Jornal de Opinião

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04/03/11

A fábula de uma rã...

Todos os meus estimados leitores são conhecedores de histórias de animais, aproveitadas por autores de grandes letras, para delas extraírem recomendações para os humanos.

É uma estratégia e um gosto que nos vem do longínquo sânscrito indiano, continuado mais tarde na Grécia por Esopo e tornado mais próximo para nós pelo francês La Fontaine.

Há dias, marcada de anonimato, entrou no meu portátil a pequena grande história de uma rã, que passo a resumir a meu modo:
Uma certa rã caiu num tacho de água fria e, sentindo-se à vontade, começou a nadar despreocupada e satisfeita. Daí a pouco, chegou a cozinheira, acendeu o fogão, regulou o bico do gás em lume brando, e retirou-se. A água começou a ficar morna, a rã estranhou um pouco, pensou até em saltar da água, mas, como o ambiente até nem era desagradável, foi-se deixando ficar a nadar dentro do tacho.
Entretanto, aumentando cada vez mais a temperatura da água, o batráquio começou a sentir-se dormente e com torpor, já incapaz de reagir e de saltar…e acabou por morrer cozida, sem remédio e salvação.

A história é simples de interpretar.

A moral da história, fácil de retirar.

Os nossos políticos de Abril acenderam a chama da liberdade no pequeno grande tacho do nosso fogão nacional. E bem, porque a liberdade é um dom e um direito.

A verdade é que, desde então, com certa estranheza do povo primeiro, com alguma habituação logo depois, tem vindo a desvalorizar-se no país a educação e o respeito, o pudor e o bom-senso, a seriedade e o compromisso, o casamento e a família, a religião e a fé, o amor ao trabalho e o hábito da poupança, a moral e os bons costumes, a disciplina e o rigor, o respeito pela autoridade e o acatamento das leis, a pontualidade e o serviço, a honradez e o mérito, a responsabilidade e o empenho, os ideais de vida e o esforço em alcançá-los… tudo ensinado lentamente, sem defecção ou desalento, em folhetins e novelas, em decisões e discursos, em documentários e notícias.

Infelizmente, o mau exemplo vem de cima.

Nas leis que vamos tendo, nos discursos que vamos ouvindo e nas imagens que vamos vendo, todos os dias, a todas as horas, exalta-se o egoísmo, facilita-se a promiscuidade, apoia-se a preguiça, premeia-se a má educação, escamoteia-se a corrupção e o roubo, desculpa-se a irresponsabilidade e o embuste, valoriza-se o oportunismo e a mentira, admira-se e evidencia-se a irreverência e o desrespeito pelas normas da moral tradicional, favorece-se e exalta-se a libertinagem, distribuem-se benesses e mordomias por clientelas partidárias, consome-se em vaidades o que há e o que não há, delapida-se o erário público, endividam-se o país e as famílias… e ridiculariza-se quem é honesto, marginaliza-se quem é pobre e esbulha-se do pouco que já tem a quem trabalha.

Que país o nosso!

Mesmo nas nossas aldeias, até há pouco tão regradas e tão sãs, os filhos nascidos de mães solteiras, a viver sem o seu pai, são já quase a maioria. Os casais juntos, a viver sem compromisso de espécie alguma, aumentam cada vez mais. Em 2008, os casamentos desfeitos pelo divórcio no país foram quase sessenta em cada cem. Nas clínicas do Estado, pagas por todos nós, eliminaram-se 65 mil bebés. A nossa juventude, sem trabalho e sem esperança, delapida a alma e arruína o corpo nas discotecas nocturnas e duvidosas do país. Colocam-se velhos nos hospitais, falseando-se o seu local de residência, para se poder ir passear para o estrangeiro sem que eles sejam estorvo. Morre-se já por aí, nas nossas terras, sem que os familiares ou os vizinhos dêem conta.

E, como se isso fosse normal e correcto, o país assiste a tudo… calado…conformado…habituado…votando…num torpor como o da rã.

Oxalá que, como a rã, não venhamos a acabar destruídos e queimados, sem salvação nem remédio.

Oxalá que não!

Resende, 25.02.11
J. CORREIA DUARTE


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