Jornal de Opinião

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15/06/10

Fátima, Roma e Bento XVI com 15 mil sacerdotes

Quantas divisões militares tem o Vaticano? É conhecida a tirada de Estaline em relação a Pio XI: quantas divisões tem o Vaticano?

A cultura actual enxameia de receitas de “salve-se você mesmo”. São às centenas os livros e as mensagens da internet a apregoar uma salvação do mal, do pecado e da morte, fácil e sem Deus. E são muitas as tentativas de resolver os problemas do mal com a força, as armas, com o próprio mal e mil perversidades…
Bento XVI, o Pastor, segue outras vias: pede perdão do pecado de alguns padres perverterem o princípio de o Reinado de Deus ser feito de “pequenos”, abusando desses mesmos pequeninos, fracos e indefesos. Institui um ano sacerdotal com um patrono, S. João Maria Vianey, que viveu o básico, o abc da sua vida de sacerdote. O Papa usa uma linguagem teológica simples e profundíssima de fé e vida na coerência.
Consagrados na vida religiosa, para quê? Que sacerdotes e para quê? Bento XVI respondeu a ambas as questões em Fátima e em Roma. Em Fátima afirmou que os cristãos são consagrados “para viverem na fidelidade e em intimidade com Cristo”, “com um amor coerente, verdadeiro e profundo a Cristo Sacerdote”, “ a caminho para a oblação pura e santa nas mãos do Pai”.
No encontro de encerramento do ano sacerdotal em Roma deu a essência do ser sacerdotes. A sua identidade parte de Deus. São configurados com Cristo, Cabeça da Igreja ao serviço do seu Corpo: quem vos ouve a Mim ouve; a quem perdoardes os pecados serão perdoados; fazei isto (a Eucaristia) em memória de Mim; como Eu fiz (lavar os vossos pés) fazei vós também…
Disse o Papa:“ o sacerdote faz algo que nenhum ser humano, por si mesmo, pode fazer: pronuncia em nome de Cristo a palavra da absolvição dos nossos pecados e assim, a partir de Deus, muda a situação da nossa vida. Pronuncia sobre as ofertas do pão e do vinho as palavras de agradecimento de Cristo que são palavras de transubstanciação – palavras que O tornam presente a Ele mesmo, o Ressuscitado, o seu Corpo e o seu Sangue, e assim transformam os elementos do mundo: palavras que abrem de par em par o mundo a Deus e o unem a Ele. Por conseguinte, o sacerdócio não é simplesmente «ofício», mas sacramento: Deus serve-Se de um pobre homem a fim de, através dele, estar presente para os homens e agir em seu favor. Esta audácia de Deus – que a Si mesmo Se confia a seres humanos; que, apesar de conhecer as nossas fraquezas, considera os homens capazes de agir e estar presentes em seu nome – esta audácia de Deus é o que de verdadeiramente grande se esconde na palavra «sacerdócio».
O sacerdote vive as prioridades de Cristo contra a agitação e o stresse. Aceita com humildade a palavra de Cristo: deixem o activismo, vamos descansar e orar ao Pai. Para o sacerdote a Eucaristia e os sacramentos são o centro da sua vida; perdoa os pecados dos outros, pede e recebe o perdão dos próprios; anuncia a Palavra e quem o ouve, ouve a Cristo; age com caridade para os pequenos. Daí o pecado enorme de sacerdotes que abusam de crianças.
É um espanto que Deus opere coisas inauditas pelo sacerdote configurado com a pessoa de Cristo, “in persona Christi”. O sacerdote fala não apenas com Cristo mas no lugar d’Ele; não em seu nome de homem de barro, não com poder próprio, não separado d’Ele. Não se guia por uma teologia arrogante, sem Deus, feita de opiniões humanas mas mergulhada na fé da Comunidade, iluminada pela luz da Bíblia e pelo Catecismo da Igreja Católica.
O sacerdote deixa-se tomar por Deus no celibato, entrega-se ao “escândalo” de viver para Deus e não para uma vida vazia e egoísta de homem solteiro. Vive centrado na entrega da sua vida na Eucaristia e convidado a sair de si mesmo até à morte na cruz, “ao modo de Cristo”.
Ao contemplar no dia 11 de Junho a mancha branca dos mais de 15 mil sacerdotes na Praça de S. Pedro, face visível dos 400 mil no mundo, dos 350 bispos e de 80 cardeais, veio-me a resposta certa à questão de Estaline: afinal a Igreja de Cristo têm algumas divisões de largos milhares de “militares” do Reino de Deus. Armados com a cruz de Cristo. Chegam? São poucos? O Supremo General actual, BXVI, que Cristo pôs à frente do seu “ Exército” afirmou na vigília do dia 10 de Junho que são precisos apenas os que aceitam marcar presença “ao modo de Deus”, na intimidade com o Coração de Jesus, consagrados ao Imaculado Coração de Maria (em Portugal e Roma), como os escolhidos para vencer os madianitas e filisteus. “Facilitar o acesso às fileiras não resolve nada”, sem qualidade de fé cristã só vai complicar.
Roma, 11 de Junho de 2010
Aires Gameiro


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