Jornal de Opinião

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11/05/11

Crise económica e outras crises

Certamente que da troika não se esperavam reflexões ou orientações para além do que se refere à crise económica e financeira que lhes dizia respeito.

Porém, a crise mais conhecida e que toca mais visivelmente a todos, se, como se diz, exige restrições e medidas que permitam pagar as dívidas e, depois, um maior crescimento, investimento, concorrência, alargamento das exportações e, por aí adiante, parece urgente dizer que a crise que nos toca a todos não envolve apenas milhões de euros.

Aceitemos que a situação penosa e crítica, alargada à Europa e a outros países longínquos, teve também influência no que se passou e se passa no nosso país. Mas, ainda neste caso, quais as causas reais que nos levaram a uma tal situação? O dinheiro, só por si, não provoca crises. Quem as provoca são os homens e mulheres que mandam, segundo os princípios e valores que comandam as suas vidas e determinam as suas opções; segundo a sua visão da economia e do serviço ao bem de todos; segundo a importância que se dá às pessoas e aos seus direitos fundamentais; segundo o conceito que se tem de economia social e de Estado Social; segundo o modo como se faz o jogo democrático ou se é dono e senhor, que a ninguém tem de dar contas. Mas, também, outras instituições e dinamismos sociais, segundo a educação que promovem a um povo que se deixa aliciar pelos bancos que tudo facilitam e nada perdoam e pela publicidade aguerrida que não permite respirar e, de modo inclemente, empurra para um consumismo descontrolado e asfixiante; e segundo a consciência de que todos podem atirar o país ao charco, por acções e omissões graves… Ora, de tudo isto se verificou e verifica entre nós, com influência na crise que atinge o país, mas não foi causada do mesmo modo por todos.

A vida em sociedade não se compadece com egoísmos de qualquer ordem, não se ordena à base da batuta de um qualquer génio ou que julga sê-lo, não progride sem o respeito por todos e o legítimo aproveitamento dos mais diversos contributos, tanto dos cidadãos individuais, como das instituições da sociedade civil. As ditaduras, claras ou disfarçadas, faliram e, se teimam em ressuscitar, a sua vida será sempre efémera O socialismo democrático, que jurou tornar o estado providência em verdadeiro estado social, com projectos incomportáveis, entrou em derrapagem na Europa e já sofre de convulsões de morte. As pessoas normais, sábias, sensatas, com um esclarecido sentido de responsabilidade e de cidadania, são, como sempre foram, determinantes na ordenação, desenvolvimento e reconciliação das sociedades.

De há muito, por todo o lado, a pretexto de progresso cultural, as pessoas sacudiram valores e normas morais e éticas. Deus e os deuses tornaram-se incómodos, as referências comportamentais desnecessárias. A insegurança pessoal e social instalou-se por todo o lado, os ídolos ocos multiplicaram-se, abafaram-se os medos para dar lugar e emoldurar mitos e preconceitos. A sociedade foi perdendo a coesão e as pessoas, o sentido da vida e da solidariedade diária, bem como os horizontes estimulantes para agirem de modo responsável e solidário. Soluções imediatas, interesses pessoais e ideológicos, êxito sem esforço, agir irresponsável, individualismo doentio, valores económicos e dinheiro, acima de tudo e de todos, fobia de inimigos a cada canto, tudo tem a ver com a crise, as suas causas e a capacidade de a superar. Uma sociedade sem cultura e sem moral e com dirigentes do mesmo tom, entra em crise e instala-se na crise, gerando novas crises. Onde as pessoas não contam como pessoas, tudo o resto conta a mais e vale a menos.

O problema da sociedade actual, como tanto se tem dito, não é apenas económico: é cultural, moral e ético. Aqui se devem procurar as causas e apreciar os efeitos à vista. A comunidade humana sem dimensão religiosa e sem respeitar e promover a família, célula fundamental de uma sociedade forte e consistente, torna-se irrespirável e perigosa. A troika pôde verificar as falhas e incoerências da administração com influência na crise financeira do país. Não lhe faltaram dados para um juízo crítico sobre nós e as nossas capacidades. Mas ela não é uma instância de reflexão moral, nem um grupo de bons conselheiros. O seu horizonte imediato era de dinheiro mal gasto, de despesas desnecessárias, de gastos em coisas secundárias e proteccionismos, de visão errada sobre crescimento e progresso, de falta de clareza nas prioridades sociais… Não veio fazer caridade. Por isso, deu orientações exigentes que são ordens a respeitar. Também aqui, onde está o dinheiro, está o poder de exigir.

Aos responsáveis de toda a ordem, cabe uma tarefa que vai para além da crise e das crises, e que implica a promoção de uma educação de valores, objectiva, alargada e consequente. O povo não lhes desculpará as omissões, nem a fuga para desvios sem horizontes de bem comum, nem os silêncios comprometedores, nem muito menos o fixarem-se em si, virando-lhe costas, por desprezo ou desrespeito.

D. António Marcelino


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