Jornal de Opinião

São muitos os textos enviados para a Agência Ecclesia com pedido de publicação. De diferentes personalidades e contextos sociais e eclesiais, o seu conteúdo é exclusivamente da responsabilidade dos seus autores. São esses textos que aqui se publicam, sem que afectem critérios editoriais da Agência Ecclesia. Trata-se de um espaço de divulgação da opinião assinada e assumida, contribuindo para o debate de ideias, que a internet possibilita.

29/03/10

Ao Compasso do Tempo - Crónica de 26 de Março de 2010

Leitura semanal dos problemas do Mundo e da Igreja

Tenho publicado uma série de textos nesta caminhada para a Páscoa, e deles recolher sinais de Esperança!
Hoje abalanço-me à estrada… Eu… Recordando o convite para os “Sinais de Fogo” de Miguel Sousa Tavares, no passado dia 15, em ordem a dialogar sobre a pedofilia de sacerdotes, nunca poderia ter previsto que, bem antes da conversa se estabelecer, já o meu telemóvel era bombardeado por conselhos de “treinadores” antes da “equipa” entrar em campo, por alertas em ordem a fazer-me entender, por comentários sob o halo da desconfiança…
Enquanto o preâmbulo decorria, o bom humor aconselhava-me a paciência.
Não era para menos… Até uma oferta recebi de ser submetido a um “ensaio geral”, sob o fogo de perguntas e respostas, mais indicações (presumo eu) de onde colocar as mãos e os pés, de não olhar de esguelha, de fitar as câmaras, acenando (interiormente) para “a malta” lá de casa, contentando o orgulho dos adeptos…
E lá transportei comigo a responsabilidade e a convicção, o estudo e o ensino de tantos doutos, e o júbilo de não ter aceite um magistério cénico, evitando as malhas do ridículo… Como comenta um amigo meu: “tornei-me iconoclasta ao repudiar… a “imagem”.
E tenho cogitado: se o assunto fosse outro (salários em baixa ou salários 0; desemprego; desilusões de quem não conseguiu entrada no mercado de trabalho; desproporções económico-sociais; misérias e tugúrios…) ninguém me teria telefonado! Tenho abundantes pontos de comparação: nas múltiplas vezes em que me têm convocado para sessões televisivas, não tenho sido bafejado por vozes “off”…
Mas o tema era um perigo para a Igreja: sexo e as infâmias cometidas com crianças e a sua objectividade.
A melhor forma de discutir tão profunda tristeza… não será a da luz da verdade? Ou a de evitar agravar ainda mais esse quadro vergonhoso, com o silêncio diante das vítimas?
Só sei que após a prestação televisiva, dos conselheiros, ninguém me telefonou! Resta-me a tranquilidade das mensagens sem fim recebidas. E a primeira, logo à saída do estúdio, de um bispo emérito.
O que terá a ver tudo isto com a Páscoa?
Um ponto muito concreto: há uma mentalidade de isenção (e de justiça) a renovar!
Que acham?

Lisboa, 26 de Março de 2010

D. Januário Torgal Mendes Ferreira
Bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança

http://castrense.ecclesia.pt

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