Jornal de Opinião

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07/06/10

Ano sacerdotal - Critérios para um renovado ministério dos padres

Durante um ano – desde 19 de Junho de 2009 até 11 de Junho de 2010 – a Igreja católica tentou reflectir sobre a vocação, o ministério e a compreensão sócio/eclesial do ser padre... hoje.

Houve muitas iniciativas, algumas delas saídas do âmbito eclesiástico, com um certo sabor a auto-promoção, outras com teor de defesa e outras ainda com intenções saudosistas de um certo modelo de padre... com a colaboração de alguns clérigos e de uns tantos leigos.
Agora que está prestes a terminar o ‘ano sacerdotal’ como que nos surgem várias inquietações, tanto sobre o futuro – sobretudo na temática que há-de dinamizar a Igreja universal – como sobre as consequências que nos ficaram deste ano mais ou menos intenso da Igreja católica.
Sobre o primeiro aspecto – o do futuro – ousamos sugerir que o Papa possa lançar um ‘ano de São João’, pois, à semelhança de São Paulo, aquele eminente apóstolo e evangelista anda um pouco desconhecido da teologia, da reflexão e da espiritualidade dos nossos cristãos e mesmo dos responsáveis da Igreja. Seria muito útil e necessário dedicarmos um ano a estudar São João, tanto na versão do evangelho como na dimensão do apocalipse e cartas.
Relativamente àquilo que nos fica do ‘ano sacerdotal’ – para além de alguns lugares comuns, que pouco mais serviram do que para acirrar um certo clericalismo de acção e de intenção – fomos sentindo que falta interesse em abordar, de verdade, aspectos que atingem os actuais padres e aqueles que se sentem chamados ao serviço de Deus, na Igreja, pelo ministério sacerdotal.
Eis breves perguntas, que, posteriormente, tentaremos responder:
* Como é cuidado o acompanhamento humano, psicológico e espiritual dos padres no exercício das suas funções, sobretudo, paroquiais?
* Teremos comunidades cristãs onde o padre se sinta homem de Deus mais do que gestor de coisas humanas (talvez mais mundanas) que podiam ser exercidas por não-clérigos?
* Temos sabido fazer surgir condições mínimas nas paróquias ou nos outros sectores da vida pastoral para que os padres se sintam estimados mais do que tolerados pela necessidade sacramentalista de cariz social?
* Mesmo na dimensão económica, com especificidade evangélica, teremos encontrado desafios de partilha ou ter-nos-emos acomodado a sistemas de pagamento de serviços mais ou menos concordantes com a compreensão de cada lugar ou tempo?
Passaremos, agora, a esmiuçar cada um destes itens.

= Acompanhamento dos padres em funções paroquiais
De facto, um padre, sobretudo, em funções paroquiais é um celibatário solitário. Já lá vai o tempo, como dizia Camilo Castelo Branco, em que uma irmã se casava com o celibato do irmão padre. Hoje é, normal, vermos um padre sozinho que cuida desde a alimentação (comprar, cozinhar e comer... a sós) até às mais elementares regras da gestão de uma casa, como se fosse um ‘dono de casa’. Ora, digo por mim, o Seminário não deu noções de gestão doméstica. Temos de aprender ou, então, andamos a reboque de que quem seja mais ou menos generoso e nos faça algo de boa vontade ou a baixo preço.
O pior é a solidão com que tantas vezes nos temos de confrontar dentro das paredes de uma casa paroquial. Tristemente o dizemos: muitos e muitas dos que nos rodeiam não são gente de grande confiança, tanto ao nível humano (a cultura e a instrução deixa um pouco a desejar), como na dimensão espiritual (muitos e muitas abeiram-se do padre com múltiplas intenções... sobretudo para se promoverem diante dos outros paroquianos) e, por vezes, se nos damos com alguém, outros e outras ficam na retranca, na maledicência e, desgraçadamente, na coscuvilhice...
Sugerimos, por isso, que seja incentivado, desde a educação dos padres e, posteriormente, na vida pastoral, a que possa haver, ao menos, um casal – sensato, equilibrado, de boa formação humana, intelectual e espiritual – que possa enquadrar a vida do padre, dentro ou fora do espaço paroquial, mas com quem ele possa desabafar – há coisas que nos ocupam interiormente porque não temos com quem as partilhar! – e até vivenciar uma simples refeição, onde o comer não é razão mas oportunidade de sentir-se aconchegado e acompanhado.
Basta de heróis secos e de solteiros rezingões. Basta de padres tristes e amargurados. Basta de padres anódinos de afectos e em busca de compensações afectivo/emocionais. Basta de tanto desinteresse, pois se os padres não forem felizes (por dentro) não ajudarão os outros (por fora) a viverem na fidelidade a Deus... na Igreja.

= Gestão de coisas mundanas ou força espiritual?
No actual contexto de gestão paroquial – onde o ónus do trabalho e da responsabilidade cai, essencialmente, sobre o pároco (seja qual for a capacidade de desenvolvimento dos projectos) duma forma exigente e moralmente atroz – torna-se fundamental que sejam avaliadas as possibilidades de centrar o padre na sua função de mestre (pai ou irmão) espiritual, libertando-o das tarefas administrativas e organizando os serviços com pessoas capazes dentro da qualidade humana, técnica e, sobretudo, espiritual/cristã.
Sabemos que estes desideratos não são fáceis nem, muitas vezes, exequíveis a curto e a médio prazo. Mas temos de investir na promoção de pessoas adultas na idade e na fé, pois com certos aduladores/as não sairemos da gestão de conveniências mais ou menos controladas! Torna-se, por isso, urgente que saibamos gerar, mais do que gerir, novos cristãos convertidos à Pessoa de Jesus... continuamente.

= Dinâmica de evangelização pelo compromisso com os valores do Evangelho
Muitos dos actos do padre são mais questões de carácter social do que situações de vivência em favor dos outros, pelos outros e para os outros. Muitos/as daqueles/as que se aproximam da Igreja – paroquial ou menos formal – vêm em busca da solução de problemas imediatos, mais do que em razão de quererem crescer na caminhada da fé. Raramente quem procura o padre é para aprofundar – activamente ou pondo-se ao serviço dos outros – as razões da sua fé. Enquanto estivermos (como que) reduzidos a sermos uma espécie de estação de conveniência pouco ou nada faremos pela evangelização séria e consistente.
Urge que tenhamos bons cristãos para termos melhores padres. Urge que saibamos promover a família com dignidade para poderem surgir padres bem alicerçados no Evangelho.
O caminho tem de ser feito connosco e para aqueles a quem Deus nos enviar.

A. Sílvio Couto


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