Jornal de Opinião

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06/03/12

Nas tuas mãos, Senhor, coloco as minhas...

Nas Tuas mãos, Senhor, coloco as minhas,
Junto de Ti repousa o meu ser.
À tua vida entrego a minha vida.
À Tua vontade eu uno o meu querer...
Nas Tuas mãos, Jesus, coloco as minhas,
Venho para Te contemplar
Preciso de Te conhecer, em silêncio, Te amar!
É ao ritmo deste cântico que iniciamos esta nossa partilha/reflexão em época de caminhada de Quaresma. Numa tentativa de interpretarmos a linguagem das mãos e o modo como ela se exprime, sobretudo, na paixão de Cristo pela via-sacra.

De fato, nós falamos com mãos e as mãos falam daquilo que nós somos, isto é, a nossa forma de expressão oral é complementada com a expressão gestual. Mesmo de forma sucinta vamos tentar resumir algumas das formas de linguagem gestual e a sua possível interpretação antropológico/teológica.
«A mão simboliza uma acção ou uma obra e encerra a magia do coração; por isso transmite os seus sentimentos. As mãos amam, falam (por gestos) e acariciam, tocam e deixam-se tocar; as mãos tranquilizam e agridem, desejam e repelem; comunicam amor e agressão, serviço e domínio sobre o outro. Por isso a nossa língua [o português] é rica em expressões acerca da mão.
No que se refere a Deus, a mão direita simboliza a protecção, o poder criador e providente, que liberta o seu povoe o acompanha pelo deserto, castigando os inimigos com a mão esquerda para o proteger. As mãos impostas sobre alguém transmitem poder ou o Espírito Santo. As mãos levantadas são símbolo de um coração suplicante que sobe até Deus. No mundo, Jesus tornou-se a mão de Deus Pai estendida a todos os pequeninos e pecadores. Com a sua mão Ele acaricia as crianças, consola os tristes, acolhe e cura os doentes, perdoa os pecadores… Apesar disso, as suas mãos foram violentamente pregadas numa cruz, como se fossem de um ladrão e assassino» (1).
É diante desta riqueza de linguagem das mãos, que nós nos queremos enfrentar, tentando caracterizar essa vivência, sobretudo, no contexto da Via-sacra... deste ano de 2012, intitulada: ‘Via sacra nas mãos de Deus pelas mãos dos homens’ e que foi publicada pela Paulinas Editora.

= Linguagem das mãos... em contexto bíblico
Eis uma breve tipificação da linguagem das mãos, partindo de expressões da Bíblia:
- Apertar a mão é fazer um acordo;
- Dar a mão à palmatória é reconhecer a culpa;
- De mão beijada significa receber de graça;
- Deitar a mão é apoderar-se;
- Estar em boas mãos significa estar na posse de pessoa capaz;
- Estender a mão é símbolo de ameaça;
- Levantar a mão (sobretudo a direita) significa jurar;
- Mãos abertas revelam generosidade;
- Mão forte manifesta assistência a alguém;
- Mão-de-obra significa trabalho;
- Mãos limpas manifesta ser honrado;
- Cair nas mãos de… é ficar em seu poder;
- Lavar as mãos diante de alguém é símbolo de inocência;
- Pela mão significa através ou por meio de alguém.

= Simbologia das mãos na Via-sacra
De entre os vários intervenientes na caminhada da Via-sacra – segundo a sugestão do Papa João Paulo II – deixamos um pequeno esboço da linguagem das mãos... numa tentativa, sempre necessária e útil, de actualização:
1. Jesus em agonia no Jardim das Oliveiras - uma mão aberta em súplica
2. Jesus, traído por Judas, é preso - mãos presas
3. Jesus é condenado pelo sinédrio - mãos caídas... em juízo
4. Jesus é renegado, três vezes, por Pedro - mãos (punhos) fechados
5. Jesus é julgado por Pilatos - dedo de uma mão... acusando
6. Jesus é flagelado e coroado de espinhos - duas mãos com coroa de espinhos
7. Jesus é carregado com a cruz - mãos em gestos agressivos
8. Jesus é ajudado pelo Cireneu a levar a cruz - mãos a levantar... alguém
9. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém - mãos estendidas... a ajudar
10. Jesus é crucificado - mãos abertas... em aceitação
11. Jesus promete o seu reino ao «ladrão arrependido» - mãos apontando a saída
12. Jesus na cruz: a mãe e o discípulo - mãos de duas pessoas... em ajuda
13. Jesus morre na cruz - mãos desfalecidas... em derrota
14. Jesus é colocado no sepulcro - mãos entrelaçadas... de medo e morte
Final – mãos levantadas... em louvor...rumo à Ressurreição!
Porque cada um de nós faz parte deste percurso de via-sacra, cremos que é preciso participar neste diálogo entre Jesus e cada um de nós e uns com os outros…

1. Cfr. Herculano Alves, Símbolos na Bíblia, Lisboa, Difusora Bíblica, 2001, p. 205.

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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