Jornal de Opinião

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05/12/11

Crise, resgate, Natal e a Imaculada Conceição

Pode parecer uma profanação fazer a aproximação do resgate de dívidas impagáveis com o Natal, Incarnação e Nascimento do Deus-Homem, Jesus Cristo no meio de nós. Peço vénia por esta aproximação. Há certos conceitos e termos usados a vários níveis de realidade e significação. Nenhum nível esgota todo o sentido. São conceitos de grande polissemia, ricos de significado; e entre eles o termo resgate e crise.

Nesta crise económica resgate é um dos termos mais utilizado. Na história dos cativos e escravos o termo tinha o sentido de re-compra da liberdade a quem dela tinha sido privado. Também se usava o termo de re-denção dos cativos ou re-compra deles para a liberdade. Alguém o fazia por eles; eles não tinham meios para pagarem, como acontece agora com o resgate: outros pagam as dívidas de países à beira ou já no incumprimento.

Outro termo afim dos conceitos com re é reconciliação e reparação de algo em estado de dano ou ruína em que se perdeu a unidade do ser, a sua harmonia e relações. Reparam-se casas, situações, pessoas, relações entre pessoas e entre estas e Deus. A língua inglesa para a reparação cristã usa o termo atonement (latim ad-una-menttum) no sentido de repor o ser humano at one (onement=unidade), em unidade e harmonia do todo após se ter arruinado pelo pecado. Remédio é outro termo usado para repor a saúde e harmonia nos estados de doença, orgânicas, espirituais e cristãos.
Mais profunda é a noção de prevenir a necessidade de resgate com garantia ou fiança de imunidade a ficar refém das dívidas ou no cativeiro. A garantia é dada com um salvo-conduto mais ou menos abrangente. Este previne e salva a pessoa da possibilidade de insolvência, de cativeiro e de escravatura por antecipação. Lembra o objectivo que se procura com os eurobonds e o fundo de garantia e estabilidade para cobrir e previnir o risco de incumprimento em caso de dívidas futuras. Para isso exigem-se condições a respeitar aos países e às pessoas.

Nesta quadra do Natal estes sentidos são celebrados a um nível altíssimo da realidade humano-divina. A incarnação do Filho de Deus é uma garantia de resgate (recompra libertadora da escravatura maldita) do endividamento das ofensas dos pecados de todos os homens. Afinal pecadores endividados somos todos. Jesus com a sua incarnação, vida, morte e ressurreição anulou na cruz o título da nossa dívida, como diz S. Paulo (em Colossenses, 2: 8-15), garantiu um “depósito” gratuito (de graça porque somos insolventes) que garante solvência total da nossa dívida de pecado com seu perdão. Qualquer pessoa pode recorrer a essa garantia desde que se reconheça insolvente, incapaz de se resgatar (pagar) por incumprimento definitivo, e que aceite esse “fundo” e as suas condições. Se a pessoa aceita o resgate aceita as condições. Ninguém pode pagar por outro porque todos estão igualmente em incumprimento. No Natal celebramos na alegria e esperança este fundo supremo de esperança e estabilidade sustentável. Todos os outros “fundos” de esperança podem falhar. Este é o único rigorosamente estável e sustentado. É um fundo inesgotável e gratuito de esperança por ter a cobertura misericordiosa do amor divino.

O tempo do Advento traz-nos ainda o conceito e a realidade de pre-resgate e pré-redenção. Sem esperar que Virgem Maria ficasse em incumprimento de dívida, Deus, por Jesus, dotou-A em antecipação de todas as riquezas divinas, passíveis de serem dadas a uma criatura, que a tornaram imune a qualquer risco de incumprimento por dívida de pecado; e pré-salva de qualquer necessidade posterior de resgate. Celebramos na fé este pré-resgate no dia 8 de Dezembro. A Virgem Santa Maria, “a cheia de graça” desde a sua Imaculada Conceição é celebrada por toda a Igreja como Aquela a quem foi dado o privilégio único de ser a Pré-resgatada, a Pré-remida. O Natal é tempo de esperança garantida e sustentável. Votos deste Feliz Natal!
Funchal, 1 de Dezembro de 2011

Aires Gameiro

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