Jornal de Opinião

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06/08/09

Não está fora de prazo: um paradoxo

A preocupação com produtos fora de prazo tornou-se quase uma obsessão cultural do nosso tempo. Vivemos o tempo do efémero, dos produtos que duram pouco, produzidos para durar pouco: de usar, e sem sequer usar, e logo deitar fora. Vai-se tão longe que há seres humanos que já são considerados fora do prazo antes de nascer e já se fabricam máquinas perfeitas para destruir produtos perfeitos. E pior: máquinas perfeitas para destruir pessoas não fabricadas mas criadas, decretando que estão fora do prazo de validade. “O homem é antiquado” é o título de Gunthers Anders que deixou páginas de alerta neste sentido.
Há cerca de dois séculos esta atitude de considerar produtos fora de prazo já tinha avassalado culturas, crenças, tradições, valores e instituições. E não demorou que Deus, reis, papas e logo, até hoje, muitas outras autoridades e categorias de pessoas fossem sendo declaradas fora de prazo, mortas ou destruídas. Mas há realidades e instituições como as religiosas e a família que mesmo esmagadas resistem e vão durar.
No pós-concílio a tendência de considerar fora do prazo muitos conteúdos de fé cristã deu sinal em muitas áreas da Igreja. Estou a escrever no dia 4 de Agosto de 2009 durante a orientação de dias de reflexão espiritual e fui surpreendido por uma intuição de paradoxo que me assaltou. Um santo cuja vida conheci nas leituras de refeitório do meu convento, (estas agora fora de prazo), e cuja paróquia de Ars visitei no pré-concílio, ocupa este ano as atenções de toda a Igreja, e isto quando havia impressão bastante geral de ser um santo sacerdote e pároco de perfil antiquado, de segundo plano e, para alguns, já fora de prazo. E agora…o paradoxo de ser revalidado.
Já a nomeação dele para uma paróquia “impossível”, com antecessor ajuramentado da Revolução Francesa e pouco depois “défroqué”, foi talvez um atestado de o arriscar em lugar que ninguém queria porque já então era considerado um pouco fora de prazo. Basta lembrar que era um camponês pouco dotado impróprio para altos estudos e só aceite à ordenação desde que não confessasse por falta de nível. Só para alguma paróquia insignificante serviria. Hoje seria olhado mais fora de prazo ainda por recorrer a métodos demasiado simples, e, para alguns, antiquados que até têm vindo, por vezes, a ser postos de lado por espíritos “superiores” desde há 40 anos para cá. Nada tinham de programa grandioso marcado para a eficácia.
Oferecer a sua vida para converter os pecadores da paróquia? Que ideia! Não será dolorismo masoquista? Confissão? Pessoas “superiores” confessam-se a Deus, não precisam de se ajoelhar diante de padres confessores. Oração? Só quanto baste e ali se sentirem bem. Nem é preciso ir à igreja. A prática do yoga também dá. Missa? Uma vez ou duas no ano nalgum funeral, casamento de amigos e quando não causar transtorno pessoal. Adoração ao Santíssimo Sacramento e de joelhos? Tantas igrejas já nem sequer têm genuflexórios. E até se diz, como alguns protestantes, que a Eucaristia é apenas o símbolo de Cristo. Devoção a Nossa Senhora? Nem é bom pensar nos métodos sem programação adequada das suas aparições a pessoas analfabetas.
Fora de prazo, João Maria Vianey?
Graças a Deus que o Papa veio dizer alto e bom som: o santo está mais dentro do prazo que nunca. Foi avalisado por Jesus Cristo e o Evangelho, os quais não perdem a validade. O exemplo de fé vivida de S. João Maria Vianey e o seu método de muita oração, adoração do SS Sacramento, do valor da Missa e comunhão, o mais importante da vida humana, a confissão sacramental; devoção, rosário e consagração das paróquias à Imaculada Conceição, são métodos válidos hoje e sempre. Com dois mil anos, são e serão sempre novos, próprios e indispensáveis para manter a vida humana recta e ancorada na fé cristã, na caridade e vida divina.
A minha atitude espontânea neste ano é a de dar graças a Deus pelos dons concedidos a ao Santo Cura de Ars; e a este Papa para reabilitar e declarar válidos tantos tesouros do património vivo da fé da Igreja que já estavam a ser abusivamente dados como fora de prazo. Para tantos sacerdotes este ano vai ajudar a preparar jubileus revitalizados de 25, 40 e 50 anos de sacerdócio, tal como para mim. Este Ano Sacerdotal é um dom inestimável e um estímulo para todos, bispos, presbíteros e leigos viverem sempre mais entregues a Cristo.
Fátima, 4 de Agosto de 2009
Aires Gameiro

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