Jornal de Opinião

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17/03/12

Ao Compasso do Tempo – Crónica de 16 de Março de 2012

Por onde andam leigos e leigas que, na altura e no pós Vaticano II, foram arautos da esperança e da liberdade e de uma nova visão do mundo e da Igreja?

Tantos e tantas foram tema de marginalização e de má vontade por parte de hierarquia. Tantos e tantas marcharam em direcção à Casa do Pai dos Céus (lendo há dia um protesto de alguns, porque o Administrador Apostólico do Porto, à época, lhes interditou uma “reflexão comunitária de teologia para leigos”, a realizar no Convento de Cristo-Rei dos Padres Dominicanos, no Porto, em 1966, lá me deparei com os Carlos Castro Fernandes (médico), Mário Figueirinhas (editor), Joaquim Pinto Machado (assistente da Faculdade de Medicina do Porto), Joaquim Macedo (engenheiro), Francisco Lumbrales de Sá Carneiro (advogado), etc, etc, etc). Nessa década foram bem vivas pessoas que emergiram da Acção Católica e de outros sectores eclesiais, sendo menos activos os membros de movimentos novos, onde a carisma das coisas do mundo não eram muito do seu particular gosto.
A avaliação da atitude de Católicos (as) deste período funda-se, na maioria das vezes, no carácter “político” das suas posições. Como seria possível, em nome do Evangelho, ficar mudo ou reticente diante das magnas questões da “polis”! Quando se preconizava a independência entre a Igreja e o Estado, num tempo em que se adensaram as fidelidades dos bispos, dos padres e leigos ao poder constituído; quando se clamava por um pluralismo de opções no tocante à liberdade cívica e se propunha o respeito pela liberdade religiosa; quando nascia a posição discordante (Pragma, Tempo e o Modo, organismos da Acção Católica, virados para o mundo de trabalho, etc, etc) diante de leis e de orientações iníquas da autoridade civil em comparação com o ar sossegado de maioria dos baptizados; quando a guerra em África levantava problemas de consciência moral, sendo esta identificada com comportamento altamente subversivo; quando as confissões religiosas reclamavam direitos de cidadania versus a autoridade monolítica do mundo católico; quando, na mesma Igreja Católica, bispos anunciam perspectivas totalmente diferenciadas no referente à soberania vigente… poder-se-ia concluir que a leitura do mundo oferecia colisões e mal estar, indiferença ou silêncio, distanciamento ou enfado. Incoerentemente, os mesmos bispos que se pronunciaram na década de 50 sobre a “moralidade” ou “imoralidade” dos fatos de banho das senhoras mostraram-se incapazes de assumir a doutrina social do justo salário, do direito à greve, da capacidade de reunião ou de associação, da luta pela paz e do diálogo entre escolas ideológicas diferentes. Muitos padres e muitos leigos foram maltratados. Alguns ainda hoje são suspeitos. Saíram outros, pé ante pé… Outros, fragorosamente. Muitos outros limitaram-se a deixar-se escorregar no tédio. A “ovelha perdida” só e esquecida, não teve o cuidado do pastor vigilante.
Face a directrizes, uma Igreja que, nas sua hierarquia e laicado, se amedronta com a capacidade crítica e a discordância sadia, ao lado do receio perante um situacionismo em revisão (no mundo universitário, nos costumes sociais, na liberdade de imprensa, na urgência de uma democracia nascente), é uma marca dessa duração estreita da História.
É bem compreensível que os Padres Conciliares na sua Mensagem ao mundo (21 de Outubro de 1962), tenham salientado dois pontos da mensagem radiofónica do Papa João XXIII em 11 de Setembro desse mesmo ano: primeiro, o problema da paz entre os povos (“nós afirmamos a unidade fraterna dos homens, por cima das fronteiras e da civilizações); além deste, o Santo Padre relembra as exigências da Justiça Social.
Falar nessa altura de injustiças e justiça social, era ser intérprete de uma acção política. Evocar a comunhão solidária dos povos era revolver um dicionário de sociologia ou de meros interesses cívicos. “Sujar as mãos” não é muito da preferência de higienistas. Foi assim há cinquenta anos! Não avançamos muito. Os problemas temporais, ainda hoje, são demasiadamente profanos para serem pertença dos nossos devocionismos… (A Igreja em tempo de Concílio, Lisboa, Livraria Morais Editora, 1964, ps. 19-20). Mas na “Pacem in terris”, a enumeração por João XXIII de sinais de uma civilização foi a adopção pela Igreja de um código de conduta e de esperança, nascidos dos horizontes da secularidade e até da secularização. A autonomia e a liberdade da mulher, o repúdio do colonialismo, o culto dos direitos do ser humano (de associação, de emigração e imigração, da participação política, da escolha do próprio estado, etc.), a defesa da democracia… foram sinais de “ressurreição pascal”. Uma Igreja com mundo abre o mundo à Igreja!


Lisboa, 16 de Março de 2012
D. Januário Torgal Mendes Ferreira
Bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança


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