Jornal de Opinião

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26/05/09

Ao Compasso do Tempo - Crónica de 22 de Maio de 2009

Ao Compasso do Tempo - Crónica de 22 de Maio de 2009

Leitura semanal dos problemas do Mundo e da Igreja

http://castrense.ecclesia.pt

A morte de João Bénard da Costa, ocorrida há dois dias, rememora factos históricos e eclesiais, anteriores e coincidentes com os da década de 60, perante os quais o autor dos “Vencidos do Catolicismo” (série de artigos publicados no “Independente”) se debruça em análise das magnas causas da efervescência desse período.
Pronunciados estertores do regime do Estado Novo são contemporâneos de grupos e levantamentos de sectores católicos, envergonhados por uma “Igreja comprometida” e disponíveis ao derrube da injustiça.
Como destaca Franco Nogueira (Salazar, vol. V, Porto, Livraria Civilização, Editora 1988, p. 68 sgs):: “Acontece, para mais, que neste mês de Maio de 1959 os meios católicos se encontram particularmente emocionados na perspectiva da breve inauguração do Monumento a Cristo-Rei (…) está lançada por todo o país a ideia de uma consagração do monumento que se pretende não só cristã como nacional (…). No Episcopado, repetem-se autênticas pressões: que o acto de consagração seja lido pelo chefe do Estado e que este compareça no pontifical de Santa Maria de Belém (…)”
Conforme acentuou o arcebispo de Évora, D. Manuel Trindade Salgueiro, em carta ao Presidente Américo Tomaz: “Mas talvez, sem V. Excia ler a fórmula da consagração, talvez tudo pudesse harmonizar-se (…) se, ao findar o discurso, sem dúvida impregnado de sabor religioso, V.ª Excia ratificasse, como chefe da Nação, a consagração anteriormente lida por Sua Eminência”, concluindo: “Sob todos os aspectos, ao menos este encontro das duas autoridades mais altas de Poder religioso e civil da Nação, seria uma bênção para Portugal” (p. 69)
E em carta ao Doutor Salazar de 10 de Maio de 1959, o Cardeal Cerejeira a propósito da consagração por parte do poder político, e no caso, pelo Presidente do Conselho, relembra: “o que há de essencial é que o Senhor Preside (“sic” no original) comprometa como chefe da Nação a Nação no Acto Consagratório. Diga alguma coisa equivalente a isto: como Chefe da Nação cuja religião é católica, em nome dela, confirmo ou ratifico a Consagração feita pelos Bispos de Portugal, ou acabada de ser lida pelo Cardeal Patriarca”. (p. 70, nota 1)
O Doutor Salazar sugere (manda?) ao Presidente da República o conteúdo da fórmula consecratória, tentando destrinçar o Portugal político… do Portugal cristão. E assim se fez, após capítulos vários de contactos aparentados mas sem conúbio… (Cf. op. cit, ps 75-76)
E ainda por cima, no dia da festa, os olhos da maioria concentravam-se no bispo do Porto, de então. E, com ou sem intenção, D. António Ferreira Gomes, ainda para confusão dos gulosos meneios, apareceu de cabeça descoberta, com o halo vermelho do solidéu, mas “decepado” da triunfal mitra, dando oportunidade às mais desvairadas interpretações…
Era a agonia de um sistema, com um Cristo a abençoar Lisboa e Portugal, bem precisados de uma Luz Superior que esclarecesse a Igreja e o Estado!
Não admira que, desde então, ou seja, a partir de 1960, leigos católicos, como João Bénard da Costa e o seu “Tempo e o Modo”, levantassem cabeça contra o segmento de uma história e o “modo” falso como o poder político se comportava, arredio aos direitos humanos, urgindo a que a democracia se soerguesse como o sol.
Um dos bispos dissidentes, ordenados pelo bispo Lefebvre em 1998, de nome Bernard Tissier de Mallerais, e hoje reintegrado na comunhão eclesial, acusa o Vaticano de negar “Cristo-Rei”, por cujas razões Charles Maurras foi condenado por Pio XI.
A “tragédia conciliar”, segundo Lefebvre, consistiu na “descoroação” de Jesus Cristo, ao insistir na dimensão empenhativa da Festa Litúrgica de Cristo-Rei, como se os critérios evangélicos do serviço ao mundo constituíssem uma teia de aparato mundano e político-social, ao sujar esse serviço as mãos na criação de um mundo de liberdade, fraternidade, tolerância e pluralismo.
O “reinado” social da Justiça e da Paz não convém a certos monarcas… Segundo estes, se Cristo sancionar políticas “cristãs” de domínio e orgulho, ainda vá. Caso contrário, é melhor expulsá-Lo da cidade e atirá-lo para o exílio.
Tantas lições, factos e pessoas ligadas sob este véu diáfano da mística e do êxtase! Entre Charles Maurras e o bispo Williamson (negacionista do Holocausto) há um triste parentesco de família…
E os tempos de ontem e de hoje aparentam caracteres, tendências, pessoas e movimentos católicos, que convidam a estudo da maior actualidade.
“Reinventar a solidariedade” é um “reinado” mais verdadeiro!

Lisboa, 22 de Maio de 2009

D. Januário Torgal Mendes FerreiraBispo das Forças Armadas e Forças de Segurança

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