Jornal de Opinião

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03/10/11

Riqueza da nossa gastronomia... em maré de crise

Há cerca de um mês, por votação eletrónica de todo o país, foram escolhidas as sete maravilhas da gastronomia portuguesa. O resultado foi o seguinte: alheira de Mirandela, queijo da Serra da Estrela, caldo verde, arroz de marisco, sardinha assada, leitão da Bairrada e pastel de Belém. Os votantes superaram mais de um milhão de pronunciamentos.

O processo de seleção, que teve início com cerca de setenta pré-selecionados, reduziu-se, na fase final, a vinte e um concorrentes, segundo as várias etapas de uma refeição à portuguesa... desde as entradas até à sobremesa, passando pela sopa e pelo prato de peixe ou de carne.

Serve esta nossa abordagem à gastronomia para tentarmos perceber a nossa riqueza, feita de coisas simples e populares... quando tantos se deixam ludibriar com ingredientes de supeita qualidade.

1.Coisas simples e saudáveis
Partindo da grande variedade de sugestões do nosso cardápio gastronómico, podemos dizer que as ‘sete maravilhas’ mais votadas são das mais simples e (até) das mais saudáveis: um pouco de engenho e alguma subtileza fez das ‘comidas’ vencedoras o regalo do povo... nos nossos dias e no tempo dos nossos pais e avós. Com feito, a possibilidade de ter umas sardinhas assadas eram uma vitória nos anos setenta e agora tem honras de serem bem pagas na ementa de muitos restaurantes. Um caldo verde, feito com as coisas mais rudimentares da horta serve de promoção a festas e romarias... dando a crer que, por ser simples, é bem melhor do que certas sopas da ‘nouvelle cuisine’.

Talvez estas ‘sete maravilhas da gastronomia’ tenham vindo acordar certos peritos – diz-se agora ‘experts’ – do fast food (tanto de mercado como dalguns restaurantes da moda) que nada tem de genuíno nem de português, criando uma nova vaga de sensibilidade ao que é nosso, deixando cair a máscara dessa mescla europeia de comidas de plástico, sem sabor, com pouca qualidade e fazendo bem pior à saúde.
A consagração de ‘maravilhas’ deu àqueles pratos nova projeção, numa espécie de exorcismo contra alguns novos-ricos que se iam envergonhando daquilo que é nosso, vendendo-se à internacionalização de certas modas, que mais não são do que uma certa globalização da mediocridade a começar à mesa...

2. Saber comer com qualidade e moderação
Atendendo ao mais recente desenvolvimento da obesidade em Portugal, vai crescendo a consciencialização de que temos de cuidar da nossa alimentação (dita) mediterrânica e que as ‘sete maravilhas da gastronomia’ como que a vieram colocar no devido lugar e na importância correta da nossa forma de comer. De fato, foi quando deixamos que entrassem certos ingredientes de duvidosa qualidade na confeção dos nossos alimentos, que crianças, adolescentes e jovens, começaram a ganhar peso, correndo riscos na saúde... atual e futuramente.

Não deixa de ser inquietante que continuemos a comer em quantidade – como se fossemos todos trabalhar no campo em esforço – sem o correspondente desgaste físico... E depois têm/temos de ir queimar calorias com exercício físico a pagar os serviços prestados!

Ora, nesta época de crise, como que podemos/devemos viver numa aprendizagem crescente da nossa condição neste mundo, que tem tanto de exagerado pelo excesso na comida como pela sua contenção. Com efeito, viver de forma equilibrada – físico/biológica e psicológico/espiritual – é tarefa que terá de evoluir... pela moderação e na temperança.

Efetiva e afetivamente é exigente viver de forma equilibrada... sabendo conhecer as nossas mais ou menos assumidas compensações (na comida, na bebida e noutros vetores mais subtis), sem desculpa, assumindo a verdade para connosco mesmos e para com os outros.

Verdade, a quanto obrigas!

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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