Jornal de Opinião

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08/01/10

Ano sacerdotal: Será a Igreja católica, realmente, ‘perita em humanismo’?

Nos últimos quatro meses senti de forma assaz difícil de gerir (humana e espiritualmente) a morte de dois padres: com idades diferentes (52 e 90 anos), em dioceses muito afastadas (Braga e Setúbal) e em circunstâncias quase antagónicas – um só foi encontrado três dias depois de morto, outro foi assistido, cuidadosamente, até exalar o último suspiro; um era um intelectual de rasgos impressionantes, o outro sem grande alarido soube converter-se ao Concílio Vaticano II; um destoava pela verborreia inflamada e saber, o outro cativava pela simplicidade e cordialidade...

Partilho, humildemente esta minha leitura – feita neste ano sacerdotal, que ainda vai decorrer até meados de Junho – ao ter-me angustiado sobre a forma como os padres são, hoje, vistos, acolhidos e acompanhados: somos, de verdade, pessoas sós – muito para além de celibatários, por vocação, temos de interiorizar que somos, por ministério, homens quase solitários por missão – e muitas vezes mal acompanhados – quase sem família de sangue, por opção, somos votados à apatia, por imposição, de tantos a quem nos damos... sem pouco (ou nada) receber em troca.
Iremos – como agora se diz – esmiúçar alguns destes aspectos, tentando ser positivos e não meramente denunciadores de vertentes menos agradáveis... pessoalmente.

* Como são vistos, acolhidos e acompanhados os padres?
Efectivamente, o mistério do padre é algo que o acompanha, desde a escuta da vocação – quantas vezes em tenra idade ou noutros casos em idade mais adulta – passando pela formação, tanto no seminário como na Igreja em geral, e amadurecendo o chamamento cada vez mais e, sobretudo, cada vez melhor.
Na medida em que o dom da vocação vai sendo burilado, assim se pode perceber que ele não pertence ao chamado, mas é dom da misericórdia divina.
Já lá vai o tempo em que ser padre – ou até de pertencer à sua família – era título de promoção social ou mesmo intelectual. O candidato, primeiro, e o ordenado, depois, tem de ter uma forte motivação espiritual e cultural para se ver quase no role dos inúteis, se não mesmo dos ‘mentecaptos’ para alguns intelectuais da nossa praça e de certos órgãos de comunicação social. Quantas vezes é prejudicial ser padre ou até ter alguém que seja seu amigo, pois pode denegrir a reputação dos interlocutores!
De facto, só por especial graça divina, um rapaz/homem pode entregar a sua vida a uma causa: a de ser ministro – isto é, servo e instrumento – de Deus na comunhão de Igreja católica.
Mais do que um simples ‘Cura d’Ars’, o padre dos nossos dias precisa de ter uma cabeça bem formada nas ciências humanas, teológicas e bíblicas, um coração fortemente alicerçado na entrega a Jesus e deixando-se conduzir pela mobilidade do Espírito Santo com humildade na Igreja a quem serve e ama.

* Celibatários por vocação – solitários por missão?
Afectivamente o padre sabe a Quem se consagrou e através de quem o fez. Desde a primeira hora tinha/tem como orientação – pessoal e emocional – viver em celibato consagrado por amor do Reino dos Céus. Ninguém foi enganado nem o mais incauto ou inconsciente. Por isso, certas notícias – reais ou mais exploradas – só servem para distrair do essencial ou disfarçar o mais básico... das questões. Com efeito, num tempo bastante erotizado nas intenções e no comportamento, a consagração celibatária do padre é, desde logo e quase sempre, motivo de escândalo e de controvérsia. Na medida em que o padre se sentir fundamentado teológica e espiritualmente nas palavras da consagração da missa, ele será capaz de confundir pela vivência e seduzir pela contemplação... dentro e fora da missa.
No entanto, o ferrete da solidão é ainda mais atroz, quando o padre tem de sorver as lágrimas das (in)confidências, de engolir as alfinetadas da inconveniência ou até as setas inflamadas da provocação... quantas vezes daqueles/as com que vive e é posto, continuamente, à prova... de fé, de confiança e de amor.
Nem sempre o acompanhamento dos superiores é o mais atento. Nem sempre a partilha dos companheiros é a mais solícita... Tão pouco a compreensão dos pastoreados/as é a mais adequada!

* Sem família por opção – votados à apatia por imposição?
Desgraçadamente o padre tem de viver um quase contínuo paradoxo: de falar de família – na correcta acepção do conceito: núcleo constituído na base de um compromisso estável entre um homem e uma mulher – e ele não a tem nem de sangue e talvez nem psicológica; de propor a noção da vida – rejeitando tanto o aborto como a eutanásia – mas ele não a transmitiu de forma biológica, embora a cuide denodadamente ao nível espiritual; de anunciar a proposta dos valores da compreensão e da comunhão entre as pessoas e as gerações, mas ele vive numa espécie de redoma... onde a solidão o pode tornar mais azedo e um pouco menos afectivo do que seria desejável.
Qual espécimen rara, o padre aponta para grandes desafios e corre o risco de tropeçar em pequenos engulhos; de pretender ser querido – mesmo sem a bajulação do populismo – de todos, mas sentir uma quase rejeição de muitos mais; de pensar que vale alguma coisa, mas ninguém lhe reconhecer qualquer autoridade...
Que a Igreja – dita perita em humanismo – não deixe esvaziar a sua materna solicitude para com cada padre, sobretudo tendo em conta os mais tentados e em crise.

A. Sílvio Couto

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