Jornal de Opinião

São muitos os textos enviados para a Agência Ecclesia com pedido de publicação. De diferentes personalidades e contextos sociais e eclesiais, o seu conteúdo é exclusivamente da responsabilidade dos seus autores. São esses textos que aqui se publicam, sem que afectem critérios editoriais da Agência Ecclesia. Trata-se de um espaço de divulgação da opinião assinada e assumida, contribuindo para o debate de ideias, que a internet possibilita.

25/06/09

Uma influência pequena e residual! É isso que o povo pensa?

A Igreja, mesmo com as suas limitações e omissões, incomoda sempre os cidadãos eruditos que observam a vida e o mundo de um palanque cómodo, fumando os seus caríssimos havaianos, munidos de binóculos modernos que só vêem, como é óbvio, para onde os dirigem, que, normalmente, é o vazio humano e social que os povoa.
Em clima de aniversário festivo, foi dito pelo chefe de um grupo legalizado e que, livremente, se proclama ateu, que “é necessário um movimento ateísta para travar a exuberância da Igreja Católica, num país, Portugal, “onde a sua influência é já muito pequena, residual”.
Ainda bem que cada cidadão é livre de opinar. Mas, um milhão de opiniões livres, nunca por si e pelo seu número, fazem uma verdade. Esta não é subjectiva nem se cria ao jeito de cada um. Por mais que custe aceitá-lo, onde não há objectividade não há lugar para a verdade.
Olhe-se para este tempo de crise social. Quem mais presente, de maneira organizada e efectiva, que a Igreja e os seus grupos e instituições, junto dos mais pobres e excluídos? Quem mais defensor dos direitos humanos e mais interventor quando eles não são reconhecidos? Quem mais próximo das famílias? Quem mais ocupada com os portadores de deficiências, mentais e outras, e com as vitimas das muitas mazelas, congénitas ou adquiridas, a que nem sempre estão alheios os que atiram pedras e escondem a mão? Quem mais criativo e inovador no campo da educação, da acção social e da paz?
A Igreja, pelos seus membros, tanto é pecadora como irmã universal que luta pelo bem, num mundo onde abundam os acomodados. Reconhece as suas limitações e falhas, mas, também, o seu caminho de conversão, os seus méritos passados e presentes, a sua vocação de serva das pessoas, homens e mulheres, de qualquer raça, religião, língua ou cor. Por isso não se acomoda e se, por vezes, o fez ou ainda o faz, é contra a sua razão de ser e missão permanente. Tudo isto o dizem as páginas da história, nas quais, uma multidão inumerável de procuradores dos pobres, ocupa lugar cimeiro, com destaque para gente da têmpera de Francisco de Assis, Vicente de Paulo, José Cotolengo, João de Deus, Frederico Ozanam, Américo de Aguiar, João XXIII, Teresa de Calcutá…
Alguns governos laicos põem entraves à sua acção, mas não podem negar o que é claro e que o povo agradece como o sempre beneficiado. Só o facciosismo, a ignorância, a cegueira, o fanatismo podem negar uma realidade, que se mete pelos olhos dentro.
Não tenham medo os ateus, sobretudo aqueles que, para se afirmarem, precisam de fechar os olhos à realidade. A Igreja já aprendeu a respeitá-los, mesmo quando bolçam ataques e sonham planos, pejados de desprezo e ódio.
À Igreja não a move, com foi dito, a ânsia “que procura tomar conta de tudo” , mas, sim e sobretudo, move-a o cuidado dos mais pobres, que os bem instalados normalmente desconhecem, não sabem onde moram, nunca lhes viram, nem lhes trataram as feridas do corpo e do espírito. Nunca lhes enxugaram as lágrimas e nem ouviram, com amor, respeito e paciência, os seus desabafos mais pungentes e sentidos.
Sei bem que os tempos não são nem de apologia, nem de apologética. A Igreja Católica, porque o sabe, deixou essas armas do passado, usadas para se manifestar e defender. A sua acção e a sua defesa está agora no serviço que presta à humanização da sociedade, à causa da paz, à promoção da solidariedade, ao cuidado dos mais excluídos, à resposta possível às crises sociais. Não para ganhar prestígio, mas para testemunhar o Evangelho do amor, fazer seu, como Jesus Cristo, o caminho do homem. Os penachos do tempo, e as críticas mordazes, morrem no tempo. Perdura a consciência do bem procurado e realizado. Este é o caminho. A Igreja, fiel à sua missão, não pode ter outro.
António Marcelino

2 Comentários:

Às 26 de junho de 2009 às 14:54 , Blogger a-missão-adblog disse...

Finalmente encontro alguém com voz para dizer da verdade que somos, nós os católicos, na construção de um mundo melhor. Penso que os pseudocultos, inchados só da sua pseudosabedoria, só se conseguem encontrar dentro do barulho das suas vozes (e há vozes que não chegam ao céu!!!). Porque são incapazes de se deixarem encontrar a si próprios e, encontrando-se a si próprios, poderem cumprir a Pessoa que verdadeiramente são. E estes, não fora o orgulho(grande mistério "que só morre quinze minutos depois de nós morrermos"!) de que se alimentam e com o qual mantêm uma relação religiosa, também poderiam entrar para a história da construção do Homem. Pois, nestas vozearias não está senão um outro deus: a fama, o protagonismo e o "umbigo próprio". Ò sabios deste mundo, dignai-vos descer das vossas vaidades, e ide sujar-vos na miséria dos outros, porque estes outros são credores daquilo que vos sobra e daquilo de que vos apoderástes ilegitimamente. Porque aquilo que nos sobra não nos pertence. E, neste contexto, só me falta dizer que é tudo inveja!

 
Às 3 de julho de 2009 às 21:08 , Blogger Carlos Esperança disse...

Na sequência deste artigo “Uma influência pequena e residual! É isso que o povo pensa?”, publicado em 28 de Junho pelo bispo católico António Marcelino, agora reproduzido aqui, no blogue da Agência Ecclesia, vem a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) agradecer a preocupação de mais um bispo português com o seu aniversário.

A AAP não comenta o tom encomiástico com que o Sr. Bispo se refere à sua Igreja nem o azedume que a AAP lhe provoca, pois a defesa da liberdade, incluindo naturalmente a religiosa, é um objectivo dos ateus, que se revêem na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Apenas pretendemos comentar uma frase do Sr. Bispo em que junta duas afirmações produzidas em momentos diferentes do discurso proferido no aniversário da AAP:

«Em clima de aniversário festivo, foi dito pelo chefe de um grupo legalizado e que, livremente, se pro-clama ateu, que “é necessário um movimento ateísta para travar a exuberância da Igreja Católica, num país, Portugal, “onde a sua influência é já muito pequena, residual”».

1 – A Associação Ateísta Portuguesa tem os seus órgãos estatutários constituídos pelos membros eleitos e publicados no seu «site»;

2 – Os membros da AAP não têm «chefe de grupo» mas sim um presidente da direcção, semelhante ao que acontece com a Conferência Episcopal Portuguesa e, neste caso, com a singular diferença de os seus órgãos integrarem mulheres cuja igualdade é, para os ateus, uma exigência ética;

3 – O facto de livremente nos proclamarmos ateus é um direito constitucional e não uma regalia concedida pela Igreja católica que só reconheceu o direito à liberdade religiosa no concílio Vaticano II e tem antecedentes pouco tranquilizadores a tratar ateus;

4 – A exuberância da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) revela-se na influência que exerce através das escolas, hospitais, Misericórdias e do Estado a quem consegue impor uma Concordata e fazer pagar a assistência religiosa em hospitais, quartéis e prisões e aulas de EMRC nas escolas públicas, privilégios inaceitáveis num estado laico e democrático;

5 – Quanto à «influência residual» baseia-se a AAP nos dados fornecidos pela ICAR quanto à prática religiosa e no desprezo das decisões eclesiásticas referentes ao planeamento familiar e à contracepção pela população portuguesa.

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) defende a liberdade religiosa e apenas contesta o proselitismo e os privilégios injustos, na defesa da laicidade e do livre-pensamento.

a) Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, Julho de 2009

Carlos Esperança
(Presidente da Direcção da AAP)

 

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