Jornal de Opinião

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13/03/10

Evangelização dos afectos... pelo perdão

O mais recente candidato à Presidência da República lançou uma espécie de ideia/slogan para a sua campanha, segundo o qual, Portugal devia viver mais uma ‘diplomacia dos afectos’ em ordem a aproveitar o património lusófono, que tem estado um tanto esquecido.

Partindo deste desafio assaz político/ideológico – atendendo ao proponente com conotações humanitárias de avental – consideramos uma razoável sugestão para reflectirmos em tempo de Quaresma. Com efeito, este tempo de graça – pessoal e comunitário – chama-nos a olhar a nossa condição humana diante do perdão de Deus, tanto recebido como apreciado, tendo mesmo em conta as várias matizes da vivência de Igreja em maré de procissões, de confissões e mesmo de promoções... religiosas e folclóricas.

Por estes dias o ritmo da liturgia católica vai-nos encaminhando para a reflexão das matérias que devem ser aferidas à nossa conversão, abrindo-nos ao perdão de Deus.
O perdão atinge ou manifesta, sobretudo, a dimensão afectiva da pessoa humana e mesmo do próprio Deus. Quando Jesus foi interrogado, por São Pedro, sobre quantas vezes deveria perdoar a seu irmão se ele o ofendesse (cfr. Mt 18,21-35), Jesus, depois de apresentar o desafio de perdoar ‘setenta vezes sete’, conta uma parábola sobre dois devedores, que tendo um sido perdoado não reagiu da mesma forma nem com o mesmo impacto sócio/comunitário, tendo Jesus rematado com a frase/mensagem: ‘Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão do íntimo do coração’. Parece, então, poder deduzir-se que a dimensão do perdão se refere à nossa capacidade afectiva do perdão e envolvendo o mesmo perdão na vertente afectiva (emocional, psicológica e espiritual) da pessoa humana.

Vejamos, por isso, sucintamente, algumas facetas do perdão – dado e recebido – aos outros, a nós mesmos e (até) a Deus, tendo em conta que, por vezes, nem sempre é fácil deixar penetrar Jesus nesta nossa vertente complexa – porque não racional – e um tanto difusa da nossa personalidade.

- De quantas vezes somos confrontados com atitudes contraditórias entre o que se diz e o que se faz, senão mesmo entre o que se pensa e aquilo que move os nossos comportamentos.

- Em quantas vezes o coração sente e deseja algo de muito diferente daquilo que a inteligência – minimamente elucidada e até convertida – já compreendeu com alguma clareza.

- Por quantas vezes a luta – pois de combate espiritual se trata realmente – se trava entre os valores e os critérios, enfrentando-se na consciência em vias de melhor aferição aos valores do Evangelho e aos critérios de Jesus Cristo na vida de cada dia.

Ora diante desta urgência em fazermos da nossa vida – seja qual for a idade, a vocação ou o ministério; a descoberta, a progressão ou o compromisso – uma escola para a evangelização dos afectos, temos de nos irmos questionando, continuamente, pois a etapa da nossa conversão está em contínuo processo de maturação.

* ‘Alunos’ aprendizagens na universidade do perdão
Se atendermos à complexidade de termos de aprender ao longo da nossa vida terrena e, se interpretarmos o significado do termo ‘aluno’, que nos faz passar para a abertura à luz – ‘aluno’ será ‘quem não tem luz’ – teremos um razoável percurso a viver na dimensão perdão.
. Tendo em conta que o perdão nos faz entrar na dimensão divina dos afectos humanos, iremos penetrando na complexidade do mais íntimo, profundo e (talvez) secreto de nós mesmos...
. Tendo em conta que o perdão que recebemos de Deus nos diviniza, iremos sendo tocados pela graça divina, cuja identidade é ser misericordiosa.
. Tendo em conta a necessidade de recebermos e de darmos perdão, iremos descobrindo a necessidade do perdão que liberta, que nos pacifica e que abre aos outros.

* Promotores da cultura do perdão
Quando se percebe que a vingança é mais reveladora da nossa faceta não humana e até desumana, torna-se urgente perscrutar os sinais orientadores da promoção da civilização/cultura do perdão, onde os afectos tenham sido perdoados, curados e envolvidos pelo poder do perdão de Jesus Cristo. Com efeito, mais do que termos de viver a pedagogia do pedir perdão – para os católicos na dimensão do sacramento da Penitência e Reconciliação – nós precisamos, humildemente, de deixar-nos tocar pela misericórdia divina nas várias dimensões da condição humana: pessoal e familiar, social e comunitária, profissional e eclesial, etc.
À luz da Páscoa tudo ganha novo sentido, pois nos vamos despojando do ‘homem velho’, revestindo do fermento novo a partir do coração aberto, sensível e tocado por Jesus... pelo perdão dado e recebido, recebido e dado... continuamente!

A. Sílvio Couto

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