Jornal de Opinião

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15/09/11

De professores de disciplinas a educadores e mestres de vida

Participei, com muito proveito, num seminário orientado para a formação de professores das escolas católicas, sem outro interesse que a sua qualificação de educadores cristãos. Mais de duzentos, vindos de todo o país, participando livremente e preocupados em somar créditos, não para si, mas para os seus alunos. Os orientadores eram leigos, vindos de Espanha, professores investigadores, que, neste Verão, como já o fizeram em anos anteriores, ele acabava de chegar da Guatemala e ela dos Camarões. Viagens à sua custa, trabalho totalmente gratuito para ajudarem a qualificar as escolas, por rudimentares que fossem, e a formação dos seus docentes. Também este testemunho qualifica o seu trabalho.

Uma reflexão séria e consequente, feita no início do ano lectivo, permite aos docentes vencer rotinas, abrir horizontes e actualizar, qualitativamente, os projectos a encetar. Tudo isto se torna necessário, dadas as mudanças sociais e culturais em curso que atingem os alunos, as aquisições da inovação pedagógica, a clarificação dos processos educativos. Em todos os níveis de ensino há professores que são mestres. Mas pode haver outros que o não são, nem têm qualquer preocupação nesse sentido.
Todo o ensinamento se torna mais claro e convincente quando o aluno o vê traduzido no viver do mestre. Há quem não pense deste modo. A verdade, porém, é que a memória dos bons mestres que tivemos fica para a vida, mesmo que se tenhamos esquecido o conteúdo das aulas recebidas.
Partilhar saber é partilhar vida. Um saber que vai para além do exame, porque uma boa escola, com professores mestres, não se esgota a preparar para um exame final. Ela tem, também, no seu horizonte de acção diária, a preocupação de preparar para o exame da vida, feito num futuro sempre próximo, que permite avaliar não apenas a competência profissional, mas, ao mesmo tempo, a capacidade de relação com todos e de trabalho em equipa, a honestidade nos métodos, a abertura solidária aos outros, a participação social, a preocupação criativa e inovadora, a resistência às dificuldades, o enfrentar dos desafios. Mas não é para isto que existem as escolas? E como poderão realizar esta missão sem modelos de vida ao alcance diário dos alunos? Os primeiros modelos são, ou têm de ser, os professores do dia a dia.
Educar é transmitir conhecimentos, tornar acessível o património cultural universal, dar sentido crítico ante o saber disponível, que as novas tecnologias proporcionam. Mas é, ao mesmo tempo, pois que para isso não há aulas próprias, educar a mente e a vontade, ou seja, ajudar a arrumar a cabeça e o coração, para que o ser e agir sejam humanos e dignos de pessoas sérias e honestas, solidárias e participativas. Pessoas para as quais a verdade, o bem e o sentido dos outros são o caminho orientador da vida.
A pessoa escolarizada e educada deve ser, progressivamente, capaz, porque assim aprendeu com os seus mestres, a gerar modelos de mudança concretos ante os problemas que surgem no seu caminho diário. Não se forma gente para chorar eternamente os seus problemas, nem para atirar para os outros a culpa e o dever da solução. Forma-se para que seja capaz de conjugar forças que lhe permitam, por si e em colaboração com outros, saltar o muro das dificuldades, ainda que muito alto, e construir, do outro lado, a sua casa e a realização dos seus projectos sonhados.
A nossa sociedade é a prova diária do fracasso de processos educativos em curso. Os “rankings”, como outrora os quadros de honra se, momentaneamente, trazem prestígio à escola, acabam por poder desvirtuar o objectivo global e social da educação. Um aluno de notas altas tanto pode dar um cidadão válido, como um génio insonso ou um potencial criminoso. Uma escola só voltada para si e para o seu prestígio, também se pode tornar um espaço desvirtuado e desvirtuador. A escola, de facto, não tem por missão fazer bons alunos, mas sim bons adultos, bons cidadãos.

Se a escola existe por causa dos alunos, é a instituição, como tal, com os seus professores e demais membros da comunidade educativa, sem esquecer os pais e outros encarregados de educação, quem encarna esta causa e quem procura garantir o êxito possível. Mas, de todos os intervenientes são ainda os professores, educadores e mestres, os mais próximos e determinantes. Não o serão, porém, e podem mesmo ser o contrário, se a educação não for a sua paixão e não tiverem referências e modelos educativos sérios que os mobilizem na sua vida e acção.

D. António Marcelino

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