Jornal de Opinião

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26/10/09

Saramago, o provocador

Têm sido numerosas e frequentes, nas últimas semanas, após o lançamento da sua última obra, “Caim” inspirada num “manual de maus costumes e num catálogo de crueldade”, tal como Saramago apelidou a Bíblia, têm sido numerosas, dizia, as afirmações polémicas, provocadoras e agitadoras de Saramago sobre temas, situados, sistemática e obsessivamente, no âmbito da religião, da fé e do cristianismo, com destaque para a Igreja Católica.
Na sequência de tais afirmações provocatórias, têm surgido os mais díspares comentários, uns nitidamente contra, outros decididamente a favor e em defesa do autor das polémicas afirmações que foram feitas, não à mesa de um qualquer café, mas perante as câmaras de televisões, ou à frente de microfones de outros meios de comunicação social.
Seria absurdo e materialmente impossível exigir-se que as serenas e tranquilas águas de um qualquer lago ficassem indiferentes ou inertes a um pedregulho que alguém lançasse para o seu interior.
As águas só não responderiam ao lançamento da dita pedra, com uma sequencial formação de ondas, se elas estivessem completamente geladas.
Esta analogia da pedra e do lago vem a propósito de um conjunto de comentadores saramaguistas que, não só defendem cegamente as afirmações do autor da mais recente re-criação da história bíblica de Caim e Abel, como condenam, intransigentemente, toda a indignação que por todo o lado tem surgido na sequência, não tanto do livro em si, como sobretudo das suas polémicas afirmações proferidas por ocasião e após o seu lançamento.
Quereriam, talvez, os tais defensores de Saramago que o pacífico lago das crenças religiosas e da fé de milhões de crentes estivesse completamente gelado e ficasse indiferente ao arremesso de tantos calhaus provocadores.
Se Saramago defende o direito à “dissidência e à blasfémia”, tal como referiu em directo, num dos canais televisivos do País, terá todo o direito de o fazer, em seu próprio nome.
Mas será que os milhões de crentes, não terão também o direito ao respeito pelas suas convicções religiosas, pelas suas crenças e ritos sagrados?
As mais recentes afirmações de Saramago, baseadas numa leitura simplista e literal do Livro Sagrado, não me parecem que se integrem, minimamente, neste salutar princípio do respeito pelas convicções religiosas e pelos valores sagrados que certos símbolos, ou objectos, como a Bíblia, merecem, desde há milhares de anos, para milhões de crentes e até de muitos não crentes.
O que vale a Saramago é que os cristãos, à imitação d’Aquele cuja doutrina pretendem seguir, são tolerantes, compreensivos e sabem perdoar, mas não são gelo e também têm o direito à indignação.
Se tais provocações saramaguistas fossem dirigidas, a outro livro sagrado, como por exemplo, o Alcorão, talvez o prémio Nobel fosse obrigado, por segurança pessoal, a seguir o caminho do escritor Salman Rushdie, condenado à morte em 1989 pelos líderes do Irão, por causa de seu livro “Versos Satânicos”.
Sinceramente, mesmo no meu pleno direito à indignação, não desejo, nem defendo que tal venha a acontecer, pois tenho um pressentimento de que Saramago ainda vai acabar por ser tocado pelo dedo do Deus que diz não existir, apesar de conhecer as histórias da Bíblia, melhor do que muitos cristãos.

José Cerca

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