Jornal de Opinião

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01/06/11

As próximas eleições e os cristãos

Ao Compasso do tempo, 27 maio 2011

1. Foi sempre notório no nosso país o desmerecimento da exigência da justiça social por parte de um certo tipo de pessoas e de instituições. Tenho para mim que um certo “monopólio” das temáticas sociais, de que se arvoram ideologias e sectores, deriva, em grande parte, da repugnância pela revisão da vida à luz destes combates. De imediato vem o remoque de que “se faz política” (e faz… E por que não?!). Mas não política partidária ou sectorial; ao contrário, política genérica ou cidadania (quem não se vê inquieto diante da pressão dos impostos, das baixas salariais, da inexistência de empregos, de sofrimentos e opressões? Quem não se sente cidadão?).
Há uma geração de cidadãos (e de cidadãos cristãos) perfeitamente indiferentes ou pouco sensíveis. Praticou esta sã mentalidade a Acção Católica, a qual foi definhando em número de pessoas, mas nunca no campo das convicções. Para esse decréscimo muito contribuíram a crítica interna e a repulsa de gente do mesmo clube. Os devocionistas nunca se colaram aos que chamaram de progressistas (estes amavam o mundo; aqueles fugiam dele).

2. Não faltam hoje movimentos nem impulsos pastorais, muito metidos consigo; quando muito, espreitam pelas frinchas o que circula nas “praças da liberdade”!

Relaciono esta indiferença ou falta de saber e de interesse com um fenómeno passadiço que voga por aí: abundam opas e indumentárias, togas e vestidos longos, ressuscitando ou inventando associações ou ordens ou irmandades, com sabor militar (sem que os militares, na sua maioria, tenham a mínima culpa), com ar selectivo e bem, em clima de gueto sem querer ser seita, não discriminando ninguém, mas não convidando um certo tipo de pessoas. O ar beatífico enforma o clã; as promoções sociais e os sócios e irmãos são tendências de subida e de reconquista. E, em paralelismo, lá medram os títulos eclesiásticos (que se pagam), os cartões com armas e tons coloridos e as revivescências de “desfiles da moda” clerical (sem negar o mau tom de muitos “looks” seculares…).

Alguma vez passou pela cabeça de alguém que os bispos devam ter papel de carta com armas? E pratos e baixela? Mas essa tradição genericamente não é contrariada… A heráldica, antes de mais, é ridícula!

Parece que germinam hoje agremiações com bandeiras e guiões, botas e clarins, roupeta de todo o jaez, evocando salões e desajustes de costumes. Por que se chamaram cristãos alguns cidadãos(ãs) de Antioquia? Porque neles(as) brilharam formas de ser, tendo Cristo como espelho. Por que não voltar ao único necessário, pondo de lado o imperial?!

Há textos luminosos escritos por leigos(as) no âmbito da Conferência Episcopal. Refiro-me aos documentos da Comissão de Justiça e Paz.

Por que não são estudados, citados, praticados, erigindo-os em vozes evangélicas das nossas comunidades? Por que não aceitamos ler o mundo através destes olhos laicais?
Mais ainda: por que Razão ou razões nunca aparecem nestes diálogos eleitorais (para os quais são chamados peritos e analistas, sobretudo económicos) pessoas ligadas à Universidade Católica? Esta área económico-financeira possuirá nas escolas de inspiração cristã um número significativo de intelectuais com uma mentalidade superior, muito para além de modelos parados e sem eficácia? Ou será o contrário?
Nota: Dizem-me que os Padres Congo e Raul Pati, de Cabinda, terão sido objecto de uma chamada de atenção por parte da Santa Sé. Não acredito. O beato João Paulo II, quando lutou pela autonomia da sua pátria, foi olhado de soslaio. Mas nunca o exilaram…

MDN – Capelania Mor – 27 de Maio de 2011

Januário Torgal Mendes Ferreira
Bispo das Forças Armadas e de Segurança


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