Jornal de Opinião

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14/09/09

Ao Compasso do Tempo – Crónica de 11 de Agosto de 2009

Evoco o inequívoco teólogo Y. Congar (mais tarde Cardeal, o que nada lhe acrescentou, a não ser a quem tal houve por bem decidir…) e o seu diário do Concílio Vaticano II, inicialmente redigido nas “Informations Catholiques Internationales” (cf. nº 248 – 15 de Setembro de 1965, pgs. 8 - 9). Neste número, o Padre Y. Congar (que nunca precisou de outros adereços de apresentação…) enumera várias categorias e posições de pessoas diante do acontecimento conciliar.
Um desses sectores, em França, resultava de um nítido ambiente político, que se exprimia, como habitualmente fala ou escreve quem é movido por qualquer (e misteriosa) pérfida vontade: “o episcopado francês está contra o Papa e a entregar a França ao Comunismo, etc, etc”. Um jornal italiano apelidava Congar de “padre vermelho” (a originalidade nunca foi inteligência de quem está no “contra”…)
E, a um certo momento, o grande Congar, na sua mansidão, não receou enfrentar a realidade. Daí o diagnóstico: “no mais fundo da realidade, (os opositores) são anti-povo, anti-massa; reagem por instinto coerente contra tudo o que, no plano das ideias, das influências, ou mesmo, no dos gestos e da linguagem, tem o sentido da massa ou do povo: os pobres operários, a linguagem vernácula na Liturgia, um alargado acesso à Cultura… Era o retomar do pensamento de Joseph de Maistre: ”com o Papa, o mais possível; com o Concílio, o menos…” Porque o Concílio é também, na sua perspectiva, um acontecimento “de massa” (ou seja, do conjunto dos representantes do povo de Deus), ao qual deveria ser preferida uma pura monarquia pontifical bem autoritária”. As reacções dos filhos de Monsenhor Lefebvre, à semelhança de seu orientador espiritual, são mais que tristemente conhecidos.
Fundados na Tradição e na Escritura, os Cristãos têm a responsabilidade de, nessas fontes, descobrir as modalidades que permitam evangelizar o mundo que, em cada dia, reaparece diferente em relação a ontem ou a ante-ontem. Numa altura em que se reflecte sobre a implantação da República, em Portugal, este horizonte de exigência e pureza do Evangelho, é capaz de, em alguns escritos e rememorações, trazer até nós os mesmos complexos persecutórios, as mesmas análises doloridas, as idênticas más vontades de quem está zangado com o mundo, com o bispo, os padres, os baptizados, ou outros, de diferente margem.
Pelo que me já relataram, um panfleto desse jaez já apareceu entre nós. Porque o texto “fala por si”, a “fala” engasgou-se com a má vontade e o ácido. E o autor é católico.
O grande filósofo E. Gilson escreveu em 1946, na consagrada revista “Esprit” (felizmente viva e a viver), no número de Agosto – Setembro, a pag. 196, o que se segue: “A função da Igreja não é a de conservar o mundo como ele é, mesmo no caso de ele se ter convertido cristão, mas a de o conservar cristão à medida do mesmo mundo se tornar diferente”.
E no dia da trasladação de Jorge de Sena, é oportuno saborear este pedaço da “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”: “Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?”

Lisboa, 11 de Setembro de 2009

Januário Torgal Mendes Ferreira
Bispo das Forças Armadas e de Segurança
http://castrense.ecclesia.pt

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