Jornal de Opinião

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01/07/10

Esperança média de vida aumentou

Nos três últimos anos – de 2007 a 2009 – a esperança média de vida à nascença, em Portugal, subiu nos homens para 75,80 anos e nas mulheres para 81,80 anos. Estes dados do Instituto Nacional de Estatística confere que as mulheres poderão viver, em média, mais seis anos do que os homens

No triénio anterior os homens viviam 75,49 anos e as mulheres 81,74 anos.
Se atendermos àqueles que têm, hoje, 65 anos a esperança média de vida nos homens será de 81 anos e nas mulheres poderá atingir 84 anos.
Estes dados, mesmo que meramente estatísticos, colocam-nos várias questões: como são cuidados os nossos velhos? Estará a família preparada para os enquadrar correcta e dignamente? O Estado cuida ou menospreza os ‘seus’ velhos? Até onde irá a ousadia cultural em favor dos velhos? Como será uma sociedade onde a maioria da população seja velha e as estruturas económico/físicas tenham sido pensadas para adolescentes?
Ao vermos estes dados como que nos lembramos de uma espécie de esquema, que resume a nossa vivência e a aceitação dos outros e de nós mesmos, tendo em conta a idade físico/biológica e a dimensão psicológico/espiritual: até aos vinte anos – posso tudo; dos vinte aos trinta – sei tudo; dos trinta aos quarenta – tenho algo a ensinar; dos quarenta aos cinquenta – já não sei tudo; dos cinquenta para a frente – tenho muito a aprender... Não será que a nossa capacidade de amadurecimento está (exactamente) na proporção inversa daquele esquema?

1. Qualidade de vida
Quem tenha hoje mais de setenta e cinco anos viveu, certamente, a II Guerra Mundial no tempo da sua infância, tendo, por isso, na sua maioria, sido submetida a uma atroz purga de necessidades mínimas. Houve pessoas que tiveram de estar nas filas do sabão racionado, do grão para moer em farinha, das senhas... para os mais diversos bens essenciais. Ora estas pessoas, vencidas as vicissitudes de antanho, chegaram à provecta idade de poderem usufruir de alguma qualidade de vida, sobretudo, junto dos seus filhos e netos. Mas dão-lhes em troca a catalogação para ‘lares’ – o termo continua a ser o de asilo ou de pensionato – de velhos, mesmo que os rotulem de ‘3.ª idade’. Por isso, a (dita) qualidade de vida como que se reduz à recolha – à custa da pensão de reforma e de outros acrescentos suplementares – de velhos e velhas em situação de quase cemitério de vivos.
Por outro lado, há quem tente apresentar refúgios onde a ‘qualidade de vida’ tenha outros atractivos. Até pode(re)mos encontrar soluções em favor de uma quase eutanásia implícita. Pois, quem entrega os seus velhos aos ‘lares’ e não os vai visitar, não estará a sepultá-los em vida? Quem tenta pagar serviços, mas não dá coração nas horas de fragilidade, não estará a fazer enterro em maré de festas e de comemorações?
A (pretensa) qualidade de vida será sobretudo um estado de alma e não pode ser (reduzidamente) uma espécie de ir amparando a carcaça sem criar soluções para a dimensão psicológica e espiritual... da pessoa fragilizada, hoje uns, amanhã outros!
A ‘qualidade de vida’ tem muito a ver com a dimensão moral/ética dos que a vivem, atendendo às mais profundas motivações, seja qual for a idade, a condição social ou mesmo o estatuto profissional.

2. Desafios culturais
Com a longevidade a crescer temos de enfrentar novos desafios culturais, pois muitas pessoas terão de ocupar o seu tempo para além da idade de trabalho em ocupação com horário rígido, isto é, na profissão remunerada e com impostos. De facto, não podemos reduzir a idade da reforma à capacidade de execução de uma determinada tarefa. Não podemos também obrigar todos a cumprir a mesma exigência laboral até ao tempo extremo de prova.
Urge, por isso, reflectir sobre novas formas de ocupação de tempo, levando-nos a estarmos ainda mais em favor dos outros:
- Não se criem falsos sistemas de voluntariado nem se iludam os desempregados com subsídios de prolongamento da preguiça.
- Valorizem-se as iniciativas de valorização das pessoas naquilo que elas sabem fazer, sendo úteis aos outros... sem as explorarmos.
- Recolham-se depoimentos de pessoas com histórias de vida para que não sejam sepultadas enciclopédias do saber com cãs de memória colectiva.
- Criem-se condições mínimas para que os nossos velhos não sejam tratados como crianças envelhecidas, mas antes sejam dignamente acolhidos na família e nos espaços de bem comum, como as igrejas, as colectividades e as autarquias.
Afinal, pelos cuidados que damos aos mais velhos se poderá aferir o nosso nível cultural, humano, espiritual e cristão.

A. Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)


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