre menino, pela vida fora, quantos papagaios te hão de fugir das mãos, se não prenderes com força as guitas com que os segurares...

Um sonho, mesmo depois de realizado, se não o agarrarmos bem, e nos limitarmos a ficar extasiados a usufruí-lo, por menos que pareça, se não estivermos atentos, ainda pode fugir-nos das mãos!...

Logo ali, junto daquela roseira, é que se tinham lembrado, de despejar o estrume. E que monte! Por um pouco ocultava o mimoso arbusto, carregado de botões. Um deles estava prestes a desabrochar. Já se antevia a alvura acetinada das delicadas pétalas. E, realmente, na manhã seguinte, uma linda rosa abriu; uma rosa branca, de brancura imaculada, exalando um perfume suave, mas que por instantes, suplantou o fétido odor do estrume. Cedo porém, a rosinha, curiosa de conhecer o mundo em que nascera, deixou pender a corola perfumada, sobre o monte de estrume que a cercava. E então, a pobre flor, não tardou a sujar as pétalas delicadas. Perdeu o viço, perdeu o perfume, perdeu toda a beleza da sua castidade. Uma, após outra, tombaram-lhe as pétalas murchas. e quando o jardineiro adubou o jardim, a rosa outrora branca, tão branca e tão pura, também serviu de estrume.

Pequeninos botões de rosa humanos, não deixeis pender as vossas corolas perfumadas, sobre o esterco que vos rodeia, mas erguei-as sempre em direcção ao céu, e dele recebereis a luz divina que vos tornará de dia para dia, mais brancos, mais perfumados, mais puros e lindos!...

Susana Maria Cardoso

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