Jornal de Opinião

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03/07/09

Pecado original (3)

Os comentários que tenho ouvido na sequência do texto publicado na Agência Ecclesia/Opinião em 8-I-09, e que em boa parte foram referidos na nota publicada no mesmo local em 18-II-09, mostram as incertezas actualmente existentes a propósito da doutrina sobre o pecado original.
Fazendo caso a quem dizia que já era hora de recordar essa doutrina, pareceu-me que seria oportuno ver como o Papa Bento XVI fala dela à mentalidade actual – o que fez na sua catequese dedicada a São Paulo, na audiência geral da quarta-feira, no dia 3 de Dezembro do ano passado.
Na Carta aos Romanos 5, 12-21, S. Paulo confronta Adão com Cristo, para afirmar que, se o pecado de Adão prejudicou a humanidade, o dom da graça de Cristo restaurou-a superabundantemente. “Onde, porém, abundou o pecado, superabundou a graça” (Rom 5, 20). Por isso, Bento XVI recorda que na consciência da Igreja o dogma do pecado original está inseparavelmente relacionado com o dogma da salvação em Cristo.
(Poder-se-á dizer também que S. Paulo, ao ver que o próprio Deus se fez homem e sofreu a morte na cruz para salvar o homem, compreendeu o abismo a que conduzira o pecado de Adão?)
O Papa sabe que, hoje, muitos pensam que não faz sentido a doutrina de um primeiro pecado que depois se teria difundido em toda a humanidade; e, por conseguinte, também não seria necessária a Redenção e o Redentor. “Portanto, existe ou não o pecado original?”
O que não se pode negar, “o dado empírico, é que existe uma contradição no nosso ser. Por um lado, todo o homem sabe que deve fazer o bem e intimamente até o quer fazer. Mas, ao mesmo tempo, sente também outro impulso para fazer o contrário, para seguir o caminho do egoísmo, da violência, para fazer só o que lhe apraz, mesmo sabendo que assim age contra o bem, contra Deus e contra o próximo. São Paulo, na sua Carta aos Romanos, exprimiu esta contradição no nosso ser assim: "Quero o bem, que está ao meu alcance, mas realizá-lo não está. Efectivamente, o bem que quero, não o faço, mas o mal que não quero é que faço" (7, 18-19). Esta contradição interior do nosso ser não é uma teoria. Cada um de nós comprova-o todos os dias. E sobretudo vemos sempre ao nosso redor a prevalência desta segunda vontade. Basta pensar nas notícias diárias sobre injustiças, violência, mentira, luxúria. Vemo-lo todos os dias: é um facto”.
Este impulso ou inclinação para o mal é tão real e contrasta com a inclinação natural para o bem, que Pascal chegou a falar de uma “segunda natureza”. “Esta contradição do ser humano, da nossa história, deve provocar, e provoca também hoje, o desejo de redenção. E, na realidade, o desejo de que o mundo seja mudado e a promessa de que será criado um mundo de justiça, de paz, de bem, está presente em toda a parte: na política, por exemplo, todos falam desta necessidade de mudar o mundo, de criar um mundo mais justo. E precisamente isto é expressão do desejo de que haja uma libertação da contradição que experimentamos em nós próprios”.
Por conseguinte, o facto do poder do mal no coração humano e na história humana é inegável. A questão é: como se explica este mal? Na antiguidade, falava-se de que o homem provinha de dois princípios originários opostos: um princípio bom e um princípio mau. Na visão ateia, supõe-se que o próprio ser tem em si desde o início o bem e o mal.
“A fé (cristã) diz-nos que não há dois princípios, um bom e um mau, mas há um só princípio, o Deus criador, e este princípio é bom, só bom, sem sombra de mal. E por isso também o ser não é uma mistura de bem e mal; o ser como tal é bom e por isso é bom ser, é bom viver. É esta a boa nova da fé: há apenas uma fonte boa, o Criador. (…) O mal não provém da fonte do próprio ser, não é igualmente originário. O mal vem de uma liberdade criada, de uma liberdade abusada”.
“Como foi possível, como aconteceu? Isto permanece obscuro”, diz Bento XVI. E não se demora a analisar como é que o primeiro homem, criado bom, cometeu o mal; nem como o seu pecado passou para toda a humanidade. Limita-se a recordar o dado da fé: o homem pecador foi curado quando Deus entrou pessoalmente na história, com a crucifixão e ressurreição de Cristo. Testemunhas disto são os santos.
Se desejávamos mais explicações, podemos pelo menos recolher o que Bento XVI recorda da doutrina da Igreja: que todo o homem nasce com uma inclinação interior para o mal que é muito forte, devida ao pecado de Adão, que não pode ser superada pelas suas próprias forças, mas somente pela graça de Cristo.


Viseu, 28-VI-09
Pe. Miguel Falcão
miguelfalcao@hotmail.com

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