Jornal de Opinião

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25/03/10

Do alto da Cruz... nos vemos e interpretamos

No contexto da ‘Semana Santa’ escutamos essa interpelação profunda e altíssima de Jesus: ‘quando for elevado sabereis quem Eu sou’. De facto, é quando alguém é elevado – social, política, profissional e mesmo eclesialmente – que podemos perceber quem esse/a tal é, pois do alto – qual exposição aos demais – se manifestam melhor as qualidade e até os defeitos.

Ora, do alto da Cruz de Jesus podemos ver e interpretar não só Quem Ele é como, se nos detivermos naquilo que Ele disse, penetraremos ainda mais na profundidade da sua derradeira mensagem.
Sem qualquer intuito teológico ou hermenêutico, vamos tomar as palavras de Jesus na Cruz e sugerir breves pistas para a nossa vivência cristã da Páscoa.

* Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem (Lc 23,34).
Jesus apresenta, neste momento extremo da sua vida sobre a terra, um dos maiores distintivos da sua pessoa e da sua mensagem: o perdão. Com efeito, Jesus feito perdão do Pai para nós, torna-se o mais alto sinal do perdão para todos e para cada um. Já não é uma decisão futura, o perdão reveste-se da opção presente e com incidências sobre o passado de toda a humanidade pecadora. Efectivamente, é sobre o pecado que Jesus derrama o perdão, invocado do Pai para sempre.
- Vivemos, hoje, na lógica do perdão ou da vingança?
- Procuramos sentir e acolher o perdão de Deus pelo sacramento da penitência e reconciliação ou somos dos que se dizem impecáveis?

* Hoje mesmo estarás comigo no paraíso (Lc 23,43).
O intenso e agreste diálogo da Cruz, entre os dois condenados com Jesus, termina com o pedido, aceite e promissor, de que aquele que se reconhece pecador e, portanto, necessitado do perdão e da paz, estará com Jesus no Paraíso. Jesus cumpre as promessas, pois a única limitação a esse cumprimento será a nossa incapacidade em deixarmos que Ele nos preencha mais na totalidade. À semelhança da abertura do ‘ladrão arrependido’ também nós podemos, desde já, deixar que o nosso coração se plenifique de amor pela compaixão.
- Vivemos, hoje, na dimensão da vida eterna?
- Teremos sabido apontar, com a vida, a perspectiva de Deus àqueles que nos rodeiam?

* ‘Mulher eis o teu filho’ (...) ‘Eis a tua Mãe’ (Jo 19,26).
Estamos diante de um novo diálogo sobre o palco da Cruz: Jesus, João e Maria. Esta é dada como mãe ao ‘discípulo amado’ e este recebe Maria, mãe Jesus, como sua nova mãe. A maternidade e filiação da Cruz está perpassada, simultaneamente, de comoção e de abertura ao futuro na sintonia entre os corações de Jesus e de Maria. A Mãe das Dores torna-se Senhora da Consolação, na medida em que por Ela não ficamos órfãos, mas, antes, somos recebidos com ternura amassada de angústia.
- Vivemos, hoje, conscientemente, a dimensão materna da Igreja?
- Temos sabido apontar o caminho da ternura àqueles/as que connosco vivem?

* Meu Deus, Meu Deus porque Me abandonastes? (Mt 27,46; Mc 15,34).
Este grito de Jesus, em forma de oração, é contra o abandono. Na hora suprema, Jesus recorda o salmo que, certamente, tantas vezes rezara na família de Nazaré. Temos aqui um Jesus orante, que, humanamente, retracta a amargura do sofrimento, Seu e de todos os homens... ontem e como hoje. Mas Jesus não está a abandonado. Ele pretende lembrar-nos que precisamos de nos voltar para Deus, quando nos possamos sentir em idêntica situação.
- Estamos atentos aos abandonados, mesmo sob os nossos olhos ou em nossa casa?
- Como vamos combater, positivamente, o abandono e o isolamento?

* Tenho sede (Jo 19,28).
A sede de Jesus é física e espiritual. Cansado, exposto, extenuado... Jesus dá mostras de fragilidade, suplicando por alguém que Lhe dê algo para saciar a sede. Esta revela uma certa ansiedade humana: Jesus continua a suplicar, hoje, que Lhe saciemos a sua sede de amor, de compreensão, de presença, de compaixão...
- Enquanto cristãos, temos sabido interpretar as sedes de quantos/as querem ser saciados de Jesus?
- Sentimos, correctamente, os anseios dos nossos contemporâneos, mesmo que possam rejeitar um certo tipo de Igreja?

* Tudo está consumado (Jo 19,30).
Tudo foi cumprido. Jesus completa as profecias do Antigo Testamento, sobretudo, no contexto da Sua Paixão, as que se referiam ao ‘Servo de Iavé’ (cfr. Is 42,1-9; 49, 1-6; 50,4-11; 52,13-53,12). Mais de quinhentos anos depois ‘entendem-se’ aquelas profecias e o ‘servo de Iavé’ é o próprio Filho de Deus. É desconcertante o mistério de Deus!
- Como é que lemos os sinais de Deus na nossa vida?
- Procuramos espiritualizar os acontecimentos da nossa vida, lendo-os em Deus?

* Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23,46).
Expirando, Jesus dá-nos o seu Espírito, em contexto de paixão eterna. Atirado para a mais radical entrega, Jesus tudo dá, dando-se em imolação ao Pai pela humanidade ingrata e desgraçada. Vindo do Pai para Ele retorna, sem nada regatear, mas antes tudo redimindo e resgatando pela sua entrega intercessora.
- Na religiosidade que vemos – e até promovemos – saboreámos a entrega e a confiança em Deus?
- Nas etapas da nossa existência terrena, tentamos acolher as manifestações do Espírito Santo em discernimento com os outros?

À luz das palavras de Jesus na Cruz, tentemos meditar o mistério pascal do Senhor em cada tempo e lugar!

A. Sílvio Couto

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