Jornal de Opinião

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18/07/11

Tempos de retiro: “Deixa… e vem”; valida o amor da tua fidelidade vocacional

Os percursos de cada vocação e profissão quase nunca são lineares. Um retiro refrescou a experiência do autor. Percursos gozosos são às vezes interrompidos de surpresa, de fora, na vida pública e na vida de instituições a que se pertence por laços vinculativos. Razões?

Nem sempre claras e razoáveis, mas estão no evangelho.
Três hipóteses de interrupções: primeira, actividades mantidas por interesses egoístas, com dupla agenda, com estratagemas de interesse, sem recta intenção; segunda, aquelas em que o agente tem boa intenção, sabe fazer, mas a sua actividade pode ser considerada custosa e quase inútil, ter interesses à mistura; terceira, a actividade é conveniente, competente, necessária, o actor é fiel e generoso, bem intencionado, convicto de estar a fazer a vontade de Deus, e é reconhecido com apreço pelos seus superiores.
Vejamos só esta terceira hipótese, as outras são caso à parte. Um belo dia diz-lhe quem pode: deixa isso tudo. E é despojado de toda essa actividade (que ninguém irá continuar). Deixa isso, passas a outra coisa. Se a ordem é de passar a outra actividade o actor consegue lidar com a situação sem tanto sofrimento, pode pedir apoio amigo ou psicológico. Vai encaixar-se noutra actividade e encontrará novas recompensas e novos apegos. O “deixa tudo” será adiado.
Mais pungente é ouvir: deixa, sai, vai. Para quê, para onde? Fazer o quê? Por agora nada ou quase nada de útil, umas migalhas insignificantes. Fora de doença muito grave, não está ao alcance de qualquer um entender e adaptar-se a esse “deixa” e “para quase nada”. Só quem vive a vida consagrada terá a chave para entender esse deixar tudo. Os outros só o poderão entender no cenário de ser uma doença mais ou menos grave e limitante a dar essa “ordem” de tudo deixar. Se a doença “manda”…Mas o próprio perguntará: e agora?
O religioso sabe que isso é possível; contudo nem sempre vive ou aceita o sentido da sua consagração: de “deixar tudo e segui-lo”. A quem? A Cristo. Sabe que só n’Ele encontrará sentido para o “deixa tudo”, o “vai”, o “vem”, seja por ordem de homens seja de doença.
Mas também o leigo pode fazer a mesma pergunta ao ter de deixar as suas actividades. A doença pode obrigar a fazê-la. E agora? Ir, para onde? Deixar, para quê, porquê? Fazer o quê?
Perante as ordens de homens na vida consagrada; e perante as ordens de doença mais ou menos invalidante, as ciências humanas não ajudam muito. Só ajudam em problemas pequenos e este abrange a pessoa toda.
O “deixa, vem-vai” pode em dinâmica de contrários: uma voz diz: deixa e vem; e a do próprio responde: ainda não, deixa-me estar, vem Tu para onde estou, ficarei mais consolado nesta actividade gozosa, gratificante. Mas a ordem insiste: deixa, vem, despoja-te mesmo do bem que fazes. O religioso sabe que só no dar-se todo a Ele poderá encontrar sentido para o “deixar tudo”, para o “vem”, seja por ordem de homens seja de doença. Mas saber não tira o sofrer.
Também Jesus estava a fazer coisas óptimas, importantes, da vontade do Pai. Era bom ensinar, ser luz, dar pão aos esfomeados, curar os doentes e, melhor ainda, perdoar aos pecadores embrulhados no peso das suas culpas. Eram actividades santas que não deveriam ser interrompidas. Fazia a vontade do Pai, por amor. Tudo corria bem. Eram obras de sucesso divino, de amor a favor dos pobres, resolviam problemas sociais… Porquê deixar?
E o Pai insiste: mas agora deixa e vai para a Judeia, para Jerusalém. Para fazer o quê? Nada do que vejam como útil. Ao contrário. Pedro até reagiu: “nem penses nisso”. Vai, interrompe o que ninguém continuará como tu. Vai para ser perseguido, tratado com a maior das injustiças, para te prenderem. Vai para seres humilhado, torturado e morto. Jesus, para fazer a vontade do Pai; e tu, para O seguir; vai, deixa tudo, deixa-te despojar de tudo, segue. Então, e a utilidade da minha vida? E o bem que eu poderia fazer? Segue-O, por amor, identifica-te e une-te a Ele. “Morre” para tudo o que não é ELE mesmo. Valida a tua fidelidade de amor para com Ele, sem outra paga além de o amar. Nada perdes e nada do que é bom fica frustrado. “Deixa tudo e vem”, deixa tudo com amor pelo tudo que é Jesus Cristo. A Palavra do Pai pede: “ama-Me antes e acima de todas as coisas” e terás em Mim todo o bem. Certo, só a luz do Espírito permite ver quanto “morrer” n’Ele vale mais que todos os sucessos de percurso. Só na “morte” por amor se valida todo o amor e fidelidade do bem feito, e se reparam as infidelidades por cálculo. “Abandonámos tudo e Te seguimos” (Mt,16,27) E agora? Vem, estou aqui!

Fátima, 9 de Julho de 2011
Aires Gameiro



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