Jornal de Opinião

São muitos os textos enviados para a Agência Ecclesia com pedido de publicação. De diferentes personalidades e contextos sociais e eclesiais, o seu conteúdo é exclusivamente da responsabilidade dos seus autores. São esses textos que aqui se publicam, sem que afectem critérios editoriais da Agência Ecclesia. Trata-se de um espaço de divulgação da opinião assinada e assumida, contribuindo para o debate de ideias, que a internet possibilita.

26/04/11

Quando a liberdade nos vem (essencialmente) de Cristo

Este ano a celebração da Páscoa ocorreu em data muito alta no calendário civil e colocou-a próxima da efeméride do ’25 de Abril’ – que é mesmo a segunda-feira após a Páscoa – com direito a feriado civil e como acontecimento de confraternização habitual... ainda antes da revolução... nalgumas localidades de Portugal.
Vivendo, no nosso contexto social, uma espécie de paradoxo, somos confrontados com díspares comportamentos que (até) podem explicar a nossa psicologia colectiva: o povo usufrui de feriados, enquanto os técnicos do dinheiro, vindos do estrangeiro, trabalham sem descanso... sem olhar ao necessário, mas concentrando-se no essencial. Aí está a diferença – a dedicação ao trabalho explica o sucesso e a boa prestação das contas públicas e privadas. Por outro lado, uns míseros raios de sol são (quase sempre) motivo para a preguiça... mas a obrigação de trabalhar não se compadece com regalias para o descanso ou uma preguiça (mais ou menos) institucionalizada.
Não seria mais justo e correcto evitar tolerância de ponto em vez da promoção do (nosso) despesismo descapitalizado? Não seria mais correcto e justo convidar à reflexão – seja qual for a religião – pessoal e familiar do que incentivar os gastos a crédito?
Este país não tem cura e os seus responsáveis estão, mesmo, doentes e à deriva!

= Liberdade de obrigações
Somos, de facto, um povo que ainda não conseguiu amadurecer a capacidade de construir o país à custa do compromisso de todos... Somos, de verdade, um povo que não sabe avaliar correctamente as suas vertentes de bem-comum, pois previlegia e adula os preguiçosos e contesta – mesmo que incoscientemente – as conquistas dos que se esforçam por construir riqueza... rotulando-os e combatendo-os em desnorte.
Mesmo no contexto político-partidário temos de saber distinguir que faz o país crescer ou quem tenta esconder-se por detrás de arbustos desfolhados em ordem a assustar-nos com fantasmas e falsas promessas ou desculpas. Com efeito, certas forças da (dita) esquerda falam e barafustam, mas nada constroem; acenam com bandeiras de ‘estado social’, mas não criam riqueza; azedam o povo, mas nem com um centavo ajudam na esmola para o funeral do país moribundo... Liberdade desta, não obrigado!

= Fuga da religião ou refúgio na alienação?
Por estes dias vivemos, em Igreja católica, intensos momentos da nossa fé. No entanto, vemos imensas pessoas singulares e famílias sairem para viver dias de férias, longe dos locais de residência e até da celebração da sua fé... habitual e tradicional. Há paróquias que se esvaziam porque os cristãos (mais) responsáveis saem para descansar... mesmo de Deus.
Numa preocupante alienação consumista vemos famílias inteiras usufruirem de ‘férias de Páscoa’, quando se esquecem – propositadamente – da causa destas pretensas férias. Com efeito, não foi por Jesus ter sofrido a Paixão e a morte, vivendo nós a Sua Ressurreição, que este tempo de Páscoa tem significado e conteúdo? Até onde irá a ignorância oportunista, que só pensa em si e nas suas razões e não acolhe o sentido profundo do (nosso) mistério... sobre esta terra?
Citando Saint-Exupéry: É fácil estabelecer a ordem de uma sociedade na submissão de cada um dos seus componentes a regras fixas. É fácil moldar um homem cego que tolere, sem protestar, um mestre ou um Corão. Mas é muito diferente, para libertar o homem, fazê-lo reinar sobre si próprio.
Mas o que é libertar? Se eu libertar, no deserto, um homem que não sente nada, que significa a sua liberdade? Não há liberdade a não ser a de «alguém» que vai para algum sítio. Libertar este homem seria mostrar-lhe que tem sede e traçar o caminho para um poço. Só então se lhe ofereceriam possibilidades que teriam significado. Libertar uma pedra nada significa se não existir gravidade. Porque a pedra, depois de liberta, não iria a parte nenhuma.
A. Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)





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