Jornal de Opinião

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10/05/11

João Paulo II e Osama bin Laden. Sob o espectro paradoxal de duas culturas

Por estes dias – e com breves horas de distanciamento – duas figuras andaram na ribalta da comunicação social: o Papa João Paulo II, que foi beatificado, em Roma, enquanto, Osama bin Laden era – segundo notícias demasiado espectaculares! – morto, no Paquistão. Duas personagens tão diferentes, mas tão marcantes segundo as suas culturas e até pelas incidências que deixaram à sua volta... com repercussão nesta transição de milénios.

Sem qualquer juízo de valor moral sobre o segundo, temos – claramente – maior afinidade e simpatia espiritual para com o primeiro. No entanto, reconhecemos que ambos tiveram – e depois dos mais recentes acontecimentos – continuarão a ter novo impacto, cada um na sua expressão, cultural e talvez civilizacional.
Recordando, neste contexto, uma frase de Santo Agostinho, poderemos interpretar melhor um e outro: ‘em cada um de nós coexistem o maior santo e o pior criminoso... tudo depende do ambiente em que se desenvolverem’!

= Culturas em confronto?
João Paulo II e Osama bin Laden como que representam duas culturas e mesmo visões do mundo e até da expressão religiosa. Embora ambos fossem teístas – isto é, crentes em Deus – cada qual tinha e exprimia a sua relação com Ele e à sua volta com os ‘seus’ crentes de forma muito diferente um do outro. Sem extremismos nem fundamentalismos: o Deus de JPII era díspare do de bin Laden – talvez um seja mais de perdão e o outro mais de vingança; talvez um seja mais de opção pessoal e o do outro de massas em conquista... mas sem quaisquer guerras de religião ou de credos, como certas forças agnósticas e (pretensamente) laicas quiseram dar a entender noutras situações.
De facto, a cultura cristã e a cultura muçulmana têm em João Paulo II e em Osama bin Laden dois arautos bem categorizados no dealbar do terceiro milénio, pois de um e de outro podemos colher lições que hão-de perpetuar-se por longos anos – se bem que a fugacidade noticiosa tenha engolido ambos os acontecimentos – com a crise sócio-financeira portuguesa e as batalhas futebolísticas lusas e europeias... No entanto, não poderemos deixar submergir pela superficialidade daquilo que aconteceu nos primeiros dias deste mês de Maio. Cada uma destas figuras em apreço tem ramificações profundas nas suas culturas, pois a globalização do bemfazer pode ser ofuscada pelos efeitos do malfazer.
Há, apesar de tudo, breves questões que nos surgiram por ocasião das ‘celebrações’ a que temos estado a reportar-nos:
- Aquelas manifestações de júbilo pela morte de bin Laden não tentam ofuscar problemas mal resolvidos com a violência e o terrorismo?
- Aquelas manifestações de alegria pela morte de um terrorista não criarão mais violência e agressividade em volta de quem não respeita a vida... alheia?
- Até onde poderá ir o razoável de contestar os actos, sabendo respeitar as pessoas, mesmo daquelas que nos ofendem?
- Não estaremos com tais festas necrófilas a vulgarizar a morte, sobretudo violenta e dos inimigos, embora façamos dela um mito e a tentemos esconder do nosso trato quotidiano?
- Não estaremos a contribuir, com tais manifestações anti-terroristas, para que o mundo fique mais agressivo e sujeito à onda de mais violência?

Porque o meu código é o do perdão fiquei muito triste com ver tanto júbilo, quando tudo parece não ser mais do que show de circunstância!
Que por intercessão do beato João Paulo II não se faça mais recurso à violência nem ao terrorismo... físico, verbal ou moral. Esta seria a melhor graça que ele do Céu poderia derramar sobre a Terra!

A. Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)

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