Jornal de Opinião

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23/07/09

Desemprego fez aumentar suicídio

A taxa de desemprego, nalgumas regiões da Europa, fez aumentar o suicídio e as mortes por abuso de álcool. Segundo um estudo publicado numa revista britânica por cada um por cento de aumento de desemprego, verificou-se o crescimento de quase um por cento de suicídios em pessoas com menos de sessenta e cinco anos, totalizando cerca de seiscentas mortes.
Diante destes dados somos como que obrigados a reflectir não só sobre o significado da vida humana com as suas diferentes cambiantes e propriedades, mas também sobre a dimensão operacional do trabalho (emprego e/ou ocupação, remuneração) na prossecução do projecto de vida pessoal, social e até político.
De facto, ‘ter trabalho’ – outros dirão mais ‘emprego’ – é, hoje, um dom (condição, qualidade, regalia, etc.) de grande valor, pois nem sempre é fácil conseguir ter meios de subsistência mínimos nem se torna recuperável a dignidade da pessoa humana se não houver recursos para uma autonomia suficiente.
Quando se procura inquirir – por exemplo – sobre ‘a profissão menos valorizada pela sociedade’ recolhem-se – segundo uma abordagem de mais de trinta mil participantes a que tivemos acesso – dados como estes: 35% diz que são os funcionários de limpeza, 25% diz que são os agricultores e pescadores, 9% diz que são os professores...
Com efeito, num certo escalonamento das actividades profissionais poderemos ser surpreendidos por preconceitos da mais diversificada interpretação: desde o contexto social até à promoção de umas profissões em detrimento de outras.... já para não falarmos da exaltação de uma certa preguiça tornada situação de bon vivant... epicurista!
A acentuação da dureza do trabalho tem ofuscado a nossa correcta visão e vivência na participação no projecto criador de Deus, na medida em que completámos – dando-lhe uma feição pessoal – hoje a criação inicial de Deus, pois, entregando-nos a essa força que nos vem de sermos, neste tempo e em cada lugar, aqueles/as que fazem com que Deus continue a embelezar este mundo, servindo-se de nós e colocando-nos ao seu serviço humilde e confiadamente.
Diante desta espécie de leitura cristã da espiritualidade do trabalho, o desemprego torna-se, antes de mais, uma ofensa à dignidade humana, que despersonaliza quem dele é vítima e escraviza quem dele recebe as réplicas de mal-estar e até de certos tentáculos de doença. Por isso, o subsídio (ou qualquer outra denominação) de desemprego torna-se um mal (menor ou maior!), sobretudo se dele se faz depender a vida de uma família ou de algum projecto mais de natureza pessoal.
Deixamos, sem qualquer preconceito, breves questões:
- Tenho uma visão de trabalho mais em favor dos outros ou em meu proveito? Exijo mais os meus direitos do que me comprometo com os meus deveres? Vivo do fruto do meu trabalho ou limito-me (ao menos em desejo!) a viver às custas do Estado?
- Vejo a minha profissão como um meio de santificação ou como um mero usufruto de valores materiais? Procuro dar testemunho em qualidade profissional ou limito-me a ser uma espécie de sanguessuga contra o patrão? Tento criar bom ambiente no espaço do trabalho ou serei, antes, fomentador de quezílias e de intrigas?
- Pela forma como trabalho e participo nas responsabilidades sociais tento ser presença cristã assumida ou, pelo contrário, envergonho da minha fé? Valorizo os outros como companheiros ou vejo-os como adversários e concorrentes? Valho-me da minha posição profissional para tirar proveito de regalias na vida pública e política?

Trabalhando eficazmente seremos testemunhas de fé amassada pela dádiva em favor dos outros... como foi Jesus, ‘o filho do carpinteiro’.

A. Sílvio Couto

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