Jornal de Opinião

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21/06/10

José Saramago: foi-se o homem... ficaram os livros

Eram 12,45 do dia 18 de Junho, quando Saramago se finou para este mundo e fechou os olhos e a boca para sempre.
Por todo o país e por todo o orbe, se ergueram logo diversas vozes a elogiar o falecido, enaltecendo a sua vida, a sua obra e o seu carácter.

Acorreram os nossos comentadores e políticos a “beatificar” o senhor e a pô-lo no “altar” da pátria, como se fosse um ilustre benemérito do povo, um notável educador da juventude ou um grande herói da nação. E estão no seu direito, reconheça-se, pese embora o oportunismo de alguns e a hipocrisia de muitos.

Correndo o risco de ser a única voz desafinada e até de ser mal interpretado, mas sem querer ofender alguém ou tirar a razão aos outros (quem sou eu?), permito-me entretanto dar a minha opinião sobre o escritor e discordar de muito do que se diz e se faz. É também um direito meu, que ninguém me irá negar certamente.

Não me afecta qualquer ressentimento pessoal a seu respeito (nunca o vi nem ele me fez qualquer mal alguma vez), nem nutro qualquer sentimento fundamentalista em relação às suas ideias ou ao seu modo de estar na vida. Ele, eu e os meus leitores temos todos igual direito.

Para dizer a verdade, logo que ouvi a notícia do seu passamento, rezei a Deus pelo senhor e pedi-Lhe perdão para as suas faltas, caso ele esteja na disposição de o aceitar.

Porém, com o mesmo direito que os outros têm de o idolatrar e exaltar, ouso eu perguntar a quem tiver a amabilidade de me ler: que fez o homem pelo país e que herança deixou ele à nação?

Ganhou uma medalha de valor internacional? Sem dúvida, e isso foi muito importante para o nosso país. Consta-me porém, desde há muito, que quem ficou de parabéns foi o Partido Comunista Português e os seus congéneres da Europa: pelo que se diz, através da sua poderosíssima máquina editorial, impuseram-no no mundo inteiro publicando as suas obras em diversas línguas, com traduções incomparavelmente melhores do que o próprio texto original. Conhecendo, como conheço, outros homens e mulheres de vulto na literatura portuguesa contemporânea que, em minha humilde opinião, escreveram e escrevem muito melhor do que ele, que valor posso eu reconhecer à medalha que lhe deram?

Deixou uma volumosa obra na literatura portuguesa? É verdade. Mas, de que tipo são as suas obras, que contributo deram à língua portuguesa e que influência positiva tiveram na mentalidade e nas atitudes dos nossos concidadãos?

Dir-me-ão que não se esperava de Saramago uma nova “Cartilha Maternal” como a de João de Deus… Certamente, até porque o homem era ateu, por credo, e controverso e resmungão, por natureza. Mas também, sendo assim um escritor tão excelente, tão excepcional, não precisava, para se impor, de falsear, macaquear e ridicularizar o grande património universal da literatura e da fé dos crentes que é a Bíblia. Não precisava de ofender a moral pública, usando como usava nos seus livros uma linguagem soez, baixa, pornográfica algumas vezes. Não precisava de inventar devassidões e vícios para conspurcar os personagens reais e históricos dos seus romances com quem não simpatizava ou que detestava de todo, como os reis, os padres e ou as freiras. Não precisava de desrespeitar as regras elementares da escrita e da gramática portuguesa.

Se calhar, foi tudo isso o que o tornou tão famoso! Provavelmente, no tipo de sociedade que temos… são esses os condimentos do caldo que mais se aprecia e mais se gosta!

Não me levem a mal, mas, sinceramente, eu não gosto da sua escrita.
Também nunca consegui entender, e continuo a não entender agora, o que levou o nosso Ministério da Educação a pôr como livro de texto obrigatório, nas escolas do país, “O Memorial do Convento”.

Terá sido pela qualidade da escrita? Que rica escrita os nossos estudantes aprendem no livro! Assim (sem pontuação, sem parágrafos, com períodos que enchem páginas inteiras e nos fazem perder o sentido do texto, sem distinção entre o discurso directo e indirecto….etc. etc.) toda a gente sabe escrever. Não é preciso chegar ao 12º ano! Isso é quase escrita de telemóvel! Isso é o que a nossa juventude sabe fazer melhor! É com exemplos desses que se desenvolve a Língua Portuguesa? A escrever cada um como lhe apetece… sem regras… sem normas… sem princípios?
Terá sido por causa das boas normas de educação que os nossos jovens aí podem receber e aprender? Como diria a minha saudosa mãe, “abrenúncio”!

Terá sido pelas saudáveis e correctas orientações morais e éticas com que o escritor procura influenciar os seus leitores? Onde estão elas? Não as consigo lobrigar!
Tirando uma imaginação inovadora e fecunda que é talvez o melhor dom que o adorna, e uma ou outra imagem estilística interessante, considero a sua escrita extremamente negativa e até prejudicial em toda a linha.

Seguramente, não é a sua escrita que contribuirá para o bom uso da língua portuguesa, nem os seus textos para educar correctamente a nossa juventude, nem os seus livros para elevar a moral e as atitudes da nossa população. E é por isso também que não gostei nada que o senhor presidente da República, no seu texto de pesar, recomendasse a leitura dos seus livros ás futuras gerações. Na minha óptica, uma estranha recomendação da parte do maior representante da nação.

Que Deus perdoe ao escritor… e que ele me perdoe a mim…
…se não estiver de acordo com o que acabo de escrever.

Resende, 19 de Junho de 2010
J. CORREIA DUARTE

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